quarta-feira, 7 de maio de 2014

Plenitude

   Marcando o tempo, o vento trouxe o primeiro compasso da ‘Ave Maria’. Quinze minutos antes, as seis badaladas tinham soado. Como que prolongando o eco religioso, a cama de ferro chiou. Rimos e desembaraçámos os corpos. O leito cálido ressumbrava de amor, quente e profano.
   Ela ergueu-se, ajeitando o cabelo que se tinha soltado do coque. Nua, tão bela como sempre, virou-se, procurou os ganchos debaixo da almofada e encontrou-os. Com uma centelha de brilho no olhar, fixou-o no meu, enquanto enrolava as ondas prateadas como o mar numa noite de lua cheia. Pela segunda vez nesse dia, domou-as com a desenvoltura de anos de prática.
   Levantou-se e procurou a bata. Segurei-lhe na mão e beijei-lhes os dedos compridos, encurvados, marcados por pequeninas manchas. Sei de cor quando cada uma surgiu, como sei de cor as rugas do seu rosto que, de olhos fechados, traço com as pontas dos dedos. O seu pescoço perdeu a elasticidade, os seios estão caídos, a pele está flácida.
   Agora, o amor faz-se demorando-se nos recantos que descubro de cada vez, nos sulcos da pele, num sinal que aparece, num cabelo branco que cobre o louro de antigamente, as suas pálpebras estremecendo quando lhe deposito um beijo na pele.
   Finalmente, ganho forças e ergo o corpo pesado. Ela ajuda-me a vestir, a calçar os sapatos, ajeita-me os óculos e passa a mão pelo meu cabelo grisalho.
Saciadas, de mãos dadas, olhamo-nos demoradamente, e volto a ter vinte e cinco anos e ela, vinte e dois.


Este conto foi escrito de propósito para o meu livro 'Instantâneos'. É a primeira vez que o publico aqui. Podem ler outras histórias, algumas também originais, e outras que foram reescritas, clicando na imagem da capa no lado direito do blogue. Vão ter à página do livro na Index ebooks. Façam o download, é gratuito.

Leiam.  Espero que gostem e comentem, depois. :)

16 comentários:

  1. gosto muito deste conto.

    e já tinha saudades de ler um conto teu, mesmo um que já conhecia, só mesmo pelo prazer da leitura

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    1. eu também gosto.
      tenho que recomeçar a escrever, é tentar o estilo persuasivo, :)

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  2. Muito bom, mesmo :)

    Beijinhos Grandes

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  3. É um dos meus favoritos! Que venha o volume 2!! :-)

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  4. Margarida, começa a andar com um caderninho. Depois é só passar a limpo... Eu aderi a essa moda agora :D
    Por isso, força nisso para o segundo livro :)

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    1. há muito tempo que ando com esse caderninho, Horatius, mas não há maneira...
      vou tentar começar a escrever nestas férias de verão.

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  5. Gosto muito do conto, como gostei muito da generalidade do livro publicado
    Mas agora, depois de um justo tempo de "relax", toca a trabalhar em material novo...

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  6. Junto-me ao coro: venha o próximo :)
    Mais um belíssimo conto; e é assim mesmo que imagino o amor, sem tirar nem por :)
    Para já estou em falta, porque ainda não li, mas mesmo depois das dicas que me deste, ainda não me ajeitei com os ebooks nem com a aplicação para os ler :/

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    1. acho que é uma questão de prática. se precisares de ajuda, diz qualquer coisa.
      bjs.

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  7. Isto é o amor. Muito bem escrito. Parabéns.

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  8. Muito bonito. Adorei: "Enquanto enrolava as ondas prateadas como o mar numa noite de lua cheia".

    Estou em falha em ler o teu livro bem sei, mas ultimamente tem sido uns meses de cão. Enfim.

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