sexta-feira, 11 de julho de 2014

Joana e César

   Por volta das cinco e um quarto, acordei com um barulho de uma das gatas no quarto-de-banho. Pensei logo na Joaninha que, com imensa força de vontade, lá se arrastava até à areia. Ouvi-a a remexer nas pedrinhas, as pernas bamboleantes, a ofegar, cansada. Levantei-me, abri a porta do quarto e lá estava ela, à porta do seu WC, sentada, respirando com muita dificuldade. A custo, levei-a até à taça da água, mas não conseguiu beber nada. Custa-lhe muito baixar o pescoço. Peguei na taça e levei-a ao focinho, esperei um pouco e lá deu umas lambidelas.
   Piorou. Há dias, ainda comia, embora deixasse de preferir a mousse gourmet e optado pelo atum ao natural. Assim, abria uma lata, colocava num pires um pouquinho e lá comia. Todos os dias tinha que abrir uma embalagem nova, que a Joana não comia nada depois de aberto e guardado no frigorífico. A Alice a a Elvira engordaram bastante, até ter começado a congelar a comida que ela não comia. Tentava alternar entre atum, mousse, pedaços com molho, mas ela preferia sempre o atum. Até há uns dias. Deixou de comer. Debicava, simplesmente. Começaram a aparecer altos na parte de trás do pescoço, os da frente aumentaram muito de tamanho. Emagreceu imenso, perdeu massa muscular, os olhos são imensos no rosto miudinho, as pupilas dilatadas. A medicação já não faz efeito. Esta manhã cheguei ao extremo de colocar água numa seringa e pingá-la na boca, tentando que ela bebesse algo. Lambuzei-a de Nutrigel-Plus, a pasta vitamínica, e coloquei-a na sua cama. Pouco a pouco, lá se deitou.
   Está a despedir-se. Sabe que é uma questão de horas. Sofre imenso, eu sofro por a ver assim e não posso fazer nada para minimizar a sua dor. Quando noto que se ergue um pouco, vou à cozinha, tiro o atum do armário, coloco no pires e aproximo-o do focinho. Lambe mais um pouco, depois afasta a cabeça. Espero, insisto novamente, ela repete um pouco e volta a afastar-se. Depois, nega-se, determinada, volta-me as costas. Só quer que a deixem em paz.
   Penso que chegou a altura de dar o derradeiro passo. Ela é o último laço com a minha vida passada. Foram catorze anos, mais ou menos catorze anos. Nem sei bem quando nasceu, talvez algures no Verão de 2000. Anos atrás, estipulei que Agosto seria o seu mês. Não chegará lá.

   Pedi a tarde de hoje e, após o almoço, vou buscar o César a casa da minha colega, a mesma que me deu a Alice. Ela não se quer ligar muito ao gato, embora o adore, já. Fala-me dele com ternura, imensa, diz que é um mimado, que adora colo, que a segue para todo o lado. Já foi castrado no sábado passado, mas ainda não levou as vacinas. Estou ansiosa e um pouco receosa. Como se portará com as outras gatas e elas com ele?

   Esta tarde, vou com a Joana e o César ao veterinário. Ele levará as vacinas, ela, bem, provavelmente despedir-me-ei da minha menina hoje. Não faz muito sentido adiar o momento. Custa, sim, custa muito, mas de que adianta esperar? Regressar a casa por mais dois, três dias, tentar mais uma vez e na próxima semana voltar lá e deixá-la definitivamente? Ela não melhorará. Não. Chegou a altura.
   O César chega na mesma altura que a Joaninha se prepara para nos deixar. Não substitui, nenhum dos meus gatos actuais substitui os outros, são tão diferentes. Passei por tantos momentos, alegres e tristes, muitas mudanças na minha vida. Esta é mais uma.

   Adeus, Joana. Olá, César.

20 comentários:

  1. um beijo, Margarida. fico sempre mudo de assombro quando nos mostras o teu coração.

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    1. obrigada, Miguel. custa-me muito ver como ela piorou em tão pouco tempo. já passei pelo mesmo há um ano, mas nunca é fácil.

