As Tuas Velas ao Longe
Arrastando-me pelo chão de terra batida, as pernas pesadas, amparo-me a um velho cajado. Uma fina poeira, tão leve como a farinha acabada de moer, levanta-se sob os sapatos mascarrados.
Amiúde, a pieira assobia, como um pequeno búzio escondido no meu peito. Já não tenho mais forças. Procuro uma rocha na berma, sento-me e fecho os olhos. Com o queixo apoiado nas mãos sobre o cajado, permito-me uns momentos de descanso. Mas o instante transforma-se em minutos e os minutos em horas. Estou tão cansado.
Por fim, abro os olhos e perscruto o horizonte. No cimo do monte, destacas-te entre uma moldura de nuvens cinzentas. Branco e imponente.
Uma longa caminhada. Suspiro. Tento encontrar forças para me levantar e um arrepio de frio percorre-me o velho corpo. Ninguém na estrada e a noite aproxima-se. Sinto o seu pesado manto a cobrir-me os ombros mirrados. Uma mão agarra no bordão, a outra aperta o casaco; o vento começa a soprar forte. Ao longe, as tuas velas giram devagar. Estou quase lá, falta tão pouco.
Sinto-me a fraquejar, até que uma mão pequenina envolve a minha por cima do cajado. Um menino de sorriso desdentado e maroto, caracóis castanhos salpicados de pó e olhos brilhantes empurra-me devagar.
Seguimos lado a lado. Recupero as minhas forças. Endireito as costas, deixo cair o bordão, as pernas fortalecem-se. Caminho na tua direcção. As tuas velas giram cada vez mais rápido.
Com um gesto vigoroso, empurro a porta. Estou em casa.
Muito bom :)
ResponderEliminarBeijinhos
obrigada, Francisco :)
Eliminarbjs.
gostei muito. como sempre, arranjas maneiras muito originais, mas totalmente eficazes, de resolver o 'problema' dos títulos. e a progressão narrativa está muito bem gerida.
ResponderEliminardemoro bastante tempo a pensar na história mais adequada ao título que me dão. desta, eu pensei logo de início que seria sobre um velho moleiro. o texto surge depois. resolveu-se assim.
EliminarO conto está bem urdido à volta do título.
ResponderEliminarNão conhecendo o autor da frase, presumo no entanto, pelo que de ti conheço, que haverá uma conexão correcta.
há, sim.
Eliminarobrigada.
Os teus contos são sempre muito emotivos. E desvendo sempre um pouco de tristeza neles. Têm esse toque, esse travo, melhor dizendo, de dor. Posso estar enganado, atenção, mas sinto isso. E gosto muito. Talvez seja masoquismo.
ResponderEliminarum beijinho.
como escrevi no último post, a velhice e a morte são temas de muitos dos meus contos.
Eliminare não sei como, consigo agarrar algo da pessoa que me dá o título. não é que vos conheça assim tanto, mas com as voltas que a história dá (escrevo e apago as frases muitas vezes), às vezes até eu me surpreendo como é que toquei no ponto...
bjs.
Apesar de já te to ter dito por email, digo-o agora aqui: gostei bastante. Mesmo muito. E diz muito de mim, e de coisas de mim que não sonhas sequer. E chegaste lá. Se acreditasse em adivinhos, diria que és uma :)
ResponderEliminarUma beijoca de obrigado :)
só não fico excêntrica... ;)
Eliminareu não forço nada, mas já me aconteceram coisas parecidas... o que tem de ser, tem de ser. se é um dom, não o aprofundo. quando chega a hora, ele dá de si:)
bjs.