terça-feira, 11 de novembro de 2014

Espaço para a canção

As noites desmedidas de novembro
abertas sobre a queixa rígida das árvores
inauguram o outono sobre a terra
Adeus ó meu verão impiedoso
ó limpidez da água sobre as pedras
ó inúmeros galos da manhã
ó tempestade agreste de alegria
É o país da música é a fome de noite
impossível estar só razoável rapaz
meu príncipe da própria juventude
Nos cabelos de vento do mar morto do destino
fundo antigo de água conchas e areias
no centro solitário deste solo
ante a solenidade sensual do sono
eu olho os paralelepípedos do nada
não me detenho nos umbrais das trevas
caminho numa mesma direcção
Onde o cheiro da esteva sobre a vila
o trigo para o campo do olhar
as estrelas abertas pelo céu?
Ponho os pés sobre as folhas no asfalto
espero por dezembro mês para morrer
evoco a luz discreta das doenças de outrora
Aqui os cisnes são da cor da cinza
e o vento devasta o país dos pauis
quando perto do chão a última cigarra
anuncia a definitiva solidão
Que é dos momentos puros de outra vida
da luminosa luz como ferro em fusão
do silêncio como a nossa melhor obra?
Eu te saúdo outono punitivo
sinal desse silêncio que me não permite
desistir de cantar enquanto vivo
Que o vento a névoa a folha e sobretudo o chão
caibam dentro do espaço da minha canção

Ruy Belo, Transporte no Tempo

4 comentários:

  1. Respostas
    1. sempre :)

      Eu te saúdo outono punitivo
      sinal desse silêncio que me não permite
      desistir de cantar enquanto vivo

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  2. Maravilho. Ruy Belo era licenciado em Direito, o que não sabia, e teve uma vida curta. Vi por aqui. Sabes do que faleceu?

    um beijinho.

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    1. era, sim, Mark. e morreu tão novo, com 45 anos. não sei as circunstâncias. um artigo da revista 'ler', de fevereiro do ano passado, refere que morreu sozinho em 8 de agosto de 1978, na sua casa de monte abraão, queluz. posso mandar-to, se quiseres, tenho-o digitalizado. é muito interessante.
      bjs.

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