sábado, 7 de junho de 2014

O gato lembra-se de ti nos intervalos. Espera

O gato lembra-se de ti nos intervalos. Espera
de olhos acesos as histórias que nos contas.
Passeia-se inquieto sobre o meu parapeito e eriça
o pêlo, cúmplice, quando pressente que regressas.

Chegas sempre de noite. Sei quem és e ao que vens
e ofereço-te o silêncio de um pequeno quarto recuado,
as sombras das traseiras na minha pele, o tempo
de repetir um gesto inevitável. Ouço-te contar
a mesma lenda com lábios sempre novos. Aprendo-a
e esqueço-a. Nunca a saberemos de cor, o gato e eu.

Depois partes. Levas contigo a tua voz, mas a música
fica. Eu fecho as portadas devagar. O gato mia baixo
à janela. Ninguém acena: guardamos com os outros
o segredo das tuas visitas. Ambos. O gato e eu.

Maria do Rosário Pedreira, A Casa e o Cheiro dos Livros, em Poesia Reunida.

4 comentários:

  1. Tanto gato que volta nos intervalos :D

    LOLOL

    Beijinhos e bom fim de semana

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    Respostas
    1. uma criatura esforça-se...
      não tens uma pinga de romantismo. és um, olha, és um selvagem, Francisco! :D
      bjs. bom fim-de-semana :)

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