quarta-feira, 30 de abril de 2014

terça-feira, 29 de abril de 2014

Desafio literário VII

Mais quatro despachados, todos em língua portuguesa. Os dois primeiros são ebooks, o primeiro é o relato da viagem de férias do João Máximo e do Luís Chainho ao inóspito e selvagem oeste americano :D em Setembro do ano passado; o segundo é mais um policial do Garcia-Roza, desta vez sem o delegado Espinosa; o terceiro ganhou o Prémio Leya 2013 e o último é a segunda fase da vida do Zezé, após as aventuras em 'O Meu Pé de Laranja Lima'.

domingo, 27 de abril de 2014

Joana

O dia que eu receava chegou. A Joana está a ficar doente. Começou com uma tosse e dificuldade em respirar. Conheço os sintomas. Foi da mesma maneira que a Bia começou o seu calvário. A diferença é que ela tinha 17 anos. A Joana tem 13, quase 14 anos. Mas é uma gata muito frágil. Nunca esperei que vivesse tanto tempo. Já teve tumores mamários, foram removidos, fez uma sessão de quimioterapia há uns anos, nunca foi uma gata grande nem forte, mas é muito voluntariosa.

Deixou de ter vontade de comer os secos, mas como mudei de ração, não deve ter gostado. Come aos poucos e cada vez menos. Leite bebe, do meu, magro sem lactose, mas também se farta e nem sempre lhe dou.

Já está a tomar a medicação, mas só a posso dar com a barriguinha cheia, o que, dada a sua falta de apetite, não é fácil. Mas não desesperei (mais do que estou à espera do que aconteça mais mês menos mês). Há uns dias comprei paté no minimercado. Pois eu bem que tento fazer dieta, mas a comprar estas coisas processadas torna-se difícil. Ontem, abri e dei-lhe um bocado. Adorou. Estive ajoelhada com ela na cozinha,  enquanto comia deliciada. Depois, lá consegui dar-lhe metade do comprimido. Não tenho problemas em colocá-lo na boca, nunca faz fitas, a minha Joana. E agora, é ver se arrebita, que hoje tornei a dar-lhe o paté e voltou a comer (ela e as outras, que é difícil mantê-las afastadas). Podia dar-lhe latas felinas, mas, caramba, ela gostou tanto do paté que é melhor não arriscar, por enquanto. Quando notar que o enjoou, vou ao sheeba...

Come paté, pequena, come paté.

Joana, hoje de manhã a apanhar sol.

sábado, 26 de abril de 2014

Prémio LeYa 2013

Uma Outra Voz, de Gabriela Ruivo Trindade, é o romance que ganhou o Prémio Leya 2013. 
 
(contém spoilers, aqui fica o aviso).
 
São cinco vozes (femininas e masculinas) que compõem a primeira parte da história, e que fazem parte de uma importante família de Estremoz (as quatro primeiras personagens, pois a última é de origem muito diferente). Assim, são várias gerações, sempre narradas na primeira pessoa, que passam por momentos marcantes de Portugal, desde antes da Implantação da República, passando pela Guerra Colonial, a ditadura, até ao 25 de Abril de 74. Na verdade, a Revolução dos Cravos é, apenas, o enquadramento, pois a história narrada pelo jovem é de um amor não correspondido, ao longo dos anos, por uma colega da faculdade, contado em forma de flashback enquanto ele se encontra na cama de um hospital, após ter sido atingido por um tiro numa manifestação. E li esse excerto nas vésperas do dia 25 de Abril, o que não deixa de ser simbólico.
 
A segunda parte do livro inclui fragmentos do diário de João Mariano, ti Mariano, bem como fotografias e elementos bibliográficos do familiar da autora que serviu de base ao herói deste romance, republicano, empresário e fundador de vários comércios em Estremoz, João Francisco Carreço Simões.
 
As personagens femininas são muito fortes, como a mãe dos jovens protagonistas das duas primeiras histórias (a quarta voz ) e a mulher pela qual o ti Mariano foi apaixonado durante toda a sua vida (a quinta voz).
 
Entre passado e futuro, as diversas vozes contam as suas histórias, de amor, sofrimento, angústia, raiva, arrependimentos, enquanto Portugal passa por momentos conturbados ao longo do século XX, numa narrativa muito fluída, sensível, pontuada pelos diálogos e expressões características alentejanas ('gaiatos', 'cara linda' , verbos no gerúndio, e outras palavras que aparecem no glossário no fim do livro, e que muito o enriquecem, homenageando, desta forma, o Alentejo).
 
