sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

O conto do Eolo

   O Destino Absoluto: Apocalipse

   Olhou-se ao espelho, dos lábios gretados aos olhos vermelhos, passando pelo nariz entupido e inchado. A cabeça latejava. Para terminar em beleza, notou a borbulha na testa ao passar com a ponta do dedo. Enorme, nem toneladas de corrector conseguiriam disfarçar.
   Tentou inspirar profundamente pelo nariz congestionado, mas sentiu uma tontura e apoiou-se no lavatório, de olhos fechados.
   Ao fundo, um barulho incessante de gargalhadas e diálogos de um filme manga; ouviu um grito estridente e imaginou as garras da gata fincadas na perna da vítima, o animal bufando, furibundo, com a cauda erecta como um espanador.
   Tenham piedade de mim, só quero sopas e descanso, pensou. Canja da mamãe, isso, sim, é que me sabia bem.
   Devagar, levantou a tampa da caixa e tirou o lápis. A mão tremeu-lhe; naquele estado, nenhum risco sairia direito, constatou. Nem para desembrulhar um presente teria forças.
   Afastou-se do espelho a tempo. O espirro obrigou-o a sentar-se na borda da banheira, as lágrimas escorriam-lhe pelo rosto, a base estragada. Minha santa Mac, acode-me, soluçou.
   Levantou-se e atirou a caixa para a gaveta, fechando-a com um gesto brusco. Suspirou, impotente. Era o apocalipse. Teria de os enfrentar assim mesmo.
   Assoou-se com força, mirou-se uma última vez e saiu do quarto-de-banho.
   Minutos depois, encontrava-se numa sala silenciosa, deitado no sofá com a cabeça no colo da mãe.
   Ela aconchegou-lhe a manta, inclinou-se e beijou-o na face húmida.
   - Feliz Natal – a mãe sorriu.
   Apertou-lhe a mão, grato, e fechou os olhos.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

O conto do Mikel Shiraha

   Palavras Cruzadas, Destinos Cruzados

   Sobre o tapete puído da sala, está uma velha mesa quadrada castanho-escura; o homem, sentado no banco, não levanta a cabeça. Uma caligrafia redonda, delicada, enche uma página de papel azul vincada ao meio; ao lado, um envelope imaculadamente branco, sem remetente, está aberto. Encontrara a carta minutos antes debaixo da porta da entrada.
   Segura a folha com a mão direita e fixa o olhar, a respiração abranda a pouco e pouco, as letras esbatem-se.
   A claridade do meio da manhã é substituída pelo entardecer. Um menino escreve numa folha pautada do caderno da escola. Tem a cabeça levemente inclinada para o lado esquerdo, a testa franzida de concentração. Pede, não presentes, nem doces, nem um casaco novo que o seu já estava curto nos braços, mas as luvas tricotadas pela avó ainda tapavam o frio; pede, sim, que ela regresse a casa com saúde, ela e o seu riso, era tão bom ouvi-la a rir, a casa está tão silenciosa e fria, a avó longe que, para a visitar, um bocadinho apenas nas tardes de domingo, tem de atravessar um grande corredor de cor verde-clara a cheirar a desifectante.
   O menino pede com tanto fervor, escreve com tanta força que o papel rasga.
   No tampo da mesa, fica gravada a palavra «amor», a mesma que remata aquela carta anónima, com um traço mais comprido no último «r», como uma pequenina onda que se transforma numa vaga, inunda a sala e submerge o homem nas recordações.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

O conto do Horatius

   Dói-me o dedo mindinho

   A criança só parou de chorar junto ao moinho. O moleiro tirou a boina, limpou o suor da testa e voltou a colocá-la na cabeça. Abriu a porta e entraram.
   O menino fungou e sentou-se no chão, a um canto, de pernas encolhidas e com o queixo pousado nos joelhos.
   - Sabes que tens de ir para a escola – o homem puxou um pequeno banco de madeira e sentou-se ao seu lado.
   - Aqui aprendo tudo – olhou-o com os olhos ainda húmidos e vermelhos. Estendeu-lhe uma mão rechonchuda fechada. Abriu-a um pouco e um fio de farinha deslizou para o chão. Espalmou o montinho, rabiscou algo e apagou-o de seguida com um gesto rápido.
   Enquanto espalhava a farinha de um lado para o outro, fixou o olhar nas costas um pouco curvadas do avô, que se tinha levantado e começado a trabalhar.
   Momentos depois, o avô sentiu-o ao seu lado. Olhou-o e reparou que apertava uma mão junto ao peito.
   - Dói-me o dedo mindinho – a criança murmurou.
   - Como te magoaste? – pegou na mão e viu um fiozinho de sangue.
   - Bati na pedra.
   Ele tirou o lenço da algibeira, enrolou-o na mãozinha, atou-o, e, com um gesto brincalhão, despenteou o menino.
   O petiz colocou os bracitos à volta da cintura do avô. Assim ficaram um longo tempo, um moleiro, de mãos vermelhas e dedos calejados, e o seu neto, com um rasto de farinha nos caracóis negros e uma ferida já esquecida no dedo.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

