sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Felicidade

Ontem, consegui apanhar o comboio mais cedo, cheguei a casa a tempo de ir ao mercadito de frutas que existe na minha rua, comprei frutas e legumes, satisfeita por não estar mais ninguém na caixa, despachando-me rapidamente.

Depois, mal abri a porta de casa, as gatas estavam em sentido no hall à minha espera. Enroscaram-se nas minhas pernas, depois a Elvira brincou com as chaves penduradas na fechadura uns segundos, o suficiente para eu dar um afago na Joana, enquanto a Alice se espreguiçava na parede, quase tocando no interruptor. Preparei o almoço para hoje, jantei papas de aveia com banana polvilhadas com canela, barriga satisfeita, cozinha arrumada, Batá Maria tinha fugido para a escuridão do quarto-de-banho.

Fui para a sala, tirei o primeiro livro da pilha do armário, ao calhas, só queria ler alguma coisa e tive preguiça de regressar à cozinha para ir buscar o livro que ando a ler no comboio, estiquei-me no sofá e tapei-me com o velho cobertor pouco passava das nove e meia. Silêncio em casa, quebrado pelo ronronar da Elvira, que conseguiu um lugar no meu colo. A Joana, que já lá estava, rosnou, como que dizendo 'é o meu trono', virou-lhe costas num total desprezo e também começou a ronronar baixinho. E ali fiquei, num sossego, lendo de vez em quando alto para afastar o sono, mas a cabeça começou a cabecear pouco passava das dez, e eu pensei, momentos antes de adormecer, embalada pelas gatas, que não preciso de muito para me sentir feliz.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Coriolano

Traduzida por Fernando Villas-Boas e encenada por Nuno Cardoso, 'Coriolano', de William Shakespeare, está em cena no Teatro Nacional D. Maria II até ao próximo dia 2 de Fevereiro. Co-produzida pelo TNDMII, Teatro Nacional de São João, Ao Cabo Teatro, Teatro do Bolhão e Centro Cultural Vila Flor, descreve a ascensão e a queda política do general romano Caio Márcio Coriolano, num cenário contemporâneo (escadarias semelhantes às da Assembleia da República).

Albano Jerónimo é 'Coriolano', mas é Pedro Frias, no papel de 'Menémio', que brilha, com uma interpretação espantosa. Uma palavra final para outros actores de enorme talento que, ao longo das 3 horas, se desdobram em diversas personagens.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Como Queiram

Em 2014, comemoram-se 450º aniversário de William Shakespeare, pelo que resolvi celebrar reservando bilhetes para duas das suas peças em exibição em Lisboa: 'Como Queiram' e 'Coriolano' (esta assistirei na próxima quarta-feira ao fim da tarde).

'Como Queiram' (As you like it), esteve em exibição até ontem no São Luiz Teatro Municipal. Casa cheia para uma peça de três horas, uma comédia de costumes, de natureza pastoril. Depois da usurpação do poder pelo Duque Frederico, as personagens exilam-se na Floresta de Arden, qual jardim do Éden, onde se confrontam, apaixonam e procuram uma vida mais simples e mais pura.

Numa confusão de géneros e identidades, Rosalinda finge ser um rapaz, tornando-se o melhor amigo de Orlando, que desconhece que ele, afinal, é a sua amada.

Recheada de triângulos amorosos, enganos, 'Como Queiram' conta com canções interpretadas pelos actores, sendo a música original de Pedro Moreira, a nova tradução de Daniel Jonas e a encenação, excelente, ficou a cargo de Beatriz Batarda.

Agora irá em digressão (já este fim-de-semana em Alcobaça, e depois em Viseu, Porto, Guimarães e Braga). Aproveitem e celebrem igualmente o aniversário do 'Bardo de Avon' :)

sábado, 25 de janeiro de 2014

40 III

Meus amigos, aconteceu o inevitável. Hoje, 25 de Janeiro de 2014, pela primeira vez tirei os óculos para limar as unhas.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Lêem para os vossos gatos? II

Alice muito séria a escutar a leitura de 'Rua Descalça', de José Mauro de Vasconcelos.

Punk Rock & C.ª

Há uma nova geração de actores fantástica e ontem pude constatar isso mesmo no Teatro da Politécnica, dia de estreia, esgotadíssima e tão boa peça. Os três primeiros dias são gratuitos, se conseguirem reservar. Vão, que vale a pena. Sete alunos finalistas de um liceu inglês preparam-se para os exames finais de admissão à faculdade e encontram-se em diferentes momentos na biblioteca e, entre ansiedade, tensões, violência latente, exibem comportamentos que adivinham um fim dramático e imprevisível. A peça reflecte sobre os problemas da juventude, incertezas acerca do seu futuro e o da sociedade. O monólogo de Isac Graça, como 'Chadwick' é poderoso; a Rita Cabaço como 'Lilly' é arrepiante.

Uma peça de Simon Stephens encenada por Pedro Carraca e encontra-se em exibição até 22 de fevereiro.

