domingo, 1 de junho de 2014

O Doido e a Morte

 

O serão de sexta-feira foi muito bem passado no Teatro Municipal Joaquim Benite. A casa estava cheia para assistir ao penúltimo dia de representação da peça em um acto 'O Doido e a Morte', de Raul Brandão.

Esta versão híbrida, mistura de teatro e ópera, foi uma encomenda de Lisboa'94, Capital Europeia da Cultura e estreada a 9 de Novembro de 1994, no Teatro Nacional de S. Carlos. Fará vinte anos este ano, então. Com encenações de Joaquim Benite, co-produção do Teatro Nacional de S. Carlos e da Companhia de Teatro de Almada, em 1994, a música e libreto é de Alexandre Delgado. A reposição, desta vez, foi encenada por Rodrigo Francisco e contou, mais uma vez, com a direcção musical de Alexandre Delgado.

Gostei muito, pois nunca tinha assistido a um espectáculo deste género. Na primeira versão, peça de teatro, temos o Governador Civil e o Sr. Milhões, e toda a acção desenrola-se no gabinete do Governador Civil Baltasar Moscoso. Este encontra-se a exercer uma actividade marginal, isto é, a escrever uma peça de teatro e recebe a visita do Sr. Milhões, anunciado como o homem mais rico de Portugal. Traz consigo uma grande mala que contém o mais poderoso dos explosivos e escolhe o Governador Civil como seu companheiro na hora da morte. Num diálogo filosófico, hilariante, cómico e trágico, o Sr. Milhões discorre sobre injustiça e o absurdo da vida: «Há, efectivamente quem diga que estou doido, mas nunca a minha lucidez foi maior. [...] De resto, o que é a loucura e o que é o juízo?»

Na segunda parte (sem intervalo), a mesma peça é apresentada em formato de ópera, sendo interpretada por um tenor (o Governador Civil, que se encontra a escrever uma ópera quando é interrompido), o Sr. Milhões por um barítono e a esposa do Governador Civil, Aninhas, por uma meia-soprano.

Por curiosidade, a primeira vez que esta peça foi representada, em 1 de Março de 1926, no Teatro Politeama, em Lisboa, ficou envolta num clima de polémica, pois o pano caiu antes de o Governador Civil ter tido a oportunidade de dizer a frase com que encerra o texto, «para decência dos ouvidos das senhoras», segundo um dos organizadores da festa de beneficiência para os ardinas (objectivo da realização desta peça). Joaquim de Oliveira, o actor que interpretava o papel de Governador Civil, resoluto, ordenou que o pano voltasse a subir e, no meio dos aplausos, acabou por dizer a triunfante frase final.

No site do Teatro Municipal Joaquim Benite (aqui), encontra-se mais informação sobre esta e outras peças, incluindo a excelente crítica do 'Público'.

3 comentários:

  1. Muito interessante.
    Curioso que na récita de finalistas do Liceu (antigo 7º.ano), a peça que foi representada era de Raul Brandão - "O Gebo e a Sombra"...

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    1. nunca vi.
      sim, foi mesmo muito interessante, esta peça :)

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  2. para quem quiser assistir, no dia 7 de junho estará em Alcobaça
    http://www.ctalmada.pt/cgi-bin/wnp_db_dynamic_record.pl?dn=db_temporada&sn=temporada_14&orn=130

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