sábado, 30 de agosto de 2014

Velha sabedoria

'Os que vão para fora e regressam não se sentem melhor por terem ido à aventura, bem pelo contrário, enganam-se, porque não perceberam a velha sabedoria de que não é possível fugir de si próprio.'

Henning Mankell, A Leoa Branca, p. 288.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Intervalo

   Naquela sala, fazia os deveres, sentada numa cadeira de rodas de madeira. A secretária era de madeira escura, com três gavetas. De vez em quando, no meio de uma tabuada, girava o corpo. Todos os dias havia uma tabuada. Engraçou na dos sete, por se lembrar da brincadeira ‘sete e sete são catorze, com mais sete vinte e um, sete macacos…’ Levantou um pouco a cabeça quando a campainha tocou. Três e meia. Intervalo da tarde. Tinha aulas de manhã ali em frente, no Magistério Primário. Não, naquela altura, já não se chamava Magistério Primário, mas hoje ainda ainda usa essas palavras. Ali, estudou da primeira à quarta classe. Foram cinco anos, contando com a pré-primária.
   Achou que, tal como os outros meninos, merecia um descanso. Abandonou a secretária, disse à D. Elizete, a mãe estava noutra parte do Laboratório, que ia para o jardim. A D. Elizete ocupava um grande espaço atrás da secretária em frente à sua, era uma senhora gorda dentro de uma bata branca e tinha uns óculos redondos e grandes, que lhe ocupavam grande parte do seu rosto corado. Ela acenou com a cabeça, sorriu e voltou ao mapa enrolado no carreto da máquina de escrever Mesa. A alcatifa cor de rato abafou os seus passos, mas caminhava devagar, consciente de que era o serviço da mãe, não podia fazer barulho, e na sala em frente estavam os seus chefes. Os dois médicos veterinários apanharam-na um dia na cave do Laboratório, sítio proibido, que cheirava a clorofórmio ou parecido. Faziam as autópsias ali. Ficou assustada com os olhares deles, mais do que com as suas vozes, ao ordenarem que subisse e nunca mais ali fosse.
   Assim, passou em frente da sala deles, desceu as escadas, deslizou pela porta de vai-vem, desceu os degraus de granito e virou à direita. Ouvia as crianças a gritarem. Gritos, risos, que ecoavam do alto, por entre as frondosas tílias, e começou a falar sozinha. Encostou-se ao muro de tijolos cor-de-laranja e espreitou para a rua. Os carros passavam, as vozes chegavam, agudas, e ela respondia que estava ali e que queria brincar com eles. Afastou-se, insatisfeita, virou-se para os canteiros e agarrou numa flor. ‘O teu pai é careca?’, murmurou. Depois, soprou. O suave algodão soltou-se. Desconhecia que era um dente-de-leão. Para sempre, até hoje, é ‘o-teu-pai-é-careca’.
   Baixou-se, agarrou numa pedra e desenhou uma macaca. Um quadrado, outro, mais dois lado a lado, mais outro… Numerou-os, atirou a pedra para o quadrado número um e, ao pé-coxinho, o pé esquerdo no chão, a perna direita encolhida, começou o jogo.
   A mãe surgiu na entrada, deu-lhe um pão com marmelada embrulhado num saquinho de pano, como um envelope, e uma garrafa de sumo de laranja, verde escura com letras brancas gravadas no vidro, já aberta. A carica?, lembra-se de perguntar. A mãe enfiou a mão no bolso da bata, tirou-a e depositou-a no bolso do peitilho das jardineiras. Tinha as mãos ocupadas, a boca cheia com pão, mas quando queria agradecer já a mãe voltara para dentro. 
   Sentou-se no banco de madeira, balançando os pés, enquanto mastigava o pão com marmelada e bebia goles de laranjada. Quando acabou, poisou o envelope do lanche e a garrafa no banco, sacudiu as migalhas e tirou a carica do bolso. Procurou a pedra, apagou a macaca do chão e desenhou uma pista comprida e curva como uma cobra. Escreveu a palavra partida numa ponta e meta na outra e colocou a carica no início. Ajoelhou-se, o polegar segurou o dedo indicador, largou-o e a carica deslizou na terra batida. ‘Ali vai ela, em primeiro lugar, uma curva apertada, uma rasante, mas conseguiu! Ganhou! Ganhou!

domingo, 17 de agosto de 2014

Viseu VI

Há uns dias, no âmbito destes pequenos textos sobre Viseu, mencionei que gostaria de trabalhar num local. Pois chega a hora de vos mostrar: é a Casa do Miradouro. A Casa do Miradouro, requalificada pela Câmara Municipal de Viseu, é um palácio quinhentista e alberga a colecção arqueológica 'Dr. José Coelho, A Paixão pelo Passado' (aconselha-se a visita à página da C.M. de Viseu, aqui).