Aproveitei, a seguir, para ir comprar um bilhete para a próxima semana para 'Coriolano', de William Shakespeare, em cena no Teatro Nacional D. Maria II, para a próxima quarta-feira às 19h (dia do espectador) e com esta compra tenho direito a um desconto de 30% para a peça, igualmente de WS, 'Como Queiram', para este domingo às 17h30, no São Luís.

Faz-se bom teatro em Portugal, :)

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Uma vida nova

Uma pessoa de quem gosto muito está a passar uma fase menos boa. O contrato de trabalho acabou em finais do ano passado, gastou as economias na renda da casa de Dezembro, no pagamento da electricidade, da água e de alguma comida e já não tinha para a bilha de gás. Disse-me, envergonhadamente, há umas semanas, que tinha fome. Eu fiz uma panela de arroz, fritei umas costoletas, fui ao hipermercado e comprei pão, enlatados, queijo, margarina, fiambre e café. Não falei da sua situação e que devia ter-me dito há mais tempo, a vergonha de pedir para comer era suficiente. E eu não desanimei e como o seu sonho era regressar a Inglaterra, onde tinha trabalhado há muitos anos, sugeri que deixasse a casa, sendo que este mês de Janeiro seria o da caução, e vendesse o recheio da casa através do Olx. Nunca lhe tinha passado pela cabeça isto. Para além disso, que procurasse já emprego em Inglaterra pela internet (está a usar a do café da frente de casa, grátis). Entretanto, lá vai a minha casa de vez em quando (onde come um, comem dois, faço a mais para o dia seguinte - o seu e o meu almoço), a casa-de-banho está à disposição e assim vai vivendo um dia de cada vez.

Ontem aconteceu-lhe tudo e o cérebro entrou em curto-circuito. Não acredita que o bem também lhe acontece - é uma pessoa bastante negativa - mas já conseguiu vender o frigorífico. Também, depois de uma entrevista via skype com a agência de emprego em Inglaterra, conseguiu emprego a partir do dia 1 de fevereiro. E desorientou-se de uma maneira que ao telefone só repetia cenas como 'vê o facebook, começo dia 1, vendi o frigorífico', repetiu uma dez vezes que eu quase que lhe dei um berro - se estivesse ao pé era mesmo um estalo. Ainda não acredita e eu só lhe digo para repetir todos os dias até embarcar no avião, na próxima semana, 'tenho um trabalho, tenho um trabalho já dia 1 em Inglaterra! Estou feliz!'.

Por outro lado, as suas frágeis sinapses entraram em colapso, porque o seu senhorio foi lá a casa e ofereceu uma miséria franciscana pelo recheio da casa. Não aceitou e, mais uma vez, repetiu-me até à náusea 'ele estava a aproveitar-se de mim, entendes? Prefiro dar aos necessitados, prefiro.' Aí, passei-me eu e ordenei em voz de sargento: 'Tu agora o que vais fazer é dar uma valente gargalhada, ouviste? Tu já tens emprego e o senhorio que vá para a p*** que o p****!' - este é um blogue decente, vocês preenchem os asteriscos se quiserem :-) . E fui eu que lhe repeti esta frase até que rimos e desanuviámos.

Hoje, via facebook, disse-me que já tem uma oferta pela mobília de quarto e eu insisti que repetisse a frase do emprego em Inglaterra até se ir embora.

Resumindo, já tem o bilhete de avião, está a vender o que puder pelo Olx, eu fiquei com os seus livros e bebidas - preciso delas, caramba! :-) , mas só ficarei mesmo aliviada quando embarcar no avião na próxima semana rumo a uma vida nova.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Ternura

'A água estava morna de ternura por causa do verão que vinha grande.'

José Mauro de Vasconcelos, Rua Descalça, Edições Melhoramentos, 1969.


A prosa de JMV é pura poesia.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Palavras


   'Arrancou uma página do livro e rasgou-a ao meio.
   Depois um capítulo.
   Em breve havia apenas farrapos de palavras espalhados entre as suas pernas e a toda a sua volta. As palavras. Por que haviam elas de existir? Sem elas não haveria nada disto. Sem palavras o Führer não era nada. Não haveria prisioneiros a coxear, nem necessidade de consolo ou truques mundanos para nos fazer sentir melhor.
   Para que prestavam as palavras?
   Disse-o em voz audível, para a sala banhada numa claridade alaranjada. - Para que prestam as palavras?'

Markus Zusak, A Rapariga Que Roubava Livros, Editorial Presença, 5.ª edição, 2009.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Poema de Amor para Uso Tópico

Quero-te, como se fosses
a presa indiferente, a mais obscura
das amantes. Quero o teu rosto
de brancos cansaços, as tuas mãos
que hesitam, cada uma das palavras
que sem querer me deste. Quero
que me lembres e esqueças como eu
te lembro e esqueço: num fundo
a preto e branco, despida como
a neve matinal se despe da noite,
fria, luminosa,
voz incerta de rosa.