O conto do Rui Alex

   No livro guardo a ilustração

   Estendo o braço. O rapaz, embrulhado num xaile de lã, aceita-o com uma mão a tremer. Baixa a cabeça, segurando as lágrimas e aperta-o junto ao peito. Ao seu lado, a senhora abraça-o com ternura. Devagar, puxa-o, agarra na minha lapiseira que estava sobre a mesa, aproxima o candeeiro a petróleo, regula a chama, examina-o e assinala uma vinheta com uma cruz. Brinda-me com um sorriso e passa-o ao velhinho. Ele debruça-se sobre a página, com os óculos na ponta do nariz, levanta a cabeça, confuso, e volta a incliná-la. Estende o braço e o jovem agarra-o, vira a folha e observa a tira com a cena dos rapazes nas escadas. Emocionado, lê baixinho o poema que estava num balão e olha para mim, agradecido. O homem sentado no sofá em frente agarra-o antes de cair ao chão. Dá uma ligeira cotovelada no amigo ao seu lado, enquanto aponta para vinheta que mostra a mesa do restaurante junto a uma janela sombreada pela chuva. De repente, uma bengala cai estrondosamente no soalho. O snob arrebata-o das suas mãos com um gesto violento. Observo-o a procurar o desenho, até que o atira para cima do sofá e sai da sala, carrancudo. O cão, então, estica uma pata e tenta virar as páginas abertas; o dono puxa-o para o seu colo, pega nele e entrega-o, por fim, aos dois velhotes. Eles, como cinquenta anos antes, olham, cativados, para o cartaz da diva que ocupa a última página.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

O conto do Namorado

   Porque tenho medo da solidão

   Caminho sem pressa. Espera-me uma casa vazia. Olho sem interesse uma velha sapataria, vejo os modelos ultrapassados, um espaço sem vida, como o reflexo que me olha pelo vidro da montra. Enfio as mãos nos bolsos do casaco, enquanto o meu olhar deambula pelo prédio ao lado. Acompanho o baloiçar de uma cortina transparente numa janela aberta. Páro em frente a um rés-do-chão. Espreito de viés e percorro a pequena divisão com um relance rápido.
   Vejo-o sentado num sofá castanho. Apoia os cotovelos nos braços puídos e olha para a televisão. Por trás de si, na parede a descascar, está pendurada uma grande fotografia. Pende sobre o lado esquerdo e o velho caixilho de madeira dourada está rachado nos cantos. O vidro com manchas de humidade protege a imagem amarelecida pelos anos. Mostra um bebé, com um caracol loiro sobre a testa e vestido debruado a renda, ao colo de uma jovem mulher.
   Não há som. Apenas um cone de luz branca, quebrado pela passagem incessante dos canais, bate naquele rosto sulcado pelas rugas. Um dedo mirrado pela artrite carrega no botão do comando.
   A luz mortiça fixa-se de repente. Ele vira o rosto e olha para mim sem expressão. Tem um nariz com pequeninas veias roxas e os óculos pesados transformam os seus olhos em pequeninos pontos. Fixa-me durante uns breves segundos e, de seguida, torna a olhar em frente, alheado. As imagens tornam a passar no ecrã e eu ali fico, a mirar-me.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

O conto do Ribatejano

   Leva contigo o meu coração

   Devagar, como se estivesse a arrancar pedaço a pedaço, o coração, rasgo as folhas do calendário pendurado atrás da porta.
   O som do picotado ecoa na enorme cozinha; ressoa-me nos ouvidos como uma serra a desmembrar-me. Tremo convulsamente. Escorrego para o chão, as pernas tortas, os braços pendentes, sou uma marioneta desengonçada.
   Deslizo uma mão e apanho uma folha. O mês é Março. Tinhas marcado com um círculo a caneta de feltro verde, a tua cor preferida, a data do nosso aniversário. Seria o terceiro, a vinte e um. Vinte e um era o meu número da sorte. Até agora.
   Sinto uma dor lancinante no peito e não consigo prender as lágrimas. Soluço sem parar, estupidamente abandonado, zangado. Bato com os punhos na tijoleira, como cheguei a este estado, pergunto-me, feito em frangalhos.
   O cão aproxima-se de mim. Olha-me com os seus grandes e tristes olhos, as orelhas em baixo, estende uma pata e afaga-me um joelho.
   Numa tarde de sábado chuvosa, naquele mês de Março, apareceste à porta com o cão nos braços. Tinhas encontrado, disseste, tremendo de frio, o pobre animal abandonado na estrada.
   Acolhi-vos sem reservas. Nunca fora tão completo, tão feliz, a casa cheia de vida, gargalhadas, latidos, olho para as pernas da mesa roídas, lembro-me dos chinelos que te oferecera nesse natal, duraram um dia, eu gritei com o cão, tu fizeste-lhe festas e desculpaste-o, eu desisti, vencido.
   Três anos depois, deixas-me o cão e levas contigo o meu coração.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

O conto do No Limite do Oceano

   Meu Prozac e a avezinha

   Como um objecto que acaba por ser esquecido, guardado no fundo de uma gaveta, o tempo encarregara-se de enterrar a dor. Muitos anos se passariam até voltar a senti-la.
   Um dia, estava a caminhar num campo e reparei, ao longe, em três crianças ajoelhadas em frente a uma árvore. Curioso, aproximei-me e, de súbito, ela emergiu como uma erupção vulcânica.
   Dois rapazes enterravam uma pequena caixa de cartão, um féretro níveo manchado por dedadas castanho-escuras; com as mãos, tinham escavado um buraco. Reparei que nos dedos magros e sujos de uma menina, que soluçava, uma pequena coleira cinzenta oscilava, o seu movimento como que a marcar o ritmo dos soluços.
   Num episódio semelhante, um jovem, um pouco mais velho do que aqueles rapazes, soluçava ajoelhado junto a um monte coroado de folhas verdes e galhos entrançados. De um ramo mais resistente, espetado em cima, uma coleira e uma trela azuis assinalaram aquele sofrimento, balançando com uma súbita rajada de vento.
   Fechei os olhos, triste; ao abri-los, encontrei as crianças abraçadas e a chorar em silêncio.
   Depois, afastaram-se de mãos dadas e, à frente delas, o sol brilhou, num magnífico céu azul sem nuvens.
   Aos poucos, as três figuras douradas esbateram-se. Uma imagem solar irrompeu, afastando a dor e aquecendo-me naquela tarde outonal: um jovem Prozac contemplava, com a cabeça um pouco inclinada e as patas empoleiradas no parapeito da sala, um pequenino melro suspenso num abeto do jardim, no longínquo Verão dos meus treze anos.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

O conto do Mark

   Enquanto os cães se demoram.

