quarta-feira, 16 de julho de 2014

Flaca

   'Tu eras a rapariga branca que dançava bachatas, que pertencia às Señoritas Latinas Unidas e que já tinha ido três vezes a Santo Domingo.
   Recordo: costumavas oferecer-me boleia para casa no teu Civic.
   Recordo: à terceira eu aceitei. As nossas mãos tocaram-se entre os assentos. Tentaste falar comigo em espanhol e eu disse-te para parares.
   Hoje falamos um com o outro. Eu digo: Podíamos passar mais tempo com os miúdos, e tu abanas a cabeça. Quero passar mais tempo é contigo, dizes. Talvez na próxima semana, se ainda estivermos bem.
   Isto é o máximo que podemos esperar. Não desistimos de nada, não dizemos nada que possamos recordar durante anos. Olhas para mim enquanto passas uma escova pelo cabelo. Cada fio que se parte é tão comprido como os meus braços. Tu não queres desistir, mas também não queres sair disto magoada. Não estamos no melhor dos barcos, mas que queres que te diga?
   Vamos de carro até Montclair, onde a estrada do parque está quase deserta. Tudo está silencioso e escuro, e as árvores brilham da chuva de ontem. Num dado ponto, a sul das Oranges, a estrada atravessa um cemitério. Milhares de lápides com cenotáfios de ambos os lados. Imagina, digo eu, apontando para a casa mais próxima, que tinhas de viver num sítio destes.
   Aqueles sonhos que tu tinhas, digo eu.
   Estacionamos em frente ao vendedor de mapas e entramos na nossa livraria. Apesar da proximidade da faculdade, somos os únicos clientes, nós e um gato com três patas. Tu sentas-te num corredor e começas a esquadrinhar as caixas. O gato vai directo a ti. Eu percorro a secção de história. És a única pessoa que conheço que consegue passar tanto tempo como eu numa livraria. Uma espertinha; algo que não se encontra facilmente. Quando volto para perto de ti, vejo-te sem sapatos e a arrancar com as unhas calosidades dos pés, enquanto lês um livro para crianças. Eu ponho os braços em volta dos teus ombros. Flaca, digo. O teu cabelo esvoaça e prende-se à minha barba por fazer. Não me barbeio as vezes suficientes, para ninguém.
   Isto pode resultar, dizes. Se a gente quiser.'


Junot Díaz, É assim Que a Perdes, Relógio D'Água, 2013.

2 comentários:

  1. Magnífico texto :)

    Boa semana ;)

    Beijinhos

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    1. obrigada, Francisco. é o melhor conto deste livro e o mais parecido com a minha vida :)
      bjs.

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