Nuno Júdice in Poemas de Amor - Antologia de poesia portuguesa, Organização e Prefácio Inês Pedrosa, Publicações D. Quixote, 2001

domingo, 12 de janeiro de 2014

Pessoas




(Morte entre as Ruínas - Poirot, os filmes IV)

'Se eu for confrontado com a decisão de escolher entre visitar um circo e uma catedral, um café e um monumento público, ou uma fiesta e um museu, receio bem que normalmente escolha o circo, o café e a fiesta, confiando na sorte para conseguir chegar a ver o restante mais tarde. Suponho que simplesmente não tenho aquilo a que hoje se chama «propensão para a cultura». Talvez isso aconteça porque para mim a cultura de uma terra num dado momento seja as pessoas que nela vivem e as vidas que elas aí levam, não os haveres que tenham herdado daqueles que vieram antes.'

Paul Bowles, Viagens - Compilação de Escritos, 1950-1993, p. 107.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Biblioteca caseira


E os livros regressaram aos seus lugares. Tenho mais prateleiras, mas têm fotos e aqui só mostro o meu lindo Pitágoras Basílio :)

E a Bia, claro, também, na prateleira de cima.

Alfabeto dos livros IV

Q - (A) Quinta dos Cadáveres



R - Rua Descalça



S - Sopa de Estrumpfes



T - Todos os Poemas



U - Um caso de espíritos



V - Venenos de Deus Remédios do Diabo



X - Xeque ao Rei



Z - Z de Zorglup

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Luther

Interrompo o alfabeto dos livros para anunciar o último episódio da minha série preferida do momento e a que me faz voltar a ver TV: Luther.

Está passar no AXN neste momento.

Idris, Idris, tu tiras-me do sério :)

Alfabeto dos livros III

L - Livro



M - Muito, Muito Machos



N - Na Hora H



O - Orlando



P -Primeiro as Senhoras

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Alfabeto dos livros

A - Ara



B - Baudolino



C - Catarina ou o Sabor da Maçã



D - Diário



E - Ernestina


Nos próximos dias, irei publicar 23 livros que tenho seguindo o alfabeto. Só publicarei livros em português.
Aqui fica o desafio. :)

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Ode to a Nightingale


Para celebrar o segundo aniversário do blogue, deixo-vos 'Ode a um rouxinol', de John Keats, lido pelo Ben Whishaw (o poema completo está no youtube). Assombroso.

Dois anos - um conto

Hoje, o blogue faz dois anos. Há dias, tive um sonho muito estranho. Mais que estranho, mórbido.

Como enquadramento, a tia Alice - a quem eu fui buscar o nome da minha gata -  ainda é viva, mas está muito velhinha e doente. Não reconhece ninguém e está no lar da aldeia há muitos anos.

O sonho, esse, decidi passá-lo a um conto. Aqui está.

   Sonho

   A Elvira arranha a porta de manhã cedo. Viro-me para o outro lado e volto a adormecer. Sonho com a prima Alice, prima direita da minha avó a quem eu chamava de tia quando era pequena. É a tia Alice da minha infância, que conhecia todas as pessoas da aldeia, que todas as semanas comprava a TV Guia e cujo ecrã de televisão tinha um filtro de plástico azul. A tia Alice tinha um rosto muito redondo e óculos grandes, era parecida com a rainha Isabel II e usava uns bigoudis para encaracolar o cabelo curto pintado de loiro.
   O sonho desenrola-se como se fosse uma película de cinema. Predomina a cor azul acinzentada. Estou numa casa algures nos Açores, da janela da sala quase vazia reparo num automóvel antigo que desliza pelas pedras de granito. As casas, as igrejas, os miradouros passam uns atrás dos outros. É como se eu estivesse, também, dentro do carro.
   A tia Alice entra, sorridente, e anuncia: “Hoje a Fausta faz anos, lembras-te da Fausta, uma colega da Tita? Goza o dia.”
   Eu sorrio, ela parece tão nova, ali à minha frente. De repente, ela está velha, tão velha, e diz-me: “Lembras-te da Fausta, a colega da Tita? A Fausta que morreu há vinte anos num acidente de automóvel?” Eu digo que sim com a cabeça e as imagens desvanecem-se. Tudo está errado, sei que tudo está errado neste sonho, e ela continua: “O marido matou-se hoje, no dia de aniversário da mulher.”

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

A fingir

'Às vezes acho que toda a gente anda só a fingir ter coragem, e nenhum de nós a temos mesmo. Se calhar é a fingir que arranjamos coragem, não sei.'

George R.R. Martin, A Tormenta de Espadas, p. 425.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

2013-2014

Há um ano, abria assim a minha agenda: '02 Janeiro: há 15 anos, entrava por concurso público para o (...) como administrativa. Hoje, 02 de Janeiro de 2013, entro, também por concurso, para a (...). Onde estarei daqui a 15 anos?'

Depois do trabalho, fui ao cinema ver o primeiro filme do ano: 'Argo'.