   O tapete do corredor abafa o ruído dos seus passos. Só a chuva se ouve. Na ombreira da saleta, detém-se e observa-a. Mirrada, há muito que a sua grandiosidade desaparecera. Agora, está afundada num cadeirão antiquado, um pouco mais velho do que ela. O seu queixo pontiagudo pousa num peito liso, oculto pelo xaile de lã.
   De olhos fechados, respira muito devagar, como se estivesse a dormir. Mas, tal como ele, escuta a chuva a tamborilar nas vidraças.
   Vê a sua vida a passar por detrás das pálpebras fechadas quase transparentes. E aguarda. Não vai demorar.
   Por fim, solta um longo suspiro, como se lhe desse permissão para entrar. Então, ele aproxima-se devagar e, gentilmente, passa a mão pelo seu cabelo branco do alto da cabeça. Ajoelha-se à sua frente, mas teme que os frágeis ossos se quebrem em inúmeros pedaços e não coloca a cabeça naquele delicado colo. Mantém-na no ar, os olhos rasos de água, e sente a vida prestes a desmoronar-se.
   Ela abre os olhos, levanta a cabeça e sorri-lhe. Apazigua-o com o olhar terno. A custo, ergue um braço esquelético, tapado por um tecido escuro de seda; ele repara que no magro pulso está a pulseira de ouro que lhe oferecera no último aniversário.
   E, enquanto os cães se demoram à porta pela derradeira vez, ela pousa a mão na testa dele e o abençoa.
   Um último sopro de vida sai-lhe dos lábios engelhados. A mão inerte tomba para o lado.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O conto do Francisco

   Quando eu menos esperava, apareceste…

   Preparava-me para sair do bar, quando alguém se sentou no tamborete de madeira ao meu lado, no balcão. Esvaziei o copo e, discretamente, olhei-o. Com um aperto de mão, cumprimentou o barman e pediu o costume. Um cliente habitual, constatei.
   Havia algo de diáfano naquele estranho, com o cabelo claro, a camisa branca, a pele pouco bronzeada, apesar de o Verão estar quase no fim.
   Sorveu um pouco da bebida e, de seguida, retirou de uma embalagem de cartão um objecto. Maravilhado, mostrou-o ao barman. Reparei que as suas mãos pálidas como que brilhavam ao segurar, com extrema delicadeza, aquela peça.
   Então, começou a contar a história, Estava a caminhar numa pequena rua, depois de uma reunião de trabalho ali perto, e parara diante da montra de uma loja de objectos usados. De uma parede, pendiam, quase até ao chão, uns pequenos focos, como uma silenciosa cascata de luz. E, em baixo, estava aquela peça. Ficou tão fascinado pela sua beleza que decidiu comprá-la naquele momento. E agora ali estava ela. Pousada no balcão profano e adorada como uma divindade.
   Era um singelo candeeiro a petróleo com uma base de metal dourado e uma chaminé delicadamente ornamentada.
   Interrompi-o. Disse-lhe que, quando era miúdo, acendera dezenas de vezes um candeeiro a petróleo exactamente igual àquele, na casa da minha avó.
   Depois da terceira bebida, confidenciei-lhe, já sentados numa mesa longe do balcão, que ainda o tinha em casa, em lugar de honra, em cima da cómoda.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O conto do Miguel

   São Pedro de Moel. Julho

   O livro fechado sobre a mesa, o lápis marcando a página com as frases que tinha sublinhado. Com o lenço bordado que guardava no bolso do vestido, limpava os olhos lacrimejantes que recebiam a humidade do oceano.
   Pedia-lhe, constantemente, que não estivesse tanto tempo na varanda, mas ao regressar, reparava sempre na sua figura, vagamente obscurecida pelo guarda-sol, a cabeça inclinada para baixo, com o livro no regaço. Ao lado, na mesa redonda de ferro, os companheiros daquelas tardes soalheiras: a chávena de chá, o bule e o solitário com a rosa vermelha que lhe trazia todas as manhãs.
   Suspirava, abanando a cabeça, derrotado. Por fim, entrava, largava displicentemente no sofá da sala a toalha e o jornal meio lido e aproximava-se. Inclinava-se, depositava um beijo na face levemente oleosa do creme protector e perguntava-lhe como tinha passado a tarde. Por instantes, a resposta acalmava-o. Então, arrastava a cadeira para o seu lado, o que lhe valia a única reprimenda do dia, quando levava uma branda palmada no braço. Mas fazia-o todos os anos, naquela quinzena de férias junto ao mar, como se precisasse daquela punição, uma brincadeira entre os dois que mascarasse a angústia que se agarrava a ele como as lapas nos rochedos das falésias.
   Naquele Verão, à medida que se aproximava, foram aquelas as imagens que lhe vieram à memória. Estacionou junto ao hotel. Saiu e caminhou pelo passadiço de madeira, em direcção ao farol, enquanto escutava, triste, o marulhar do Atlântico.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

O conto do João Máximo

   Loiras, ruivas ou morenas?