Esta exposição pretende revelar o importante legado de um dos percursores da arqueologia de Viseu e está patente em três salas. A primeira sala é dedicada à sua vida e obra: Dr. José Coelho, Vivências e Percursos, mostrando um espaço intimista, humano, sentido. A segunda sala é denominada As escavações arqueológicas: o cuidado com o pormenor, dando-se a conhecer as principais intervenções arqueológicas efectuadas pelo arqueólogo e explica-se como estas foram determinantes para o estudo da pré e proto-história da região. Na sala 3, expõe-se um vasto conjunto de peças arqueológicas, algumas por ele encontradas, outras oferecidas, que reflectem, sobretudo, uma tremenda curiosidade e uma atenção permanente a tudo e a todos os que o rodeavam.

Este espaço pertence à C.M. de Viseu, estando integrado na rede municipal de museus (este é um texto adaptado do folheto da exposição). Aconselha-se a leitura das páginas dedicadas a esta exposição no site da C.M. de Viseu, aqui.

No jardim da Casa do Miradouro, fui recebida por um simpático gato preto. Vénia, bichano :)


Apresentam-se algumas fotos da exposição e da vista da varanda. Por alguma razão se denomina Casa do Miradouro. Não é um local de sonho para trabalhar? ;)

Antes da exposição, patente no primeiro andar, junto às escadas, recebe-nos esta lápide evocativa:

Lápide evocatia: lápide com inscrição latina primitivamente colocada numa das portas da cerca gótica (século XV) da cidade de Viseu, que foram demolidas entre finais do século XIX e inícios do século XX.

A lápide evoca a proclamação de Nossa Senhora da Conceição como Padroeira do reino de Portugal, após a Restauração da Independência, por iniciativa de D. João IV nas cortes de Lisboa de 1646.

A lápide recorda-nos a luta de José Coelho pela preservação das portas e troços da muralha da cidade, atestada em numerosos textos publicados até 1950 (excerto do texto informativo).








Desafio-vos a conhecerem a minha cidade e esta magnífica Casa do Miradouro.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Viseu V

Quero regressar à minha cidade. Desde há duas semanas que desejo isso. Cada vez mais. É uma ideia que está a criar raízes. Implica uma grande mudança na minha vida, sem dúvida. Uma coisa é ir de férias, outra é mudar-me de vez. Aos dezoito anos, o que ansiava mais era sair de lá. Fi-lo, não sem custo. Era muito ligada à minha mãe e os primeiros anos foram difíceis. Depois, acostumei-me a Lisboa, ao bulício, às multidões, adoro Lisboa. Mas eu não vivo em Lisboa. Diabo, nem sequer trabalho em Lisboa. Para chegar ao meu serviço, demoro mais de uma hora. Isto é, a contar da hora em que saio de casa, 7:05. Marco o cartão do relógio de ponto às 8:25 (mais ou menos, se não houver trânsito na A5). Que qualidade de vida é esta? Passo o tempo em transportes. Chego a casa depois das 7 da noite, isto quando não fico por Lisboa para um programa, cada vez mais raro. No dia seguinte, o despertar é antes das 6.

Estou cansada. Escolhi esta terra, Seixal, por a minha mãe aqui viver depois de vender a casa de Viseu. Mas, com excepção de uns familiares chegados, nada me liga ao Seixal. É bonita, calma, mas é só isso (e nem vivo no Seixal, a minha freguesia é a Arrentela).