Gostei muito de o ler e adorei a forma como a autora conseguiu, através de factos reais, criar uma emocionante ficção, incluindo um diário até então desconhecido e que é, como referi, a segunda parte do romance; nesse caderno, o ti Mariano, ao longo dos anos que passa nas fazendas de café em Angola, vai desabafando com a Ana, o amor da sua vida (a prostituta que nunca aceitou casar com ele, dona de uma 'casa de meninas' em Estremoz).

Um auxílio precioso à minha leitura foi a árvore genealógica no início do romance (estava constantemente a estudá-la, para situar as personagens).
 
Recebeu 4* no Goodreads.

Só um aparte, aproveitando a 'casa de meninas' de Estremoz e as aventuras republicanas do ti Mariano. Contava-me a minha mãe, há muitos anos (tenho tanta pena de não ter prestado a atenção devida, era uma miúda) de o seu pai (funcionário do Estado, dos Caminhos-de-Ferro - foi chefe-de-estação),  nos anos 40 ou 50 do século passado (não sei precisar) encontrar-se com os seus amigos (embora funcionário público, era contra o regime), numa 'casa de meninas' em Viseu, para reuniões políticas. Achei engraçada esta coincidência, mas penso que seria comum estas casas servirem de disfarce para encontros da oposição ao regime.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Três dedos abaixo do joelho

   'Na altura em que se comemoram os 40 anos sobre a Revolução dos Cravos', voltamos a apresentar Três dedos abaixo do joelho. A peça nasce duma visita à Torre do Tombo para consultar o arquivo da censura durante a ditadura salazarista. A ironia por trás de Três dedos abaixo do joelho é que transforma os censores em dramaturgos, usando os seus relatórios como o texto do espectáculo. Um censor escreveu que "nenhum corte deve ser perceptível ao público" e esta peça seguiu à risca essa instrução. Destruindo as fronteiras entre as palavras de Shakespeare ou as de um censor, Três dedos abaixo do joelho usa o teatro para revelar o pensamento por trás dos mecanismos da censura e transforma o legado daqueles que oprimiram a liberdade artística e política num instrumento em que se aponta o que é perigoso e importante no teatro. O Mundo Perfeito chama-lhe "uma doce vingança".
   Vencedor do Prémio Autores SPA/RTP para Melhor Espectáculo de Teatro de 2012; Vencedor do Globo de Ouro para Melhor Espectáculo de Teatro de 2012', in folheto de divulgação.

A peça, de Tiago Rodrigues/Mundo Perfeito e com Gonçalo Waddington e Isabel Abreu, tem entrada livre no dia 25 de Abril e é às 21h30.

Quem quiser celebrar este dia comigo, basta responder em comentários, sms ou email até sexta-feira, ao início da tarde. Pelas 15h30, estarei na bilheteira do Teatro Municipal Maria Matos. Cada pessoa tem direito a 4 entradas gratuitas.

O TM Maria Matos, para quem não conhece, fica junto à estação de comboios Roma/Areeiro.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Dia Mundial do Livro

Obrigada pela imagem, João Roque.

A UNESCO instituiu em 1995 o Dia Mundial do Livro. A data foi escolhida por ser um dia importante para a literatura mundial - foi a 23 de Abril de 1616 que faleceu Miguel de Cervantes e a 23 de Abril de 1899 nasceu Vladimir Nabokov.

Este dia serve, ainda, para chamar a atenção para a importância do livro como bem cultural, essencial para o desenvolvimento da literacia e desenvolvimento económico.

Aproveito  a efeméride para recordar o post sobre o Biblioburro, que escrevi em Junho do ano passado.

terça-feira, 22 de abril de 2014

A Gata do Bairro de Lata


 VIDA IV

   Isto foi o princípio de uma nova era. Agora, quando se sentia atacada pela fome, dirigia-se à porta do prédio e aquela boa impressão que o negro lhe provocara ia aumentando. Até então nunca tinha compreendido aquele homem. Agora era um amigo, o único que tinha.
   Um dia apanhou uma ratazana. Ia a atravessar a rua em frente do edifício novo quando o amigo abriu a porta para deixar sair um homem muito bem vestido.
   - Bolas! Olha-me só para aquele gato! - exclamou o homem.
   - É verdade, senhor - respondeu o negro. - É a minha gata, senhor. É um verdadeiro terror para os ratos. Já deu cabo de quase todos. É por isso que está tão magrinha.
   - Bem, não a deixes morrer à fome - disse o homem com o ar de um proprietário. - Não podes alimentá-la?
   - O homem da carne vem cá regularmente, senhor. Um quarto de dólar por semana, senhor - disse o negro, achando que tinha direito aos quinze cêntimos extra pela «ideia».
   - Está bem; eu pago.