   “Nós, os desse tempo, ainda nos lembramos.”, declarou um velho, de repente.
   Tinham-se refugiado da chuva naquele bar. Ao balcão, estavam dois velhos e o empregado, quase tão idoso como eles, limpava um copo com um pano da loiça amarelo.
   Pediram dois finos e fizeram um sinal. As duas taças foram cheias. Os velhos olharam para eles e ergueram-nas numa saudação.
   “No dia da inauguração, há cinquenta anos, a casa estava cheia.”, prosseguiu. Um gole. Satisfeito, deu um estalido com a língua. “Tinham colocado uma grande faixa à porta três dias antes. Na data marcada, as pessoas acotovelavam-se à entrada, à espera que abrissem as portas, com os bilhetes na mão. Sentámo-nos na grande sala nova em folha. O proprietário fez um pequeno discurso sobre o inesquecível espectáculo que íamos assistir nessa tarde. Depois, pediu silêncio e afastou-se. Os cortinados foram abertos e a grande tela branca apareceu. Os meus olhos brilhavam de expectativa. Ao fundo, ouviu-se um ruído estranho e uma fina claridade surgiu no alto da sala. O filme tinha começado.”
   Escutavam-no, cativados.
   “Assim se inaugurou o cinema do bairro. A faixa continuou pendurada até ao fim do Verão. As palavras já mal se viam, desbotadas, mas ninguém se tinha esquecido do que anunciava”. O velho acabou de beber o vinho.
   O amigo suspirou e enleado naquelas recordações, terminou de olhos fechados:
   “Loiras, ruivas ou morenas? As grandes divas do cinema agora ao pé de si. Sessão inaugural no dia 21, às 16 horas.”

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

O conto do João Roque

   Eu fui à tua procura

   Foi num sábado à tarde, recordou-lhe, enquanto liam aquele poema, mais uma vez, embora o soubessem de cor, depois de tantos anos. E, de novo, contou como tudo acontecera.
   Tinha acabado de chover e resolvera sair de casa, andar sem rumo, como tantas vezes faziam os dois. Num jardim, descobrira, por acaso, uma feira de livros usados. Adorava passar os dedos pelas lombadas gastas, vincadas, abrir um livro, depois outro e outro.
   De um caixote periclitante sobre uma desconjuntada mesa de campismo, um detalhe que guardou na memória, decidiu-se por um pequeno livro de poesia. Uma edição de autor, de pequeníssima tiragem, produzida uns vinte anos antes. Devagar, passou as páginas e leu alguns pequenos poemas de amor. “Jovem poeta apaixonado”, pensou, após ler, na contracapa, as três breves linhas que compunham a sua biografia.
   Folheou-o até parar num poema com o título “Eu fui à tua procura”. De repente, o coração apertou-se, sentiu a boca seca, um desassossego. Quase sem dar conta, retirou umas moedas do bolso das calças, entregou-as ao vendedor e afastou-se. Nas mãos, segurava aquele tesouro, a cabeça inclinada para baixo, incapaz de afastar os olhos.
   As pernas levaram-no a um prédio conhecido. Tocou à campainha. Do intercomunicador, saiu uma voz rouca que tão bem conhecia. Com um zumbido, a porta abriu-se. Entrou.
   Encontraram-se a meio da escada. Retirou o livro do bolso do casaco, abriu-o na página marcada com um velho papel e, ali mesmo, leu-lhe aquela declaração de amor.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

O conto do Silvestre

O pernóstico capcioso vituperador


   Uma noite, à saída do restaurante, um homem velho, magro, de sobretudo escuro e laço ao pescoço, ergueu uma bengala à frente deles.
   “Péssima escolha.”, declarou, abruptamente, barrando-lhes a passagem. Apontou para o restaurante com a ponta da bengala. Depois, disse, com um tom altivo, que conhecia um clube de bridge com um óptimo serviço. “Os senhores seriam bem-vindos. Convido-vos.”
   Com a confiança de um homem que sabia dar ordens e ser obedecido prontamente, fixou-lhes um olhar astuto. Mantinha a bengala no ar.
   Olharam-no, emudecidos. O estranho interpretou como se fosse submissão.
   Um deles abanou a cabeça.
   “Lamento, mas acabamos de jantar. Estamos cansados. Mas podemos oferecer-lhe uma bebida rápida aqui”, respondeu.
   “É um lugar repugnante. Jamais entraria aí dentro.”, foi a resposta do estranho.
   Empertigado e agitando com maneirismos a bengala, viram-no afastar-se.
   Algum tempo depois, foram jantar ao mesmo restaurante. Recordaram-se do episódio estranho e perguntaram ao dono se conhecia o velhote.
   “Um louco que se julga um barão!”, exclamou. “Só porque, um dia, há alguns anos, não o servimos com o requinte que desejava. Isto é um estabelecimento familiar. De vez em quando, aparece por aqui. Engraça comigo e desgraça-me a casa, essa é a verdade. Espalha boatos na rua.”
   Por fim, acalmou-se e sorriu. “Mas os senhores gostam de cá vir”.
   Anos depois, continuam a jantar naquele restaurante. De vez em quando, ainda se recordam do barão que não era barão, do clube de bridge que não existia e trocam sorrisos cúmplices.