Mudar-me para Viseu implica pedir a mobilidade para um serviço de lá. Sou funcionária pública, da administração central, pelo que teria de enviar uma candidatura espontânea (ou concorrer a um pedido de mobilidade, se tal for publicado no Diário da República, como fiz para o actual serviço onde estou, há cinco anos). Esse será o primeiro passo. Não sei se demorará muito ou pouco tempo. Não faço a mínima ideia, de facto. Parece que todos os pedidos têm de ter o aval da Direcção-Geral do Orçamento, embora não haja verba extra, apenas mudança de orçamento de Ministério. Se encontrar trabalho, o segundo passo será colocar esta casa no mercado de arrendamento. Conversei com a minha irmã. Foi a única pessoa com quem falei mais a sério.  Aconselhou-me a arrendar a casa e não a vender. Desde que comprei esta casa, ela mudou cinco vezes de casa, sempre arrendada. Eu conseguiria arrendar o andar mobilado por 350 €. O mesmo valor de um apartamento T2 mobilado, como o meu, no centro da cidade de Viseu. Melhor seria se encontrasse um trabalho ao lado de casa :)

Claro que só conheço o centro de Viseu. As novas urbanizações são-me totalmente desconhecidas. Há novas ruas que nem no Google Earth consigo visualizar. Nunca lá passei. E essa zona já é cidade. Tudo cresceu. Mas o centro ficou igual, a minha cidade renovou-se. Certamente que há prédios que precisam de obras, e muitos, o antigo trabalho da minha mãe está fechado há anos e fica numa rua central da cidade. Um enorme casarão, com jardim, estacionamento, cave, primeiro andar e sótão. Lindo, sóbrio e abandonado. Fechado. Não sei se pertence à Câmara se a privados. Enfim, foi um aperto no coração quando passei por lá.

Apesar disto, Viseu é uma cidade jovem, linda, verdejante, rica em cultura, história. E Lisboa, de tanta oferta, uma pessoa dispersa-se e acaba por não ver grande coisa. E eu também não desejo muita coisa: um teatro, uns museus, passeios, enfim, o normal.

Eu sou uma pessoa sossegada, quero paz, qualidade de vida, respirar ar puro e voltar às minhas raízes, pois sei que a minha vida não é aqui.

Será 2015 um ano de mudança?

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Such a perfect day

O dia corre devagar. Não há planos. Passei a manhã a ler 'Manhattan Transfer'. O César acompanha-me, as gatas preferem a poltrona.



Almoço: massa com atum, abóbora e courgette. Não sou grande cozinheira, mas não morro de fome. Para a sobremesa, um batido de maçã.


À tarde, cinema. Estreia aqui no centro comercial o novo filme da Helen Mirren, 'A Viagem dos Cem Passos'. Vi a apresentação. Gostei.

Deslizam de mansinho estes últimos dias de férias. Oficialmente, hoje é o último. Para a semana, recomeço a labuta.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014



Lídia

A Lídia é exactamente como a tinha imaginado: doce, delicada e muito simpática. Recebeu-me com um grande sorriso e um abraço que me comoveu e fez-me sentir como se fôssemos amigas há muito tempo. É extraordinário o poder da blogosfera, através dela, conheci pessoas fenomenais. A Lídia comenta no blogue do Miguel, foi aí que comecei a lê-la, depois em outros blogues, mas no innersmile a Lídia encontrou, como eu, porto seguro.

Foi com um imenso orgulho, orgulho na instituição onde trabalha há tantos anos, profissionalíssima, ocupando um lugar de destaque - e com uma vista linda sobre Lisboa - que a Lídia me mostrou as instalações, apresentou-me os seus colaboradores, colegas e conversámos, conversámos muito. Depois, fui ao dentista (que, coincidência, fica ao lado do trabalho da Lídia), e combinámos que nos reuniríamos novamente após a consulta, para terminar o dia em beleza.

Esqueci-me da anestesia e da boca dorida, na companhia da Lídia. A conversa fluiu, entre um chá e bolinhos de queijo dos Açores, depois de outra visita guiada. Tal como aconteceu de manhã, fomos acompanhados pelo funcionário responsável pela respectiva área de trabalho. Como eu adoro livros, frisava a Lídia, não poderia deixar de conhecer um acervo espectacular.

E assim conheci a Lídia. A pequena, enorme Lídia, que me recebeu de braços abertos, com um doce sorriso e que me ofereceu este lindo gato de porcelana.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

O dia em que Júpiter encontrou Saturno (nova história colorida)

   - Vou tomar chá de ayahuasca e ver você egípcia. Parada ao meu lado, olhando de perfil.
   - Vou tomar chá de datura e ver você tuaregue. Perdido no deserto, ofuscado pelo sol.
   - Vamos nos ver?
   - No teu chá. No meu chá.
   (Silêncio)
   - Quando a noite chegar cedo e a neve cobrir as ruas, ficarei o dia inteiro na cama pensando em dormir com você.
   - Quando estiver muito quente, me dará uma moleza de balançar devagarinho na rede pensando em dormir com você.
   - Vou te escrever carta e não mandar.
   - Vou tentar recompor teu rosto sem conseguir.
   - Vou ver Júpiter e me lembrar de você.
   - Vou ver Saturno e me lembrar de você.


