quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Intervalo

   Naquela sala, fazia os deveres, sentada numa cadeira de rodas de madeira. A secretária era de madeira escura, com três gavetas. De vez em quando, no meio de uma tabuada, girava o corpo. Todos os dias havia uma tabuada. Engraçou na dos sete, por se lembrar da brincadeira ‘sete e sete são catorze, com mais sete vinte e um, sete macacos…’ Levantou um pouco a cabeça quando a campainha tocou. Três e meia. Intervalo da tarde. Tinha aulas de manhã ali em frente, no Magistério Primário. Não, naquela altura, já não se chamava Magistério Primário, mas hoje ainda ainda usa essas palavras. Ali, estudou da primeira à quarta classe. Foram cinco anos, contando com a pré-primária.
   Achou que, tal como os outros meninos, merecia um descanso. Abandonou a secretária, disse à D. Elizete, a mãe estava noutra parte do Laboratório, que ia para o jardim. A D. Elizete ocupava um grande espaço atrás da secretária em frente à sua, era uma senhora gorda dentro de uma bata branca e tinha uns óculos redondos e grandes, que lhe ocupavam grande parte do seu rosto corado. Ela acenou com a cabeça, sorriu e voltou ao mapa enrolado no carreto da máquina de escrever Mesa. A alcatifa cor de rato abafou os seus passos, mas caminhava devagar, consciente de que era o serviço da mãe, não podia fazer barulho, e na sala em frente estavam os seus chefes. Os dois médicos veterinários apanharam-na um dia na cave do Laboratório, sítio proibido, que cheirava a clorofórmio ou parecido. Faziam as autópsias ali. Ficou assustada com os olhares deles, mais do que com as suas vozes, ao ordenarem que subisse e nunca mais ali fosse.
   Assim, passou em frente da sala deles, desceu as escadas, deslizou pela porta de vai-vem, desceu os degraus de granito e virou à direita. Ouvia as crianças a gritarem. Gritos, risos, que ecoavam do alto, por entre as frondosas tílias, e começou a falar sozinha. Encostou-se ao muro de tijolos cor-de-laranja e espreitou para a rua. Os carros passavam, as vozes chegavam, agudas, e ela respondia que estava ali e que queria brincar com eles. Afastou-se, insatisfeita, virou-se para os canteiros e agarrou numa flor. ‘O teu pai é careca?’, murmurou. Depois, soprou. O suave algodão soltou-se. Desconhecia que era um dente-de-leão. Para sempre, até hoje, é ‘o-teu-pai-é-careca’.
   Baixou-se, agarrou numa pedra e desenhou uma macaca. Um quadrado, outro, mais dois lado a lado, mais outro… Numerou-os, atirou a pedra para o quadrado número um e, ao pé-coxinho, o pé esquerdo no chão, a perna direita encolhida, começou o jogo.
   A mãe surgiu na entrada, deu-lhe um pão com marmelada embrulhado num saquinho de pano, como um envelope, e uma garrafa de sumo de laranja, verde escura com letras brancas gravadas no vidro, já aberta. A carica?, lembra-se de perguntar. A mãe enfiou a mão no bolso da bata, tirou-a e depositou-a no bolso do peitilho das jardineiras. Tinha as mãos ocupadas, a boca cheia com pão, mas quando queria agradecer já a mãe voltara para dentro. 
   Sentou-se no banco de madeira, balançando os pés, enquanto mastigava o pão com marmelada e bebia goles de laranjada. Quando acabou, poisou o envelope do lanche e a garrafa no banco, sacudiu as migalhas e tirou a carica do bolso. Procurou a pedra, apagou a macaca do chão e desenhou uma pista comprida e curva como uma cobra. Escreveu a palavra partida numa ponta e meta na outra e colocou a carica no início. Ajoelhou-se, o polegar segurou o dedo indicador, largou-o e a carica deslizou na terra batida. ‘Ali vai ela, em primeiro lugar, uma curva apertada, uma rasante, mas conseguiu! Ganhou! Ganhou!

12 comentários:

  1. das duas duas: ou o conto está muito bom ou eu estava cheio de saudades de ler esta prosa. bravo!, grande comeback

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  2. Um conto muito divertido. Podia ser divulgado na literatura infantil. O jogo da macaca faz parte dos jogos minha infância. Não havia televisão nem computador......tínhamos de ser criativas. E ao longo da vida traçamos metas. Eu acabo de atingir uma. Sabes Margarida a minha equipa que tu achaste tão simpática, imagina que o Miguel com o seu poder de observação disse-me hoje sentiu nessa equipa a nostalgia da minha partida. Como no teu conto também ganhei, neste caso ganhei amigos de trabalho e deixo saudade. Parabéns pelo teu conto. Lídia

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    1. sim, terás saudades daí, como a tua equipa pensará em ti muitas vezes. amiga, profissional, líder, és isso e é muito difícil de encontrar hoje em dia.
      a menina... entendes agora? ;)

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  3. Por momentos fizeste-me voltar à infância... que bom! :D

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  4. Já não era sem tempo, Margarida.
    Será que me engano, mas há aqui muito de autobiográfico?

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    1. 95% :)
      não bebia sumol todos os dias.
      quando era adolescente retiraram a porta de vai-vem, que separava a sala que servia de recepção e o resto do laboratório.

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  5. Um conto muito bonito, como nos tens habituado. E, de facto, sinto muito de ti nele, pelas memórias que (nos) foste contando ao longo do tempo.

    Ultimamente tenho escrito muito sobre mim e o que me rodeia. Ando em paz, calmo, naturalmente inquieto, mas em paz.

    um beijinho.

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    1. a infância é o meu refúgio.
      ainda bem, Mark, :)
      bjs.

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  6. ‘sete e sete são catorze, com mais sete vinte e um, sete macacos…’ e tu és um, fora eu que não sou nenhum!
    As saudades que eu tinha desta frase! Já não me lembrava que ela existia! A infantil recordação que o teu texto me trouxe :)

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