domingo, 27 de setembro de 2015

O conto do Ricardo

   Se o amor acontecesse


   Fora há doze anos.
   Tinham-se conhecido no trabalho. Departamentos diferentes, três andares de distância, encetaram uma conversa de circunstância num dos elevadores. “Cheguei na semana anterior”, respondera a uma pergunta mais curiosa. “Ainda não conheço muita gente”. Nesse mesmo dia, ao fim da tarde, voltaram a encontrar-se à porta do escritório. Sorrisos de reconhecimento, casacos apertados, os dias começavam a arrefecer, um cachecol fora enrolado, uma gola do casaco levantada.
   Lembrava-se de todos os pormenores, de como caminharam sem destino durante muito tempo, de como a conversa acabava de repente e um silêncio, que começava a ser familiar, se instalava entre eles, enquanto se iam afastando do centro.
   Anoiteceu devagar. Os candeeiros da rua acenderam-se, o trânsito tornou-se mais intenso. Hora de ponta. A um dado momento, declarou que era a altura do dia que preferia, quando as pessoas se apressavam para chegar a casa. “Sinto-me a nadar contra a corrente, como o salmão a subir o rio”. Riram.
   Depois, sem saber como, tinham parado à porta daquele pequeno restaurante. Entraram, sentaram-se numa mesa junto à janela e jantaram.
   Sete meses depois do primeiro encontro, a pergunta interrompeu um dos muitos silêncios que habitava entre eles desde o início.
   “O que farias, se o amor acontecesse?”
   Nunca tinham discutido o assunto e ficou surpreendido com a pergunta. Não ousou responder logo. Olhou pela janela a rua deserta. Chovia nessa noite, uma chuva puxada a vento, que batia no vidro sem cessar. Comoveu-se.
   “Caminhava”, murmurou, por fim.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Bette Davis 2015


   Está aberta a 4.ª edição do Bette Davis. Quem quiser participar, só tem de me dar um título até 5 palavras e eu escreverei um micro-conto com 250 palavras, incluindo o título. A caixa de comentários é vossa.

domingo, 20 de setembro de 2015

Para Além das Montanhas


   Através de um monólogo pungente, sofredor, carregado de amor, um imenso amor por um irmão doente, por onde pulsam as recordações, 'Para Além das Montanhas' transporta-nos para uma terra no nordeste de Portugal, para outros tempos, para um lugar onde desliza um rio, para um milheiral, para uma casa velha, pobre, para trabalhos duros, para uma vida, afinal, difícil de gente simples, para dois irmãos inseparáveis, para uma avó sábia e protectora.
   Um romance rico em palavras e expressões típicas, em descrições que me fizeram recordar a infância, a aldeia, para aquele tempo em que, mesmo na dificuldade, fui feliz.
   O autor, Ricardo, é filho da minha amiga Lídia. Obrigada ao Ricardo pela dedicatória e à Lídia pela generosa oferta.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Quarenta e dois

   Sentou-se numa fila de três cadeiras, na ponta esquerda e retirou o livro da mala. O auditório estava, ainda, quase vazio, apesar de faltarem poucos minutos para a hora marcada. Minutos atrás, cumprimentara um director de serviços, uma assessora e umas quantas funcionárias das relações públicas. Relações públicas não seriam as palavras apropriadas, pensou, no instante em que mal recebera sorrisos das funcionárias. Não seriam antipáticas, mas afastaram-se dela momentos depois. Segundos para receberem os convidados, de sorrisos plásticos e dedos frios. Frios mas de unhas revestidas a verniz de gel, como está na moda. Cronometrariam os segundos consoante os convidados? A sua recepção não durara mais do que cinco.
   Sentada, virou a cabeça para a direita e reparou nas unhas. A funcionária voltava a receber os convidados, mas perdia mais tempo com aquele grupo. Seria dela. Olhou para as suas próprias unhas, curtas, uma cutícula inflamada, a do indicador esquerdo. Roera uma pele. Pensou numa colega de um curso que fizera meses antes. «Seria incapaz de usar dedos carecas.», dissera ela, num almoço qualquer. «Dedos carecas e andar no rés-do-chão.» A colega usava sapatos de salto alto e era tão alta como ela. Mas falava muito mais do que ela, enquanto olhava os colegas lá do alto.
   Ouvia pedaços da conversa do grupo. Era inevitável, estando tão próximo dela. Falava-se de Atlanta. Uma convidada conversava com o Presidente do instituto, sabia quem ele era, claro, embora nunca o tivesse cumprimentado. Que tinha muita pena em faltar ao congresso que o instituto estava a organizar, mas o de Atlanta realizava-se exactamente, mas exactamente nos mesmos dias que o nosso. E já se tinha inscrito. «Claro que o nosso tem uma qualidade superior, basta ver o elenco.», ouviu. Elenco, pensou. Parecia que estava a falar da telenovela das nove. Ergueu a cabeça do livro aberto nos joelhos e viu a convidada de costas. Calças de ganga, marca igual à que vestia, um número maior do que o seu, sem dúvida. Um número 42 a caminho de Atlanta. Qual seria a conversão da roupa nos Estados Unidos da América?