Caio Fernando Abreu, Morangos Mofados, ebook.

domingo, 10 de agosto de 2014

Viseu IV

Do adro da Sé, é um pulinho até ao Rossio, onde está um bonito painel de azulejos.


Construído em 1931, constitui-se como um apelativo painel em tintas azuladas, do azulejo fabricado em Gaia, fazendo o enquadramento da Praça do Rossio e criando uma ambiência festiva e convidativa ao lazer. Joaquim Lopes (1886 - 1956) soube captar neste friso azulejar a vivência própria da cidade e das suas gentes num tempo em que se vivia gostosamente. (texto retirado do site da C.M. de Viseu, aqui).

No Rossio, temos acesso a vários parques. Assim, mesmo ao lado do painel de azulejos, encontra-se o lindíssimo Jardim da Mães.


Um simpático espaço ajardinado que recebe o toque afectuoso de um menino que dorme no colo de sua mãe, que o escultor Oliveira Ferreira soube captar num bronze artístico e de singular beleza, homenageando desta forma a terra de sua mãe.

Do outro lado do Rossio, podemos apreciar outro jardim, o Jardim Tomás Ribeiro.


A deslado do Rossio, contra a fachada poente da Câmara Municipal, o Jardim Tomás Ribeiro, recentemente renovado, oferece-se à cidade como um local ajardinado, de sossego, com um recanto mais intimista e que desta forma romântica homenageia Tomás Ribeiro. Um espaço também de encontro entre convivas, onde nos podemos demorar e observar como a cidade vive. (texto retirado do site da C.M. de Viseu, aqui).

O Parque Aquilino Ribeiro, local onde passei tanto tempo em criança, estende-se no outro lado da Praça do Rossio. Naquele tempo, existia uma biblioteca infantil, com o mesmo nome do ilustre escritor, que foi um dos meus locais preferidos.

 
O Parque Aquilino Ribeiro, vulgarmente chamado Parque da Cidade, apresenta-se como um aprazível espaço de fruição da Natureza. Um parque onde existem grandes árvores, diversas espécies botânicas, lago e zona relvada, tendo feito parte da quinta do antigo Convento de St.º António dos Capuchos (doado aos franciscanos em 1635). No parque, pode ainda visitar-se a Capela de N.ª Sr.ª da Vitória (século XVII) e observar-se a estátua de João de Barros. (texto retirado do site da C.M. de Viseu, aqui).

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Viseu II

Continuando a divulgar a cidade das tílias, recomeço pela zona onde fiquei no primeiro post.

Depois de visitar a Cava do Viriato, voltei para trás e segui, novamente, até à Ribeira.

Aqui está uma fotografia. Fiz batota. É uma foto do dia seguinte, sexta-feira (Viseu é tão pequena que desci o centro histórico e vim aqui parar, antes do almoço). O céu está com mais nuvens, ao contrário do azul brilhante de quinta, mas para manter a sequência da passeata,  e como não tirei fotografias do Rio Pavia no dia anterior, decidi colocá-la. Ao lado, encontra-se um pequeno jardim; é um sítio belo, sereno, renovado, que não existia no meu tempo de miúda, mesmo ao lado do local onde se realiza anualmente a Feira de S. Mateus.


Olho para esta fotografia e penso que tenho imensa sorte por poder redescobrir a cidade que me viu crescer e que não apreciei devidamente em adolescente.

Mantendo-me nesta parte da cidade, fui caminhando rua acima até à Porta dos Cavaleiros.


É uma das primitivas entradas do burgo medieval. Sobre o arco repousa um nicho albergando uma imagem do século XVIII representativa de N. Sr.ª da Graça. (texto retirado do site da C.M. de Viseu, aqui).

Um pouco acima da Porta dos Cavaleiros, e continuando na avenida, no Largo Mouzinho de Albuquerque existe o Teatro Viriato (com muita pena, ainda não o visitei) e, entre outros edifícios, a Escola Secundária Emídio Navarro, onde estudei do 7.º ao 9.º anos, isto é, entrei com 12 e saí com 15 anos, para outra escola secundária, porque não tinha a área D, Estudos Humanísticos. Não tirei fotografias, mas encontram mais explicações no site da C.M. de Viseu, aqui.

