sábado, 8 de novembro de 2014

Mas, entretanto, vai-se comendo

"Lembrava-se de que, se se expusesse muito, os raios de sol varreriam qualquer tipo de pensamento. Era o que queria, ficar completamente assado e seco, sentir as preocupações evaporarem-se uma a uma, até perceber finalmente que todas as pequenas dúvidas e hesitações molhadas que tinham coberto o seu ser se estavam a evaporar e a desaparecer debaixo deste sol escaldante. Esqueceu-se de tudo, os músculos descontraíram-se, e passou pelas brasas, acordando de vez em quando, levantando a cabeça por cima da amurada corroída pelo caruncho, olhando para os dois lados da praia. Não havia ninguém. Desistiu, deixou de olhar. A certa altura virou-se de barriga para baixo sentindo o quente manto do sol a afagar-lhe as costas. O suave e regular ruído das ondas era como a respiração distante da manhã; o som ressoava pela miríade de divisórias do ar e só lhe chegava aos ouvidos muito tempo depois. Quando se voltou e olhou directamente para o céu, este parecia mais longínquo do que alguma vez reparara. No entanto, sentia-se muito próximo de si próprio, talvez porque um homem para se sentir vivo tinha primeiro de deixar de pensar em si próprio como estando sempre a caminho. Tinha de haver uma paragem, esquecer todos os objectivos. Uma voz diz: «Espera», mas normalmente ele não a ouve, porque se esperar atrasa-se. E, se realmente esperar, pode acontecer que quando começar a mover-se esteja numa direcção diferente. É uma ideia assustadora. porque a vida não é um movimento para ou de qualquer coisa; nem do passado para o futuro, nem da juventude para a velhice, nem do nascimento para a morte. O todo da vida não é igual à soma das suas partes. É igual a qualquer das partes; não há soma. O homem adulto não está mais profundamente envolvido na vida do que um recém-nascido. A sua única vantagem  é poder ocasionalmente ter consciência da substância dessa vida e, a não ser que seja tolo, não procurará justificações ou explicações. Seja sob que perspectiva for, o resultado é o mesmo: a vida por si própria, o facto transcendente da vivência individual. Mas, entretanto, vai-se comendo."
 (p. 172)

Paul Bowles, Deixai a Chuva Cair, Publicações D. Quixote, 1992.

2 comentários:

  1. Respostas
    1. todo o livro é poderoso. se puderes, lê, mas em inglês. perde-se um bocado o 'ennui' na tradução :)
      e o fim! o PB tinha grandes cenas com o majoun... cada descrição...

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