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Festa da Amizade

   Domingo, 12h (mais ou menos). Tinha combinado com o Francisco que, da próxima vez que o Carlos (Limite do Oceano) regressasse a Lisboa, eu almoçaria com eles e dávamos 'uma volta' pela cidade. Bem, digamos que 'a volta' de ontem demorou umas cinco horas e calcorreámos uns 10 km, tendo começado na Casa dos Bicos e terminado em Sete Rios.
   Da Casa dos Bicos, subimos pela Rua da Madalena até ao Poço do Borratém, passámos na rua onde morei alguns anos, no início dos anos '90 (já lá não ia há muitos anos, as drogarias já não existem, nem os armazéns de atoalhados, muitas portas fechadas e vandalizadas, o armazém ruiu, só ficou a fachada, há mini-cafés, alguns prédios antigos restaurados, menos mal, apontei a casa onde morei, ali, 2.º andar (restaurada, agora, no 'meu tempo' era muito velha), ela chamava-se D. Alice, ele, Sr. Fernando, naquela altura tinham quase idade para serem meus avós, ele era reformado do Porto de Lisboa, ela, doméstica. Nunca mais soube deles. Há alguns anos, encontrei o Sr. Fernando na rua e disse-me que tinha ganho a lotaria, 50.000 €, e ajudou a filha a amortizar parte do empréstimo da casa (vivia na linha de Sintra, chamava-se Fernanda, a filha, e trabalhava, naquele tempo, na Sorefame). Confesso que esta parte da conversa ficou por dizer ontem. Fica o registo. Depois deste quarto, arrendei uma casa, também um segundo andar, pequeníssimo, na Mouraria, por coincidência, relativamente perto da antiga casa, no outro lado da Praça do Martim Moniz, junto à Rua do Benformoso. A Vila onde morei continua em mau estado, mas os prédios ao lado receberam obras e a calçada está mais bonita. O cheiro a especiarias também é mais notório agora que há vinte anos. Continuámos a subir, devagar em dia de calor, e parámos, finalmente, no Largo da Graça. A fome já apertava, estávamos cansados e cheios de sede. Procurámos um restaurante barato para almoçar e encontrámos um café que servia refeições, bem em conta. Sopa de nabiças, deliciosa, filetes com arroz de feijão, escalopes, alheira, batatas fritas caseiras, redondas, muito bem servido, água com fartura e a cereja no topo do bolo foi uma dose extra-gigante, 'é para acabar', de molotof. Quando regressei à mesa, depois da refeição, estava um prato com mais ou menos meio molotof. Repartido a régua e esquadro - pronto, a olho, mas tentou-se :p - por três - o Francisco comeu do prato e eu ajudei a rapar o caramelo :D . Chegada a conta, foi cobrada apenas uma dose de molotof, a tal 'é para acabar'. Claro que deixámos uma gorjeta, chegou para pagar as duas doses de sobremesa, saímos e seguimos viagem. Ao fundo, à esquerda, visitámos o Miradouro da Senhora do Monte, regressámos ao largo, fomos até à Vila Berta, depois, à Vila Souza e parámos no Miradouro da Graça. Descemos até ao Panteão, mas não entrámos, e acabámos esta volta na Estação de Santa Apolónia. Engraçado, não há muitos dias tinha passado por lá :p
   Como ainda faltava algum tempo para o Carlos apanhar o expresso em Sete Rios, resolvemos ir até ao jardim da Gulbenkian. Metro linha azul e uns minutos depois o Francisco colocou o seu francês à prova - e muito bem - com uns turistas no metro de S. Sebastião. Iam para a Gulbenkian. Passámos o CAM e embrenhámo-nos no belo jardim. Terminámos a passeata em beleza com gelados da gelataria do Centro Interpretativo, alfarroba, amendoim, oreo, conversa e fotos, muitas, para mais tarde recordar.
   No último dia do Avante (para o ano há mais, fui lá sexta e sábado), preferi passá-lo com estes meus amigos muito especiais. Conheço o Francisco há mais de dois anos, o Carlos há poucas semanas, são bons rapazes, e a eles dedico este vídeo (a versão curta do documentário 'Kora' passou no Cineavante - porque a Festa é mais que concertos e eu adorei a música do kora e só me apetece ouvi-la sem parar).



Trailer 1 Documentário Kora from Jorge Carvalho on Vimeo.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Com um brilhozinho nos olhos

   A Lídia e eu tínhamos combinado um almoço com o Miguel há uns tempos. Convidei o Mark, que não conhecia a Lídia, e ontem, finalmente, almoçámos os quatro. O Miguel e a Lídia não se viam há bastante tempo e reuniram-se mais cedo.
   Eu fui ter com eles à hora do almoço. Tínhamos combinado mais ou menos um ponto de encontro, na Rua Marquês da Fronteira, no Bairro Azul. Mal eu subi as escadas do metro de S. Sebastião, avistei o Mark e, segundos depois, ouvi chamar por mim. Era a Lídia e o Miguel, que estavam mais atrás.
   A conversa prolongou-se muito depois da hora do almoço. Fomos os últimos a sair da sala do restaurante. Não tínhamos planos, ou melhor, os planos que havia envolvia estarmos ainda juntos até à hora de o Miguel ir apanhar o comboio de regresso a casa.
   A felicidade é um dia como o de ontem.

