O outono demora-se no mundo
A juventude há muito despediu
a primavera da primeira ave
Respiro as lágrimas das raparigas
recordo-me do seu odor nocturno
Escuto o movimento lento da ramada
esqueci a escada habitual do dia-a-dia
a cortina da chuva corre-se de novo
Nesta manhã de outono aluviões da vida
murmuram-nos mulheres minuciosas
O ombro da colina ergue o nevoeiro
na madrugada não cantaram melros
A areia bebe cheia a chuva enquanto
nós infinitamente nos distanciamos
de quanto - diz a santa - desejamos
Aonde está a mãe da minha infância?
Talvez com ela tudo começasse
É nos fins do verão alguém morreu
foi-se a ferocidade das cigarras
no caminho das tílias percorridas
Deixo cair as mãos pois nem me restam essas
aves do mar que a tempestade impele
em tempo de equinócio para a costa
É o cabo do mundo é o fim do ano
a era da perfeita culpabilidade
Respiro já os meus últimos dias
Sobre este céu nenhuma ave adeja
Que a terra humedecida me proteja
Ruy Belo, Transporte no Tempo (Todos os Poemas)
não devias ter posto este, Margarida, não tinhas nada que pôr o RB a falar de mim no teu blog
ResponderEliminar;)
:)
Eliminarvim relê-lo. uma lucidez tão assombrosa que chega a ser um bocadinho cruel; ou cruelmente Belo (para pegar num mote aí mais abaixo)
Eliminarpor que o escolhi? um desencanto, uma tristeza, a morte já não tão longe... o frio...
EliminarO Outono? Ontem parecia já Inverno...
ResponderEliminaraluviões...
EliminarTão belo e tão triste! Tão Belo!
ResponderEliminarBelo. transporta-nos para um universo tão próprio, cheio de solidão, tristeza, mas também de humanidade. faz-nos falta.
EliminarSó falta o frio para poder ir comer castanhas
ResponderEliminar;)
Bjs
já as vi :)
Eliminarbjs.