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  2. Nunca é fácil... Só quem tem/teve tão carinhosos companheiros sabe. Força aí. Beijos pra você e lambidinhas pra Joana.

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    1. obrigada, Eduardo. a Joana levou muitas, sim.
      bjs.

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  3. :( Deve custar imenso. Até eu fiquei sentido agora ao ler as tuas palavras e nem conheço a Joana. Mas compreendo o amor pelos animais.

    Força, querida Margaria!
    Beijinhos a ti e à Joana. E que o César venha a ser um gatão, quete tendo a ti como dona já tem uma sorte imensa.

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    1. custou muito. muito, mesmo, despedi-me, mas ao contrário do Farrusco, não fiquei no fim. apenas quando levou o sedativo.
      o César é enorme. tem quase 5 kgs, embora não pareça. é muito calmo. não há azares de maior, apenas umas rosnadelas das gatas rainhas. e mais um que fica deslumbrado com a Batá :)
      bjs.

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  4. Margarida, como já te disse algumas vezes, não tenho grande sensibilidade para animais.
    Contudo, o teu texto deixa-me bastante consternado. Faz-me lembrar algumas coisas tristes, que me absterei de falar delas, porque o texto já tem tristeza suficiente. Pensa apenas que é o melhor para ela, que já está tão mal. E que lutaste para que ela fosse feliz cerca de 14 anos a teu lado.

    Quanto à castração do César.. Bem, continuo a dizer o mesmo de sempre: compreendo, mas arrepia-me! Coitadinho do animal, que não vai poder dar umas berlaitadas com as tuas outras gatas!

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    1. foi o melhor, Horatius. já estava com insuficiência renal. nada havia a fazer. já não sofre.
      foram 14 anos felizes, acredita. era uma gata que tinha muito medo, não gostava de colo, não ronronava. só aos 3,4 anos é que se aproximou de mim sem eu a forçar.
      o César está castrado, as gatas esterilizadas, é o melhor. não há cio, não há bulhas, não há descendência. já há muito animal abandonado por aí .

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    1. :( é a vida. foram 14 anos, como disse ali em cima. bons momentos.

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  6. Vou só deixar um beijinho e desejar força para te despedires da Joana.
    Gábi

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    1. obrigada, Gabi. já chorei o bastante. de manhã, enquanto escrevia o texto, fungava. a minha colega pensou que era alergia. só disse o desfecho quando saí à hora do almoço.
      bjs.

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  7. Lamento muito, Margarida. Nenhum gato colmatará a falta da Joana, mas sempre ajuda. Tenho a certeza de que o César será muito bem-vindo e acarinhado, tanto por ti como pelos restantes felinos.

    um beijinho de força e festinhas no pêlo de todos.

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    1. obrigada, Mark. ajuda. esforço-me por esquecer estes maus momentos e recordar os bons. a vida continua. será, com certeza. elas não estavam habituadas a rapazes novos no pedaço. resmungam agora, é natural :)
      bjs.

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  8. São momentos difíceis, mas chegou o dela.
    E claro que ninguém substitui ninguém, e com eles não será diferente.
    Bjo

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    1. chegou, mas chegou fulminante em poucos dias. é triste, mas foi melhor assim do que sofrer durante mais tempo.
      é uma nova fase, Sérgio. uma nova geração de gatos que me acompanharão, espero, durante os próximos 14, 16 anos :) a vida continua.
      bjs.

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  9. Eu sei o que custa dar esse passo de levar um animal querido ao veterinário para "lá ficar".
    Tu pelo menos tiveste um pequeno conforto com a chegada do César...

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    1. sim, custa, foi deixar a Joana, o veterinário levou-a para o soro com a injecção e eu fiquei abraçada ao César. ajudou.

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  10. Fiquei muito triste a ler este post... custa sempre. Muito.

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    1. custa, sim, Namorado. mas esta nova geração é tão diferente e 'selvagem' que há dias que nem me lembro dos outros. nem me dão descanso :)

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