terça-feira, 7 de outubro de 2014

O pôr-do sol em quiaios é termos sido felizes


LITERATURA EXPLICATIVA

O pôr-do-sol em espinho não é o pôr-do-sol
nem mesmo o pôr-do-sol é bem o pôr-do-sol
É não morrermos mais é irmos de mãos dadas
com alguém ou com nós mesmos anos antes
é lermos leibniz conviver com os medicis
onze quilómetros ao sul de florença
sobre restos de inquietação visível em bilhetes de eléctrico
Há quanto tempo se põe o sol em espinho?
Terão visto este sol os liberais no mar
ou antero de junto da ermida?
O sol que aqui se põe onde nasce? A quem
passamos este sol? Quem se levanta onde nos deitamos?
O pôr-do-sol em espinho é termos sido felizes
é sentir como nosso o braço esquerdo
Ou melhor: é não haver mais nada mais ninguém
mulheres recortadas nas vidraças
oliveiras à chuva homens a trabalhar
coisas todas as coisas deixadas a si mesmas
Não mais restos de vozes solidão dos vidros
não mais os homens coisas que pensam coisas sozinhas
não mais o pôr-do-sol apenas pôr-do-sol

Ruy Belo, Homem de Palavra[s]

Duarte, João, eu e Miguel, castelo de Montemor-o-Velho

10 comentários:

  1. Excelente post com um aproveitamento magnífico de um belo poema de Ruy Belo.

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  2. wow, Margarida, esse poema é poderoso. e tu tê-lo escolhido para 'comentar' uma ocasião em que participei, ou melhor dizendo: que comunguei, deixa-me comovido.
    Bem-hajas

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  3. Um poema lindíssimo. :)

    um beijinho.

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  4. Uma conjugação perfeita! Quero conhecer essa praia :)

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