   E com um brilhozinho nos olhos
   Guardei um amigo
   Que é coisa que vale milhões.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

O Meu Tio - Verão com Jacques Tati

 

   Um Nimas muito bem composto ontem, na sessão das 19 h de 'O Meu Tio'. Como tinha sido a sessão anterior e, previa-se pelo público à entrada, sala igualmente quase cheia na da noite. Segunda-feira é dia mais barato e Tati bem merece este ciclo que a Medeia proporciona.
   Cenas deliciosas, um Monsieur Hulot grandioso, e não falo apenas da altura de Jacques Tati. Muitas risadas na sala e muitas crianças, neste fim de férias grandes.
   Verão com Jacques Tati a não perder. Se não todos os filmes, pelo menos à segunda-feira.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Taci e riposa: qui si spegne il canto

   A Lídia e eu almoçámos no início do mês, numa quarta-feira, num pequeno restaurante no Bairro Azul; trocámos livros, trocámos novidades, a Lídia, a sua viagem à Grécia, eu, as minhas férias.
   Já na passada terça-feira, disse, praticamente, 'Olá e adeus' a um blogger em Sete Rios, na companhia do Francisco. Depois, caminhámos, nesse fim de tarde ventoso, até pararmos na mesma rua onde tinha almoçado raia com arroz de pimentos com a Lídia. Eu e o Francisco partilhámos uma tosta de queijo e um chá de frutos vermelhos e muita conversa. Regressámos a Sete Rios quase pelo mesmo caminho passavam poucos minutos das oito da noite. 
   Já não estava com estes amigos há uns tempos. Gosto destes pequenos grandes encontros, espaçados assim no tempo, com comida caseira e boa conversa, sem pressas.
   E agora? Bem, estou quase, quase a terminar o livro que a Lídia me emprestou, 'O Pintor de Batalhas', de Arturo Pérez-Reverte. Um livro poderoso, sobre um ex-fotógrafo de guerra que decide a pintar um mural circular sobre o horror, a maldade, o caos, tendo por fonte as guerras por onde passou em trinta anos de actividade e a perda da mulher que amava, Olvido. Olvido é uma grande personagem; Pérez-Reverte desenha sempre mulheres fortes, destemidas, aventureiras, grandiosas e além da sua época. Estou a lembrar-me, por exemplo, de Lolita Palma, do extraordinário 'O Assédio', que se desenrola em 1811.
   Esta Olvido, por seu lado, é sombria, só o seu nome diz tudo. E foi Olvido, a dada altura, que referiu a Faulques, a personagem deste romance, o pintor de batalhas, este verso: 'Taci e riposa: qui se spegne il canto'. Cala-te e repousa: aqui se acaba o canto, assim está no romance.
  Este livro bebe em muitas fontes, desde pinturas de batalhas ao longo dos séculos, a poemas como este, de Andrea de Chirico/Alberto Savìnio) (no romance, é mencionado como Alberto de Chirico); é uma pequena maravilha.
   Fui pesquisar. Não conhecia. A obra chama-se 'Tragedia dell'infanzia'; o primeiro verso referido por Olvido faz parte deste poema que encontrei na p. 21 da tese de doutoramento «Tra Morte e verbo: la metafora saviniana della morte dalla Poesia al Teatro», de Leili Maria Kalamian (em pdf), pesquisada na internet (consegui guardar).

Taci e riposa Qui si spegne il canto
Della tua vita Dell'antico pianto
Torna più grave l'eco affievolita
In questa sosta in cui l'incanto
Muore Cedi alla serena
Pace la fronte in cui si smaga
La voce di sirena.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Férias


   Vou fazer como a Batá. Continuação de bom trabalho/boas férias (riscar o que não interessa).

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Taxi


   Segunda semana consecutiva no cinema, ontem, ao fim da tarde, dia do espectador nos UCI, sala bastante composta.
   Proíbe-se um realizador de exercer a sua profissão, mas o realizador, engenhosamente, filma clandestinamente; nasce um manifesto de liberdade, de crítica ao regime, um grito rebelde contra a intolerância do Irão. Um filme político, corajoso, divertido, vencedor do Urso de Ouro em Berlim.
   As cenas divertidas e caricatas são substituídas, à medida que o filme avança, por episódios sérios, intensos, tendo o sexo feminino (a sobrinha, a mulher das rosas) um papel preponderante.
   

    Omitindo os créditos finais e eventuais represálias aos actores amadores,  'Taxi' é um filme a não perder.
   Fica a crítica do jornal online Observador (link aqui).

segunda-feira, 13 de julho de 2015

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Reading

   Há uns dias, fui à biblioteca devolver o Paul e a Flannery e trouxe o Jo para fazer companhia ao Edmund e à sua famosa trilogia autobiográfica (estou a ler ao mesmo tempo 'A Vida Privada de Um Rapaz' e 'Um Belo Quarto Vazio', que termina com 'Sinfonia A Despedida'. 
   Depois destes livros, vou esconder o cartão da biblioteca. Quero colocar em dia a minha pilha até ao fim do ano.

(título roubado descaradamente ao Eolo).

