Naquela sala, fazia os
deveres, sentada numa cadeira de rodas de madeira. A secretária era de madeira
escura, com três gavetas. De vez em quando, no meio de uma tabuada, girava o
corpo. Todos os dias havia uma tabuada. Engraçou na dos sete, por se lembrar da
brincadeira ‘sete e sete são catorze, com mais sete vinte e um, sete macacos…’
Levantou um pouco a cabeça quando a campainha tocou. Três e meia. Intervalo da
tarde. Tinha aulas de manhã ali em frente, no Magistério Primário. Não, naquela
altura, já não se chamava Magistério Primário, mas hoje ainda ainda usa essas
palavras. Ali, estudou da primeira à quarta classe. Foram cinco anos, contando
com a pré-primária.
Achou que, tal como os
outros meninos, merecia um descanso. Abandonou a secretária, disse à D.
Elizete, a mãe estava noutra parte do Laboratório, que ia para o jardim. A D.
Elizete ocupava um grande espaço atrás da secretária em frente à sua, era uma
senhora gorda dentro de uma bata branca e tinha uns óculos redondos e grandes,
que lhe ocupavam grande parte do seu rosto corado. Ela acenou com a cabeça,
sorriu e voltou ao mapa enrolado no carreto da máquina de escrever Mesa. A
alcatifa cor de rato abafou os seus passos, mas caminhava devagar, consciente de
que era o serviço da mãe, não podia fazer barulho, e na sala em frente estavam
os seus chefes. Os dois médicos veterinários apanharam-na um dia na cave do
Laboratório, sítio proibido, que cheirava a clorofórmio ou parecido. Faziam as
autópsias ali. Ficou assustada com os olhares deles, mais do que com as suas vozes,
ao ordenarem que subisse e nunca mais ali fosse.
Assim, passou em frente
da sala deles, desceu as escadas, deslizou pela porta de vai-vem, desceu os degraus
de granito e virou à direita. Ouvia as crianças a gritarem. Gritos,
risos, que ecoavam do alto, por entre as frondosas tílias, e começou a falar
sozinha. Encostou-se ao muro de tijolos cor-de-laranja e espreitou para a rua.
Os carros passavam, as vozes chegavam, agudas, e ela respondia que estava ali e
que queria brincar com eles. Afastou-se, insatisfeita, virou-se para os
canteiros e agarrou numa flor. ‘O teu pai é careca?’, murmurou. Depois, soprou.
O suave algodão soltou-se. Desconhecia que era um dente-de-leão. Para sempre,
até hoje, é ‘o-teu-pai-é-careca’.
Baixou-se, agarrou numa
pedra e desenhou uma macaca. Um quadrado, outro, mais dois lado a lado, mais
outro… Numerou-os, atirou a pedra para o quadrado número um e, ao pé-coxinho, o
pé esquerdo no chão, a perna direita encolhida, começou o jogo.
A mãe surgiu na entrada,
deu-lhe um pão com marmelada embrulhado num saquinho de pano, como um envelope,
e uma garrafa de sumo de laranja, verde escura com letras brancas gravadas no
vidro, já aberta. A carica?, lembra-se de perguntar. A mãe enfiou a mão no bolso
da bata, tirou-a e depositou-a no bolso do peitilho das jardineiras. Tinha as
mãos ocupadas, a boca cheia com pão, mas quando queria agradecer já a mãe voltara
para dentro.
Sentou-se no banco de madeira, balançando os pés, enquanto mastigava o pão com marmelada e bebia goles de laranjada. Quando acabou, poisou o envelope do lanche e a
garrafa no banco, sacudiu as migalhas e tirou a carica do bolso. Procurou a
pedra, apagou a macaca do chão e desenhou uma pista comprida e curva como uma
cobra. Escreveu a palavra partida numa ponta e meta na outra e colocou a carica
no início. Ajoelhou-se, o polegar segurou o dedo indicador, largou-o e a carica
deslizou na terra batida. ‘Ali vai ela, em primeiro lugar, uma curva apertada,
uma rasante, mas conseguiu! Ganhou! Ganhou!’
das duas duas: ou o conto está muito bom ou eu estava cheio de saudades de ler esta prosa. bravo!, grande comeback
ResponderEliminarobrigada, Miguel. :)
EliminarUm conto muito divertido. Podia ser divulgado na literatura infantil. O jogo da macaca faz parte dos jogos minha infância. Não havia televisão nem computador......tínhamos de ser criativas. E ao longo da vida traçamos metas. Eu acabo de atingir uma. Sabes Margarida a minha equipa que tu achaste tão simpática, imagina que o Miguel com o seu poder de observação disse-me hoje sentiu nessa equipa a nostalgia da minha partida. Como no teu conto também ganhei, neste caso ganhei amigos de trabalho e deixo saudade. Parabéns pelo teu conto. Lídia
ResponderEliminarsim, terás saudades daí, como a tua equipa pensará em ti muitas vezes. amiga, profissional, líder, és isso e é muito difícil de encontrar hoje em dia.
Eliminara menina... entendes agora? ;)
Por momentos fizeste-me voltar à infância... que bom! :D
ResponderEliminar:p
EliminarJá não era sem tempo, Margarida.
ResponderEliminarSerá que me engano, mas há aqui muito de autobiográfico?
95% :)
Eliminarnão bebia sumol todos os dias.
quando era adolescente retiraram a porta de vai-vem, que separava a sala que servia de recepção e o resto do laboratório.
Um conto muito bonito, como nos tens habituado. E, de facto, sinto muito de ti nele, pelas memórias que (nos) foste contando ao longo do tempo.
ResponderEliminarUltimamente tenho escrito muito sobre mim e o que me rodeia. Ando em paz, calmo, naturalmente inquieto, mas em paz.
um beijinho.
a infância é o meu refúgio.
Eliminarainda bem, Mark, :)
bjs.
‘sete e sete são catorze, com mais sete vinte e um, sete macacos…’ e tu és um, fora eu que não sou nenhum!
ResponderEliminarAs saudades que eu tinha desta frase! Já não me lembrava que ela existia! A infantil recordação que o teu texto me trouxe :)
:D
Eliminaréramos tão felizes naquela altura...