Foi, então, nesta zona da cidade que entrei na Rua Direita. O cheiro das drogarias foi o que mais me impressionou, levando um momento a habituar-me, bem como a uma certa claustrofobia. A rua é estreita, cinzenta, antiquíssima, buliçosa.



No interior das muralhas medievais, esta rua, a meia encosta, era "o caminho mais directo para a cidadela". Estreita e sinuosa, contrariando o seu nome, a Rua Direita tinha grande actividade comercial, sendo conhecida por "Rua das Tendas". Possui vários edifícios interessantes, dos séculos XVI e XVIII, sendo o mais notável desta época o Solar dos Treixedos. A Rua Direita é um bom exemplo de adaptação com intervenção municipal. Transformada em via pedonal há vários anos, ali se experimentaram novos pavimentos, sinalética, iluminação pública, etc., para melhorar o conforto e preservar a vitalidade, que continua forte (texto retirado do site da C.M. de Viseu, aqui).

Finalmente, cheguei ao Adro da Sé. Fui caminhando devagar, subindo a Rua do Comércio (para mais informações, consultar o site da C.M. de Viseu, aqui), que era a rua onde eu comprava as revistas disney em segunda mão, ou trocava. Também existia a Casa do Povo, onde tive aulas de música, quando eu pensava que tinha jeito para isso, mas foi sol de pouca dura.


A Sé Catedral, entendida no seu todo, revela-se como um harmonioso conjunto, resultado de sucessivas intervenções de diferentes construtores, que na estrutura da igreja deixaram as marcas do seu tempo. A base arquitectónica da Catedral remonta aos séculos XIII-XIV, em estilo Românico-Gótico, tendo-se arrastado a construção por vários séculos. A sua estrutura de planta latina, cujos muros dos braços desiguais ainda subsistem, sustentados por robustos contrafortes, traduz essa linguagem, de um românico tardio e evocativo. Numa das mais "compostas" praças de Portugal, impõe-se a fachada  principal, onde se pode ler o vocabulário românico na Antiga Torre do Cartório, hoje Torre do Relógio, A outra torre, chamada Torre dos Sinos, adjacente ao Museu de Grão Vasco, é apenas uma evocação desse tempo, uma reedificação que substitui a inicial, que ruiu devido a um forte temporal em Fevereiro de 1635. O corpo central da fachada que hoje se pode contemplar (substitui frontispício manuelino que existiu até 1635), é fruto do labor do arquitecto João Moreno, cujo nome está ligado à cidade de Salamanca. A linguagem arquitectónica utilizada tem inspiração nos retábulos maneiristas, de vocabulário sóbrio e equilibrado, dividida que está a fachada em três registos horizontais, onde se rasgam seis nichos que albergam as imagens dos quatro Evangelistas, de S. Teotónio (ao centro) e no registo superior, a imagem de Nossa Senhora da Assunção. (extracto retirado do site da C.M. de Viseu, aqui, aconselhando-se uma leitura aprofundada, dado o interesse da descrição).


Contíguo à catedral, do lado norte, fica um majestoso edifício em granito, o antigo Paço dos Três Escalões, actualmente Museu de Grão Vasco. A sua principal colecção é constituída por um conjunto notável de pinturas de retábulo, proveniente da Catedral e de igrejas da região, da autoria de Vasco Fernandes (c 1475 - 1542), o Grão Vasco. (texto retirado do site da C.M. de Viseu, aqui, aconselhando-se uma leitura aprofundada, por incluir preços e horário de funcionamento).


Em frente à Sé, encontra-se a Igreja da Misericórdia, tendo como data provável de construção 1510. Igreja de beleza faustosa, enquadra o lado poente da praça que se estende a seus pés. Esta obra parece assumir o espírito da arquitectura do século XVIII, onde se verifica um forte ecletismo e, apesar da predominância do estilo Rocaille, transparece a arquitectura chã. Desenvolvida num registo horizontal, a fachada da Misericórdia apresenta um corpo central que se impõe, de maior altura, rematado por um frontão ondulante, coroado este por uma cruz; o desenho do frontão é acompanhado pela empenha que enquadra as armas reais. (texto retirado do site da C.M. de Viseu, aqui).

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Diário das férias

Segunda:
Quinta da Regaleira e Lisboa.