   Desde então, o negro já a vendeu várias vezes, sempre com a consciência tranquila porque sabe muito bem que é só uma questão de dias até a 'Analostan Real' voltar. Ela aprendeu a tolerar o elevador e até a subir e a descer nele. O negro afirma convictamente que um dia ela ouviu o homem do talho quando estava no último andar e conseguiu carregar no botão e chamar o elevador que a levou para baixo.
   Está outra vez lustrosa e linda. Não é apenas um dos quatrocentos gatos que formam o círculo íntimo em roda do carrinho do homem da carne - é também reconhecida como a rainha dos pensionistas.
   Mas, apesar da sua prosperidade, da sua posição social, do seu nome real e do falso pedigree, o maior prazer da sua vida é escapulir-se para o bairro de lata quando anoitece, pois agora, tal como nas vidas anteriores, no fundo não passa, nem nunca passará, de uma gatinha suja de um bairro de lata.

Ernest Thompson Seton 

segunda-feira, 21 de abril de 2014

What Maisie Knew


'O Que a Maisie Sabe', em português, foi o filme que vi no Monumental na semana passada.  Baseado no livro de Henry James, pelos olhos da mais doce e bela menina de seis anos - uma angélica Onata Aprile -  deparamo-nos com seu dia-a-dia, o divórcio litigioso dos seus pais, as constantes discussões entre eles, e o porto de abrigo que encontra nas figuras do padrasto e da madrasta. Novos e equilibrados pais, que não são mais do que casamentos de interesse para que cuidassem da pequena Maisie. Pois os seus progenitores à beira da meia-idade estão demasiado ocupados com as sua profissões, uma mãe vocalista numa banda rock e um pai director de uma galeria de arte.

Mais uma produção independente a chegar a Portugal depois de ter passado por meio mundo. O filme é de 2012.  Se possível, não percam.

domingo, 20 de abril de 2014

Uma Outra Voz

Uma pessoa está a guardar-se para a Feira do Livro, que está aí a chegar, mais especificamente para aquelas horas nocturnas com os grandes descontos, mas vai dar uma volta, vê este livro, começa a folhear, lê o seguinte excerto:

'Esta é uma estória de ficção baseada em histórias reais. João Francisco Carreço Simões, ou Ti Carreço, como era conhecido na família, era tio-avô da minha avó. A sua vida serviu de inspiração à personagem principal desta estória, de nome João José Mariano Serrão. Durante a sua viagem a Angola, em finais dos anos 20 do século passado, Carreço Simões escreveu um diário, que se terá posteriormente extraviado. Dessa viagem restaram apenas as fotografias, incluídas no final deste livro.'

E compra!
 
Gabriela Ruivo Trindade, Uma Outra Voz, Prémio LeYa 2013, 1.ª edição, Abril de 2014.

Desafio literário VI


Mais cinco lidos. Como podem ver, aumentei, pela segunda vez, o número de livros. Nada difícil de alcançar, considerando que os policiais do Luiz Alfredo Garcia-Roza lêem-se num piscar de olhos e são livros com um pouco mais de centena e meia de páginas (em ebook).

sábado, 19 de abril de 2014

Confidência

   Mãe!
   Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei! Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado!
   Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
   Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede Eu prometo saber viajar.

   Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.
   Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

   Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
   Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!

Almada Negreiros - Obras Completas - 4 - Poesia


Há quatro anos, perdi a minha Mãe.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

O Regresso a Casa, de Harold Pinter

Hoje, ao fim da tarde, vou comprar o bilhete para a próxima quarta-feira, dia do espectador, para esta peça, que está em exibição no Teatro Nacional D. Maria II. Custa 8,00 €. Será às 19h00 (o meu horário preferido).

'O Regresso a Casa' é uma peça encenada por Jorge Silva Melo e tem um elenco de luxo, como o João Roque e o Miguel puderam comprovar no domingo passado.

Assim, quem estiver interessado em me acompanhar, basta estar na bilheteira do Teatro hoje, a partir das 18,30/18,45. Quem não me conhece pessoalmente, basta olhar para o chão e procurar a rapariga dos botins que foram objecto de um post há umas semanas :)

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Borboleta em Cinza


O Edu ofereceu-me este livro. O João e o Luís, o Miguel e o João Roque também receberam presentes semelhantes.

