sábado, 13 de setembro de 2014

O sol da tarde

Este quarto, como o conheço bem.
Agora alugam-se quer este quer o do lado
para escritórios comerciais. A casa toda tornou-se
escritórios de intermediários, e de comerciantes, e Sociedades.

Ah este quarto, não é nada estranho.

Perto da porta por aqui estava o sofá,
e diante dele um tapete turco;
ao pé a prateleira com duas jarras amarelas.
À direita; não, em frente, um armário com espelho.
Ao meio a sua mesa de escrever;
e três grandes cadeiras de vime.
Ao lado da janela estava a cama
onde nos amámos tantas vezes.

Estarão ainda os coitados nalgum lugar.

Ao lado da janela estava a cama;
o sol da tarde chegava-lhe até metade.

... De tarde quatro horas, tínhamo-nos separado
por uma semana só ... Ai de mim,
aquela semana tornou-se para sempre.

Konstandinos Kavafis, Poemas e Prosas, Relógio D'Água, 1994.

4 comentários:

  1. Gostei, apesar da nostalgia que senti

    Beijinhos

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  2. uma das coisas fantásticas da poesia é que descobrimos sempre um poema, ou mesmo um verso, como se fosse a primeira vez. nunca me tinha fixado neste poema, que é poderoso, como todos os do Velho.

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    1. sim, foi uma descoberta. obrigada, quarteto :)

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