segunda-feira, 19 de maio de 2014

Tampa do ralo da banheira

'Durante algum tempo vivemos felizes. A minha mãe, que pastoreava sempre o triplo dos nossos sonhos, já se entretinha a desocupar mentalmente o Chinelo do quarto onde este dormia, um cão minúsculo e escuro, enrolado sobre si próprio exactamente a meio do quarto, como a tampa do ralo de uma banheira, e dava a sensação, quando eu passava por lá, de que quando o cão se levantasse toda a casa seria sorvida por aquela fenda imaginária de que o Chinelo nos defendia, e que reapareceríamos, dias ou semanas mais tarde, do outro lado do mundo...'

Valério Romão, Quando se pôs o meu irmão fora de casa, Granta Portugal 3.


Surpreendeu-me esta história bizarra, triste; o pai que expulsa o filho de casa, a mãe que deseja o seu regresso, o Rui à janela, olhando-os desamparado, e o irmão que ficou contente por lhe ter calhado o quarto do outro, além de se ter vingado da porrada que apanhou em miúdo. Um ricochete de emoções entre os de dentro e o de fora de casa. Gostei muito.

7 comentários:

  1. assim não vale: agora fiquei em pulgas para ler o resto. e só vou ter revista lá para o final da semana, na melhor das hipóteses.

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    1. é estranho, também publicou na primeira granta e eu achei um conto esquisito nessa altura. mas este é muito bom.

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  2. A rivalidade entre irmãos é tão antiga quanto o assassinato bíblico de Abel por Caim. É intrínseco. Vemos com frequência irmãos a disputar o carinho e a atenção dos pais.

    O pai que expulsa e a mãe que queda prostrada a chorar retratam bem o quadro mental, pejados de estereótipos, que criamos. Algum fundo de verdade terá: as mulheres, regra geral, são mais permissivas em relação aos filhos; não diria carinhosas, é difícil medir o grau de amor de um pai e de uma mãe. Mais facilmente demonstram o que sentem. E depois o pai, bonacheirão, quantas vezes, que gosta de pegar no cinto e de afugentar tudo com o seu vil instinto.

    um beijinho.

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    1. ele gostava do filho, mas teimoso, o jovem permanece fora, sempre fora, embora os laços se moldem de uma maneira muito própria, face a essa circunstância. mas mãe é mãe e sofre imenso.
      bjs.

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    2. *borrachão e não bonacheirão

      Odeio "dar" gralhas.

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  3. Eu também vou começar hoje a ler contos, mas de Mishima...

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