Terça:
Arrumações, limpeza, preparar a viagem.

Quarta-sexta:
Coimbra-Viseu.

Sábado:
César foi ao veterinário levar a segunda dose das vacinas. A veterinária aproveitou para tirar a temperatura, auscultar e observar a boca. Tem gengivite. Receitou Elugel.
Chegar a casa e olhar para a boca da gatas. A Elvira e a Alice  também têm as gengivas irritadas. Mentalizar-me para ter de esfregar um dedo com a pasta nas gengivas dos gatos durante três dias. Ponderar a compra de uma bebida forte, tipo Cutty Sark. Preferia Bushmills, mas a carteira está vazia.
Procurar os valiuns receitados ao Farrusco no ano passado.
Sobreviver a sopa de feijão verde, broa de Viseu, gelatina e iogurtes caseiros.

Domingo:
Depois do almoço, ida a Lisboa.
Pelas 16,30, aproveitar ser o primeiro domingo do mês e entrar gratuitamente no MNAA. Sair às 18,00. Caminhar até ao Cais do Sodré, passar pelo Time Out - Mercado da Ribeira, não gostar, sair sem gastar nada, entrar no metro, ir à feira de livros usados e comprar 'O Memorial', de Christopher Isherwood, por 2,5 €.
Continuar a sopa, gelatina, iogurtes e broa.


Segunda:
Lagartar em casa.
Abrir o frigorífico e constatar que o prazo dos ovos acaba neste dia. O que fazer com cinco ovos L? Um pão-de-ló. Cinco ovos, o peso dos ovos em açúcar, metade do peso em farinha, coze em forno médio.
Continuar a sobreviver a sopa e agora a pão-de-ló. A broa acaba-se. Tirar o liquidificador do armário e fazer batidos de maçã (única fruta da casa).

Terça:
Despensa vazia. Ida ao hipermercado.
Regressar pela hora do almoço. Um calor insuportável.
O pão-de-ló está pela metade. De consciência pesada, ao fim da tarde, caminha-se 10 kms pela marginal. Descansa-se na praia dos tesos. Pelo andar da carruagem, será a única praia a frequentar nos próximos dias. Perto, sem muita gente, mas sem molhar os pés. É levar a toalha, a garrafa de água, um livro, estar lá umas horas e regressar a casa. Dispensa-se o calor e a areia a escaldar.

Quarta-feira:
O pão-de-ló conseguiu sobreviver dois dias. As duas últimas fatias desaparecem ao pequeno-almoço.
Tarde: Lisboa.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Viseu

   As origens de Viseu antiga e nobilíssimacidade perdem-se nas brumas do tempo. Aqui estanciaram homens das Idades remotas da pré-história e conviveram Celtas e Lusitanos: aqui se fixaram os Romanos em séculos de prosperidade e paz e por aqui passaram com maior ou menor detença hordas dos povos invasores: Suevos, Godos e Muçulmanos.
   No tempo dos Suevos, em meados do século VI, já Viseu tinha os seus bispos, sufragâneos de Braga. Mais tarde, porém, com a chegada dos Muçulmanos e a derrocada do reino visigodo, o receio das violências dos infiéis obrigou-os a tomar o caminho do exílio e a refugiar-se nas longínquas montanhas das Astúrias. Seguiu-se um longo período nebuloso e trágico, raramente clareado por breves lampejos de paz.
   Mudando frequentemente de mãos, ora em poder de cristãos, ora de maometanos, apenas no ano 1058 a cidade de Viseu, graças à arremetida vitoriosa de Fernando Magno, rei de Leão, logrou recuperar, definitivamente, a sua liberdade. Mas tão desmantelada ficou, forma tão fundas as feridas da rude ofensiva leonesa, que somente em 1147/1148 - cem anos após a reconquista...- estava a Diocese em condições de sustentar bispo próprio. Durante tão longo interregno pontifical, foi a Diocese governada pelos Bispos de Coimbra, por intermédio de Priores, o mais célebre dos quais, pelas suas virtudes, foi S. Teotónio, patrono actual da cidade (estas informações foram retiradas do site da Câmara Municipal de Viseu e aconselha-se uma consulta mais aprofundada aqui).

