domingo, 28 de setembro de 2014

Stoner

Comprei-o na sexta-feira, comecei a ler no comboio, de regresso a casa, e pelo Goodreads, recomendei-o a amigos, ainda poucas páginas tinha lido.

Em 1910, Stoner, filho de agricultores pobres, trabalhava na quinta de familiares enquanto tirava o curso de Agronomia, na Escola Agrária, na Universidade de Columbia. No segundo ano, frequenta a disciplina obrigatória de Literatura Inglesa e apaixona-se pela matéria, ao ponto de mudar de curso e licenciar-se em Letras, quatro anos depois. Morre em 1956, aos sessenta e cinco anos, de cancro.

Stoner é a história de um tímido, banal e solitário professor universitário, escrito de uma forma pungente, triste, emotiva. A sua vida é feita de dissabores, não sabendo lidar com as situações, deixa-se levar pelas circunstâncias, encontra a paixão, o amor, nos livros, nas aulas da faculdade que leciona durante quarenta anos. Uma vida votada ao fracasso, um casamento triste e sem amor, uma mulher e filha frias, o caso amoroso que tivera de abdicar, passa as duas Guerras Mundiais na faculdade, perde um amigo na Primeira Guerra. No entanto, não abdica dos seus valores, do seu amor à literatura e apesar de uma inimizade com o professor seu superior, enfrenta-o, reconquistando as suas aulas, e torna-se uma espécie de lenda.

Muitas vezes não encontro palavras para escrever o quanto um livro me toca, e este é um romance pungente, tão comovedor que, em certas alturas, me fez chorar. Stoner é diferente de todos os heróis literários que conhecemos, é apagado, tristonho, tímido, de ombros curvados, brando, digno, mas ama a literatura, de uma forma tão poderosa que é incapaz de traduzir em palavras esse sentimento nas suas aulas.

'As coisas que ele mais acarinhava eram profundamente traídas, quando falava delas às suas turmas; o que havia de mais viçoso murchava nas suas palavras; e o que mais o comovia tornava-se frio quando proferido pela sua boca. E a consciência desta sua falha afligia-o de tal maneira que a consciência dela se tornou parte da sua pessoa, como a curvatura dos seus ombros.' (p. 104).

O livro abre com o seu obituário, um primeiro longo parágrafo que resume a sua vida, um professor assistente pouco recordado pelos alunos depois de acabarem o curso. Um professor obscuro que dedicou a sua vida a um amor absoluto, aos livros, e, como diz o autor John Williams, numa rara entrevista no final da vida: «Penso que ele é o verdadeiro herói. Muitas pessoas que leram o romance acham que Stoner levou uma vida muito triste e má. Eu julgo que ele teve uma vida ótima. Fez o que gostava de fazer, teve uma certa noção do que fazia e da importância do seu trabalho. (...) O emprego deu-lhe um tipo especial de identidade e fez dele quem ele era [...] é o amor pela coisa que é essencial. E quando amamos uma coisa, compreendemo-la. E se a compreendemos, aprendemos muito. É a falta desse amor que define um mau professor.»

Stoner é um romance perfeito, perfeito na escrita, na história, no herói, um romance resgatado ao esquecimento. Escrito em 1965, há poucos anos foi traduzido para francês e foi a escolha dos leitores da livraria britânica Waterstones como o melhor livro do ano de 2013.

13 comentários:

  1. Vi a tua sugestão hoje! :-)
    É em Português?

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    1. acabado de publicar. e curioso, acabei agora de ler uma crítica fabulosa no público-ípsilon: http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/o-abismo-do-heroi-intimo-1670744

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  2. És uma verdadeira "No Stop" :D

    Creio que tenhas um desafio para ti, no meu canto :)

    Beijinhos e boa semana

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  3. Era o que lias no metro. :)

    um beijinho.

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  4. Respostas
    1. sim, mas no metro também leio :)
      é um vício.
      agora estou de férias, tenho um montão de livros para ler mas amanhã vou ali à biblioteca pesquisar uns recomendados no goodreads :)
      curem-me :)
      bjs.

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  5. Se não tiveres já emprestado ou se não houver alguém à minha frente na "lista de espera" traz-mo no domingo se realmente nos encontrarmos.

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