terça-feira, 28 de outubro de 2014

Negócios de César

"BISPO
   Verdade. Pelos frutos é que se conhece a árvore. O Cortiçal, antes de si, era um meio pacífico e obediente. Hoje, é um fervedoiro de divisões e hostilidades. Minto?

PADRE MARTINHO
   (Rígido.) Com todas as minhas imperfeições e impotências, mais não fiz do que seguir o apelo de Cristo: «Tive fome e deste-Me de comer, tive sede e deste-Me de beber, era peregrino e recolheste-Me, estava nu e vestiste-Me, enfermo e visitaste-Me, prisioneiro e vieste ver-Me.»

BISPO
   (Irritado.) Esse é o programa de todos nós. Mas o senhor fomentou a rebeldia, atirou os operários contra os patrões, os camponeses contra os donos da terra! Acha que serviu assim a Igreja? As queixas que, por causa da sua conduta, tenho aqui recebido são um nunca-acabar: o padre Martinho destroçou a paz do Cortiçal.

PADRE MARTINHO
   (Triste, gravemente.) Vivemos num país em que, como disse Sua Santidade João XXIII, «às condições de extrema miséria de muitíssimos se opõe, em gritante e ofensivo contraste, a abundância e o luxo desenfreado de poucos privilegiados». Num país em que «enorme percentagem do rendimento é absorvida para fazer valer ou alimentar um mal entendido prestígio nacional». Como poderá um sacerdote de Cristo acomodar-se e manter uma paz destas? Sem trair? Sem trair a Cristo Nosso Senhor?! Sim, é verdade: Eu levei a desordem ao Cortiçal.

BISPO
   Tomou parte em actividades políticas.

PADRE MARTINHO
   Lutei pela justiça.

BISPO
   (Gelado.) Chegámos ao fim desta audiência.

PADRE MARTINHO
   Mas eu protesto, senhor Bispo! Porque é que só ouvem a voz dos ricos? Os pobres também falam e devem ser escutados.

BISPO
   Mais nada, padre Martinho. A Igreja considera prejudicial a sua presença no Cortiçal. Pelo menos na hora que este país atravessa. Mais que nunca se deve dar a César o que é de César e a Deus o que for de Deus: O padre Martinho - contra a minha orientação! - meteu-se nos negócios de César, pessoalizou coisas que nunca deviam ter sobressaído da atitude geral e sempre prudente da Igreja, desrespeitou a hierarquia. Sobejas razões estas para que seja retirado dessa paróquia. Para que, afastado, medite, estude e cuide de se moderar. A seu favor, tem a juventude. (Levanta-se.) Adeus, padre Martinho."

pp. 38-40.

Bernardo Santareno, A traição do padre Martinho, Edições Ática, 1973, 3.ª edição (1.ª edição, 1969).

6 comentários:

  1. Já li há tanto tempo...
    Tenho a obra completa de Bernardo Santareno em 4 volumes.

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    1. agora estou a pôr em dia um autor que negligenciei durante tantos anos. estou fascinada.

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  2. Fabuloso

    Obrigado pela partilha

    Beijinhos

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  3. Tal como o João, já li há muito tempo. Isto de ser sénior tem dessas coisas :-)
    Obrigado pela sua mensagem no dia do meu aniversário, Margarida
    Beijinhos

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    1. espero que a viagem tenha sido proveitosa, Carlos :)
      bjs.

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