Como visitei a minha cidade com olho de turista flaneur, na tarde de quinta-feira, sem pressa, sem guia e sem itinerário escolhido, fui andando e fotografando, optando por entrar, apenas, em dois espaços culturais que não conhecia a fundo. O primeiro é a Casa da Ribeira. O outro, que adorei e fiquei com uma enorme pena de lá não trabalhar, é a Casa do Miradouro (aprofundarei esta casa em próximo texto).


 

   Casa da Ribeira é um espaço cultural evocativo de múltiplas memórias de Viseu e da história recente do lugar.
   A ela associam-se a presença dos tradicionais moinhos do rio Pavia, o lagar de azeite e o labor das lavadeiras que coravam e secavam as roupas junto da represa do moinho. A Casa evoca ainda a presença das barcas na Ribeira, que marcaram a vida do rio e da comunidade, em momentos de lazer e num imaginário infantil de aventuras.
  A Casa da Ribeira apresenta à comunidade e aos visitantes um conjunto de exposições e experiências culturais que trata e evoca esse e outros patrimónios de Viseu (texto retirado do site da C.M. de Viseu, aconselhando-se uma leitura aqui).
   A visita é gratuita e o espaço lindíssimo.

Ao lado da Casa da Ribeira, encontra-se a Igreja da Nossa Senhora da Conceição.



      É uma antiga capela construída no século XVII e dedicada a S. Luís, rei de França, que se refez mais tarde e onde se estabeleceu a Irmandade de Nossa Senhora da Conceição. Com o crescimento da Irmandade, em 1757 deu-se início à renovação deste espaço. A traça deste pequeno templo deve-se, provavelmente, ao mestre António Mandes Coutinho, que lhe imprimiu um cunho cenográfico. Na fachada desenha-se um portal com uma moldura de traço simples, onde se sustenta um frontão enrolado com uma tarja ostentando insígnias marianas. Num registo inferior rasgam-se duas janelas, iluminando desta forma a nave, enquanto que num registo superior se abre um óculo, também ele enquadrado por uma moldura sem valor expressivo, e que desta forma ilumina o coro alto da igreja. O remate é de uma graciosidade pura, imprimindo uma leveza de movimento ao conjunto. Duas urnas coroam as pilastras adossadas ao corpo central. À direita, um campanário com duas ventanas. No seu interior, a separar a nave da capela-mor, existe um arco cruzeiro. Possui três retábulos Rococó, da segunda metade do século XVIII, inspirados nos da Igreja dos Terceiros de S. Francisco. Na parede da nave, um pequeno nicho alberga uma estátua do século XVII, de S. Luís, rei de França. Nos inícios do século XX foi construída a dupla escadaria e o gradeamento do átrio (texto retirado do site da C.M. de Viseu, aqui).

Ao lado, encontra-se uma magnífica casa recuperada (a Casa Nova da N. Sr.ª da Conceição), com as paredes decoradas com cobertura de escamas.

Continuando o périplo, seguindo pela rua da Igreja, do lado direito temos a famosa Cava do Viriato e a Estátua de Viriato.


À beira da Cava de Viriato, ergue-se a estátua de Viriato, o aguerrido herói que a cidade desta forma homenageia. O escultor Mariano Benliure, de nacionalidade espanhola, soube interpretar neste expressivo conjunto escultórico, a alma e o vigor do valente guerreiro, que personificou a luta contra o invasor romano e que Viseu adoptou como personagem do seu imaginário na construção da imponência da cidade (texto retirado do site da C.M. de Viseu, aqui).

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Imaginação


'Faça a anatomia da realidade, para mostrá-la ou entendê-la, negá-la, ou melhor ainda, para entender o que a realidade está fazendo com todos nós. Mas o escritor não pode prescindir da sua imaginação, da capacidade de criar, inventar o que não viu, não ouviu, não tocou, não cheirou, não sentiu jamais.' (...) 'Sem imaginação não há literatura. A imaginação é a mãe da ficção, é a mãe da poesia, é até mesmo, como disseram Mommsen e Burckhardt, a mãe da História.'

Rubem Fonseca,  E do Meio do Mundo Prostituto Só Amores Guardei ao Meu Charuto, 1997, ebook.

domingo, 3 de agosto de 2014

Ecopista do Dão: circuito Torredeita-Viseu

Dando continuação ao relato das minhas mini-mini-férias em Viseu, na quinta-feira desloquei-me à vila de Torredeita, local de residência do pároco da minha aldeia (é uma paróquia que engloba três localidades: Torredeita, Farminhão [a minha aldeia] e Boaldeia). Tínhamos conversado uns dias antes por telemóvel e eu confirmei que iria visitá-lo, então, na manhã de quinta.