E eu, assim em jeito de agradecimento, retribuo com este vídeo.

(as gatas são as deusas desta casa, a escura é a Alice e a branca é a Elvira).

Boa semana!

:)

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Desafio literário V

Mais quatro livros lidos. Acrescentei mais seis ao desafio inicial. E, da maneira como isto está a decorrer, julgo que não será o primeiro acerto :p

O último é um policial brasileiro. Adorei.


Excelente estreia neste autor. Não tive nenhum problema em dar 5* no Goodreads a este policial que me entusiasmou do princípio ao fim. Grande inspector Espinosa, da 1.ª DP do Rio de Janeiro, inteligente, irónico e leitor compulsivo.

Não conheço o RJ, mas é como se lá estivesse, tal é a intensidade com que a cidade vibra neste romance. E que grande final!

Luiz Alfredo Garcia-Roza nasceu em 1936, no Rio de Janeiro. O Silêncio da Chuva, este seu primeiro romance, recebeu os prémios Nestlé e Jabuti, em 1997.

Estou ansiosa para ler os restantes livros da série do Inspector Espinosa: Achados e Perdidos, Vendo Sudoeste, Perseguido, Uma Janela em Copacabana, Berenice Procura, Espinosa sem Saída, Na Multidão e Céu de Origamis.

Sim, adoro policiais. :)

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Ápice

Ainda em 6 de julho, permiti-me anotar: “De repente, tive consciência de que aquele momento, aquela fatia de cotidianidade, era o grau máximo de bem-estar, era a Ventura”, mas em seguida eu mesmo me dei bofetadas de alerta: “Tenho certeza de que o ápice é um breve segundo, um clarão instantâneo, e não há direito a prorrogações.” No entanto, escrevi isso hipocritamente, agora sei. Porque, no fundo, eu tinha fé em que houvesse prorrogações, em que o ápice não fosse somente um ponto, mas sim um longo e interminável planalto. Mas não havia direito a prorrogações, claro que não. Depois escrevi aquilo sobre a palavra “Avellaneda”, sobre todos os significados que ela possuía. Agora penso: “Avellaneda”, e a palavra significa: “Não está, não estará nunca mais.” Não agüento.

Mario Benedetti, A Trégua

'Porque, no fundo, eu tinha fé em que houvesse prorrogações, em que o ápice não fosse somente um ponto, mas sim um longo e interminável planalto.' - tão belo! (5* no GR)

terça-feira, 8 de abril de 2014

A Trégua - Mario Benedetti

Vai para a lista dos melhores livros que li (e ainda não o acabei) deste ano. Lúcido, irónico e apanhado em português do Brasil, é indispensável a sua leitura. Pequeno, em forma de diário, lê-se num abrir e fechar de olhos.

   Domingo, 2 de junho
   O tempo se vai. Às vezes, penso que precisaria viver apressado, tirar o máximo partido destes anos que me restam. Hoje em dia, qualquer um pode me dizer, depois de esquadrinhar minhas rugas "Mas o senhor ainda é um homem jovem!" Ainda. Quantos anos me restam de "ainda"? Penso nisso e me dá pressa, tenho a angustiante sensação de que a vida me foge, como se minhas veias se tivessem aberto e eu não pudesse deter meu sangue. Porque a vida são muitas coisas (trabalho, dinheiro, sorte, amizade, saúde, complicações), mas ninguém vai me negar que, quando pensamos nessa palavra, Vida, quando dizemos, por exemplo, que "nos agarramos à vida", estamos assimilando-a a outra palavra mais concreta, mais atraente, mais seguramente importante: estamos assimilando-a ao Prazer. Penso no prazer (qualquer forma de prazer) e tenho certeza de que isso é vida. Daí a pressa, a trágica pressa destes 50 anos que me pisam os calcanhares. Ainda me restam, assim espero, uns quantos anos de amizade, de saúde passável, de afãs rotineiros, de expectativa ante a sorte, mas quantos me restam de prazer? Eu tinha 20 anos e era jovem; tinha 30 e era jovem; tinha 40 e era jovem. Agora tenho 50 anos e sou "ainda jovem". "Ainda" significa: está acabado.
   E esse é o lado absurdo da nossa combinação: dissemos que iríamos encarar tudo com calma, que deixaríamos o tempo correr, que depois reavaliaríamos a situação. Mas o tempo corre, queiramos ou não, o tempo corre e a deixa a cada dia mais apetecível, mais madura, mais fresca, mais mulher, e a mim, em contraposição, me ameaça a cada dia com me tornar mais achacadiço, mais gasto, menos valente, menos vital. Temos de nos apressar em direção ao encontro, porque, em  nosso caso, o futuro é um inevitável desencontro. Todos os seus Mais correspondem aos meus Menos. Todos os seus Menos correspondem aos meus Mais. Compreendo que, para uma mulher jovem, pode ser um atrativo saber que aquele sujeito viveu, que há muito ele substituiu a inocência pela experiência, que ele pensa com a cabeça bem firme sobre os ombros. É possível que isso seja um atrativo, mas como é breve! Porque a experiência é boa quando vem de mãos dadas com o  vigor; depois, quando o vigor se vai, a gente passa a ser uma decorosa peça de museu, cujo valor é ser uma recordação do que se foi. A  experiência e o vigor coexistem por muito pouco tempo. Eu estou agora nesse pouco tempo. Mas não é uma sorte invejável.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Junk Waxing Party



