quinta-feira, 16 de outubro de 2014

O que faltava era eu mesmo

 
"... Naquela paisagem eu via, pela primeira vez, o infinito do mundo. Não que a paisagem me tornasse pequeno, mais pequeno do que eu era. Acontecia, sim, que eu perdia noção de mim, eu deixava de ter tamanho. A viatura parada, os meus irmãos reclamando que dali «não se via nada».
   Só mais um bocadinho, supliquei.
   Não havia, porém, bocadinho que chegasse. Não era tempo, o que me faltava. O que faltava era eu mesmo. Lembro-me de um pequeno texto do uruguaio Eduardo Galeano, que diz o seguinte.
   «Diego não conhecia o mar. O pai levou-o para que descobrisse o oceano. Viajaram para o Sul. Depois de muito caminhar, o mar enfim surgiu. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto o seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu: Pai, me ajude a olhar!»"

Mia Couto, Quando me fiz escritor?, Granta Portugal 4 - África, Outubro 2014.

2 comentários:

  1. Adoro o Mia Couto. Até porque é originário de uma terra que sentimentalmente me diz muito.

    um beijinho.

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    1. eu também gosto e tenho vários livros dele.
      já eu nunca fui a Moçambique nem a família esteve por lá. sou do outro lado :)
      bjs.

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