Pelas onze horas, o assunto que me levou a Torredeita estava tratado e resolvi regressar a Viseu pela Ecopista do Dão.  Não vos maço com descrições sobre a maravilhosa Ecopista, aconselho, pelo contrário, a visita a esta página do site da referida Ecopista (cliquem aqui! Desfrutem do site com calma, tem fotos e descrições interessantes).

Comecei o circuito, então, na estação da Torredeita, onde se encontra uma velhinha locomotiva. É uma pena que a estação não esteja nas melhores condições, mas não a destruíram, como aconteceu com a estação de Viseu (imperdoável!).

Segue-se uma selecção de fotos, das dezenas e dezenas que tirei ao longo de 11,5 km (sim, eu caminhei 11,5 km - muitos mais ao longo do dia), mas valeu a pena. Paisagens de cortar a respiração, silêncio entrecortado pelo chilrear dos pássaros e pelo rastejar de animais no meio da erva, fetos, folhas secas. Quase três horas no paraíso. A última vez que andei por essas bandas foi na automotora, há uns trinta anos, ou seja, eu teria dez, quase onze anos. A automotora saía da estação de Viseu e eu apeava-me na de Farminhão. Já tínhamos o nosso cão, o que viveu dezoito anos, e nas férias sempre o levávamos connosco. A minha mãe, para transportar o Fofo na automotora, pagava meio bilhete (além de o cão ter de usar açaime nessa altura). Bem, lá íamos todos para a aldeia, ainda não vivíamos em Viseu, e deixávamos os gatos soltos, tínhamos uns quantos, e eles lá ficavam sob a alçada de vizinhos. Anos antes, levámos os gatos, duas gatas e um gato, dentro de cestos, e tivemos de os manter fechados em casa da avó, que fugiam. Uma, não a conseguimos segurar, chamava-se Nina, e escapuliu-se. Demorou mais de três meses a regressar a nossa casa, deixando os filhotes pelo caminho (estava prenha quando fugiu). Nessa altura, como não soubemos mais nada dela e não havia chips nem nada que se pareça, foi incrível como ela conseguiu encontrar a nossa casa, dezenas e dezenas de quilómetros de distância da aldeia da avó. (Bem, esta história é um aparte, só para recordar que eu tenho animais de estimação desde criança e nunca poderia viver sem eles e adoro felinos, como é do vosso conhecimento. Nunca tinha contado esta história, da gata Nina, a aventureira, e como era parecida com o Farrusco, tigrada e doce. Quando nos mudámos para a cidade, aí, bem, fomos para um apartamento e os gatos nunca se habituaram. Fugiram de vez para uma casa antiga que tinha grandes espaços verdes e eu via-os muitas vezes, até que refizeram a sua vida por lá).

Ora, retomo a minha caminhada pela Ecopista do Dão. Aqui ficam as fotografias. Divirtam-se. Gravei-as com o nome correcto (espero bem), pelo que acho que não precisam de mais legendas. Macieiras, figueiras (lembro-me de, por esta altura, ou talvez em meados ou fim de Agosto, a automotora fazia uma curva apertada, bem devagar, e esticávamos o braço pela janela e apanhávamos figos, gordos, maduros).

Vinhas, verde, muito verde, pinheiros, penedos, alguns eucaliptos, poucos, felizmente, carvalhos, é um passeio que merece a pena, em vez de irem a pé, aluguem uma bicicleta, eu não o fiz, tive pena. Já quase no fim, a dois quilómetros de Viseu, confesso que me custava imenso a andar, mesmo tendo parado quase meia hora em Figueiró para comer qualquer coisa e retemperar forças.
















Um pequenino vídeo sobre a ponte de Mosteirinho:



Continuam as fotografias :)






















Aqui situava-se a estação de Viseu (artigo na Wikipédia aqui e foto aqui - na sexta-feira de manhã, fui conversar com o fotógrafo do 'Germano', atelier de fotografia que tem um espólio fantástico de fotos antigas).

E assim terminou o passeio. A Ecopista do Dão começa após esta rotunda, no sítio da antiga estação. A cidade de Viseu não é muito grande - refiro-me à cidade propriamente dita, pois cresceu imenso à volta, prédios, prédios, o Palácio do Gelo (não fui lá desta vez), estradas novas, rotundas, sim, muitas...