Fonte: DAR: A Super Girly Top Secret Comic Diary.

(ainda bem que tenho três gatas da raça europeu comum. Imaginem se fossem persas ou bosque da noruega... :p)

Letra

Vinte e cinco anos. Cinco lustros. Ou um quarto de século. Não. Parece muito mais assustador dizer, pura e simplesmente, 25 anos, e como minha letra foi mudando! Em 1929, eu tinha uma caligafia escarranchada: os “t” minúsculos não se inclinavam para o mesmo lado que os “d”, os “b” ou os “h”, como se não tivesse soprado para todos o mesmo vento. Em 1939, as metades inferiores dos “f”, dos “g” e dos “j” pareciam uma espécie de franjas indecisas, sem caráter nem vontade. Em 1945, começou a era das maiúsculas, meu capricho em adorná-las com amplas curvas, espetaculares e inúteis. O “M” e o “H” eram grandes aranhas, com teia e tudo. Agora minha letra se tornou sintética, regular, disciplinada, clara. O que prova, apenas, que sou um simulador, já que eu mesmo me tornei complicado, irregular, caótico, impuro. De repente, quando o inspetor me pediu um dado correspondente a 1930, reconheci minha caligrafia, minha caligrafia de uma etapa especial. Com a mesma letra que usei para escrever: “Relação de salários pagos ao pessoal no mês de agosto de 1930”, com essa mesma letra e nesse mesmo ano, eu tinha escrito duas vezes por semana: “Querida Isabel”, porque Isabel morava então em Melo, e eu lhe escrevia pontualmente às terças e sextas. Essa, portanto, havia sido minha letra de noivo.

Mario Benedetti, A Trégua, (ebook).

domingo, 6 de abril de 2014

Eu é mais bolos V - editado

Acabei de fazer mais um bolo. Inventado, adoro estas receitas que saem mais ou menos bem (este fi-lo numa forma com buraco, mas sairá melhor numa de bolo inglês protegida com papel vegetal, porque, de tão fofo, partiu-se exactamente ao meio. Mas come-se, ó se se come!)

Bolo de limão e canela (aproveitei a dica da Raquel que os misturou no iogurte):

 Ingredientes:
3 ovos médios
3 chávenas de chá (como a de cima), de farinha
2 chávenas de chá de açúcar
1 limão mais a respectiva raspa
Meia chávena de chá de água
2 colheres de sopa de óleo (o que tenho é de girassol)
1 colher de sobremesa de canela

Modo de preparação:
Seguir as receitas anteriores relativamente ao forno;
Bater as claras em castelo e reservar;
Bater os ovos, juntar o açúcar, o sumo e a raspa de limão, a água, mexendo conforme se vai acrescentando os diferentes ingredientes;
Juntar a farinha devagar e por fim as claras batidas em castelo.

Como tem menos ovos, vai menos tempo ao forno, mais ou menos 40 minutos, com a folha de alumínio em cima. Depois tira-se para cozer em cima mais uns minutos. Retira-se a forma do forno e o bolo arrefece em cima da grelha.

Uma maravilha, tem um gosto tão bom, comi quente, quente, mas tem pedaços de crosta crocante delicioso. Também deve ficar óptimo em formas individuais, como as das madalenas. Hei-de experimentar :)

Como referi anteriormente, só uso pirex para fazer bolos e aquela é a chávena que usei para a medida.

Bom proveito. :p

(toma, Namorado!)

