terça-feira, 14 de outubro de 2014

Súplica

O outono demora-se no mundo
A juventude há muito despediu
a primavera da primeira ave
Respiro as lágrimas das raparigas
recordo-me do seu odor nocturno
Escuto o movimento lento da ramada
esqueci a escada habitual do dia-a-dia
a cortina da chuva corre-se de novo
Nesta manhã de outono aluviões da vida
murmuram-nos mulheres minuciosas
O ombro da colina ergue o nevoeiro
na madrugada não cantaram melros
A areia bebe cheia a chuva enquanto
nós infinitamente nos distanciamos
de quanto - diz a santa - desejamos
Aonde está a mãe da minha infância?
Talvez com ela tudo começasse
É nos fins do verão alguém morreu
foi-se a ferocidade das cigarras
no caminho das tílias percorridas
Deixo cair as mãos pois nem me restam essas
aves do mar que a tempestade impele
em tempo de equinócio para a costa
É o cabo do mundo é o fim do ano
a era da perfeita culpabilidade
Respiro já os meus últimos dias
Sobre este céu nenhuma ave adeja
Que a terra humedecida me proteja

Ruy Belo, Transporte no Tempo (Todos os Poemas)

10 comentários:

  1. não devias ter posto este, Margarida, não tinhas nada que pôr o RB a falar de mim no teu blog

    ;)

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    1. vim relê-lo. uma lucidez tão assombrosa que chega a ser um bocadinho cruel; ou cruelmente Belo (para pegar num mote aí mais abaixo)

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    2. por que o escolhi? um desencanto, uma tristeza, a morte já não tão longe... o frio...

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  2. Respostas
    1. Belo. transporta-nos para um universo tão próprio, cheio de solidão, tristeza, mas também de humanidade. faz-nos falta.

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  3. Só falta o frio para poder ir comer castanhas

    ;)
    Bjs

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