Desafio literário IV

Mais cinco. Destes, o melhor, sem dúvida, é 'A Canção de Tróia'.

sábado, 5 de abril de 2014

Humor

Os Coelhos voltaram à carga com as suas TMI. Eu não tenho um extraordinário sentido de humor, quero dizer, tenho um muito peculiar. Não sei contar uma anedota. Não gosto das piadas brejeiras, nem sexistas, não gosto do Benny Hill nem do outro inglês com cara de idiota.

Por outro lado, rio-me a bandeiras despregadas das tiras da BD 'Pérolas a Porcos'. Gosto de um tipo de humor cáustico, negro, e muitas vezes ninguém o entende, mas eu rio e rio sem parar.

Gosto dos Monty Phyton, dos Gato Fedorento, do The Office, até gosto da Ovelha Choné :)




Mas voltemos à minha BD favorita. Deixo-vos algumas tiras.





Podem encontrar outras aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e pelo blogue fora na etiqueta comics.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Coincidências

É ter começado a ler 'A Trégua', de Mario Benedetti, é ter gostado de um comentário no Goodreads que remete para o respectivo filme, que não ganharia o Óscar de melhor filme estrangeiro, que foi ganho por 'Amarcord', de Fellini.

É ter acabado de ler este post.

A Filha do Papa

 
Comecei pelo último livro desta série, o que é uma chatice, porque agora que conheci as personagens principais, sei o fim da história, incluindo a morte de uma delas, e é muito aborrecido.

Mas vale a pena ler, não conhecia este autor, embora já tivesse lido outros dois autores semelhantes. Por alguma razão o LMR está na lista dos mais vendidos no 'New York Times'.

Uma excelente narrativa, uma trama que prende do princípio ao fim, intriga, segredos, factos históricos muito bem documentados e uma reviravolta surpreendente no fim.

Uma boa estreia, apesar de ter começado pelo livro errado.

Obrigada pela sugestão, Horatius :)

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Eu é mais bolos IV

Descobri que aos quarenta anos o gene boleiro da minha avó finalmente brotou em mim. Ofereceram-me uma data de limões e ontem à noite fiz um bolo. Levei umas fatias para o trabalho, as minhas colegas adoraram e tenho a impressão de que não chegará até amanhã. Esta noite já enfardei quase metade. Não é para me gabar, para até que tenho jeitinho para a coisa.

E que tal criar um negócio disto, eih? Como, por exemplo, comprem um bolo e levem um conto. :)

Fica a ideia e a receita que inventei (adaptei a do bolo de iogurte):

Bolo de limão

Ingredientes:
3 limões e raspa de 1 limão
1 iogurte natural
5 ovos médios
4 copos de iogurte de açúcar
5 copos de iogurte de farinha já com fermento
1 copo mal-cheio de óleo (uso o de girassol)

Modo de preparação:
Pré-aquecer o forno a 170.ºC (apenas a resistência de baixo);
Bater as claras em castelo com uma pitada de sal e reservar;
Raspar a casca de um limão;
Espremer os limões;
Misturar o iogurte com as gemas, depois juntar o açúcar, mexer bem, de seguida juntar o sumo do limão e a raspa, misturar e por fim o óleo;
Juntar copo a copo a farinha, mexendo devagar;
Finalmente juntar as claras batidas em castelo;
Numa forma com buraco (ou de chaminé, como também se chama), previamente untada com margarina e polvilhada com farinha (o excesso pode cair para a massa), verter a massa, levar ao forno tapada com a folha de alumínio durante uma hora;
Coze devagar, vai crescendo e passada a hora tira-se a folha e liga-se a resistência de cima, também, para cozer a parte de cima. Quando começar a tostar e para evitar que a crosta quebre quando o bolo fica frio, eu borrifo com água fria.

Notas:
Seguir as mesmas do bolo anterior;
Refiro, também, que por opção, uso apenas grandes taças de pirex que herdei (não gosto de fazer doces em inox nem em plástico).

Ora bom proveito e não sei quando é que este blogue virou um canto pasteleiro, mas estou a gostar da mudança :)

Ode ao Gato

 
Ode ao Gato

Tu e eu temos de permeio
a rebeldia que desassossega,
a matéria compulsiva dos sentidos.
Que ninguém nos dome,
que ninguém tente
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza,
pois nós temos fôlegos largos
de vento e de névoa
para de novo nos erguermos
e, sobre o desconsolo dos escombros,
formarmos o salto
que leva à glória ou à morte,
conforme a harmonia dos astros
e a regra elementar do destino.

José Jorge Letria