quarta-feira, 8 de julho de 2015

terça-feira, 7 de julho de 2015

O Céu Que Nos Protege


   Escrito em 1949 e publicado em 1989 pela Assírio & Alvim, narra em três partes a viagem de Port, Kit, casados, e Tunner, um amigo, pelo vasto e misterioso deserto do Sahara: Livro Primeiro: 'Chá no Sahara'; Livro Segundo: 'A Aresta Aguda da Terra' e Livro Terceiro: 'O Céu'. Os primeiros são viajantes, o segundo, turista, essa é a diferença.
   Até ler este romance, nunca me tinha deparado com uma descrição tão dolorosa sobre a morte, a morte mais dilacerante e solitária de um ser humano: «Sinto-me muito doente. Sinto-me horrível. Não há razão para medos, mas tenho medo. Por vezes não me encontro aqui, e não gosto disso. Porque estou tão longe e sozinho. Ninguém consegue lá chegar. É demasiado longe. E aí estou só. » (...) «Tão só que nem me ocorre a ideia de estar só »...
   Incapaz de lidar com essa morte, ela nega a realidade e refugia-se no deserto. A relação com os dois árabes, a submissão de uma ocidental num mundo masculino, é a única forma de sobrevivência. A narrativa de Bowles consegue contornar o abuso do acto. Não há adjectivos violentos, mas uma entrega em busca de protecção. E disfarçada de um jovem, a relação do árabe com esse 'aparente' homem torna-se normal aos olhos das outras mulheres.
   As marcas ficam para sempre, o terror da perda, a loucura, solidão dali para a frente e um refúgio naquele mundo tão diferente do seu.
   Bernardo Bertolucci adaptou este romance em 1990. Deixo três vídeos de 'Um Chá no Deserto': o início do filme, a maravilhosa banda sonora e parte do fim, onde aparece o autor do livro, Paul Bowles. O monólogo está descrito na p. 197 do romance, logo após a tragédia:
   'Esquecera aquela tarde de Agosto, há pouco mais de um ano, quando se tinham sentado sozinhos sobre a relva debaixo dos bordos, vendo o temporal a varrer o vale do rio e a subir na direcção deles, e então o tema fora a morte. E Port dissera: «A morte vem sempre a caminho mas o facto de não sabermos quando chegará parece afastar a natureza finita da vida. É essa terrível precisão que odiamos tanto. Mas, como não sabemos, pensamos que a vida é um poço inesgotável. No entanto, tudo acontece apenas um certo número de vezes, na verdade um número muito reduzido. Quantas vezes mais recordarás uma certa tarde da tua infância, uma tarde que é, tão profundamente, uma parte do teu ser que nem podes conceber a tua vida sem ela? Talvez mais quatro ou cinco vezes. Talvez nem tanto. Quantas vezes mais contemplarás a lua cheia a erguer-se? talvez vinte. E, no entanto, tudo parece ilimitado.»




segunda-feira, 6 de julho de 2015

Mais um fim-de-semana

   Tive outra noite de insónia. Não sei se é da idade, mas durmo cada vez menos. Deitei-me depois da meia-noite e às quatro da madrugada acordei. Dei umas voltas na cama, puxei a colcha para cima e tentei adormecer de novo. Lá consegui. Acordei antes das seis e levantei-me meio a dormir. Não podia repetir a brincadeira da semana passada, embora o desejasse. Não convém abusar, não só porque ficaria com menos dias de férias, mas colocaria à prova a paciência da chefe, já de si uma santa. Além disso, há trabalho para finalizar.
   Por ter faltado na segunda, no sábado acordei à hora habitual, sem despertador. Pensei que fosse sexta-feira (o que eu agora me rio a pensar nisto) e levantei-me, embora com aquela sensação de ‘será que é mesmo sexta?’ Não é sábado?’ Rituais matinais fora do quarto até que parei na cozinha e sim, confirmei que era mesmo sábado. Ainda pensei em aproveitar, já que estava levantada, em ir fazer a habitual caminhada de 5 quilómetros (ir ao Seixal e regressar a casa), mas deixei-me de tais pensamentos e regressei à cama. Acordei a meio da manhã. Desde que reportei aqui o episódio musical do vizinho do primeiro andar que ele tem estado silencioso. Almocei e fui a Lisboa, para a visita da tarde. Tirando este compromisso, não faço grande coisa ao sábado. Preciso de um dia para descansar. Infelizmente, como a casa não se limpa sozinha, é ao domingo que meto mãos à obra. Normalmente, também é neste dia que uma pessoa pensa no que não deve, entre a lavadela do chão e a limpeza do pó. E procurei conforto na comida, despachando quase um pacote de bolachas.
   Assim, depois de me estafar nas limpezas, culpada por ter quase estragado a dieta, tomei banho, agarrei nuns corsários, numa camisola, nos ténis, no mp3 e fui arejar a pinha. Fiz os 5 quilómetros da praxe e regressei a casa ao início da noite.
   Foi um dos raros dias que não li. Estava cansada, mas sem sono. Sentei-me no sofá, com uma caneca de chá de ervas, e vi o filme na Fox Life, 'Enough Said' ('Basta de Conversa'), com um sensível e simpático James Gandolfini e a sempre divertida Julia-Louis Dreyfus.
   Gandolfini faleceu em Junho de 2013. Deixo aqui o trailer para recordar como ele era um excelente actor. O filme também teve boas críticas.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Discworld XV


   Estive a procurar aqui no blogue a última entrada sobre a Batá Maria. Foi em Junho do ano passado. Incrível como um ano passou tão rápido.
   Esta fotografia tem umas duas semanas. A Batá costuma andar pela casa toda (excepto no meu quarto, que está sempre fechado) e a foto foi tirada no quarto-de-banho.
   Mas a minha menina tem estado murcha. Agora, pouco come, pouco se mexe, só interagiu mais quando lhe tirei a carapaça velha. Teve de ser. Ela roçava-se cheia de cócegas, já tinha a nova toda por baixo e bastou levantar as lâminas com cuidado para saltarem.
   Ontem à noite, finalmente, pôs dois ovos. Eu sabia que estava na altura, estava enjoada, pobre Batá, cheia de ovos. Mas ainda não saíram todos. No ano passado, conseguiu pôr uma dúzia deles, mais coisa menos coisa.
   Esta madrugada, pensei que estivessem mais uns quantos na água, mas não. Tem quase vinte anos e julgo que lhe custa cada vez mais esta situação. Vamos ver se logo à noite, quando eu chegar a casa, tenha conseguido botar para fora uma meia dúzia de ovos e recomece a comer. Estou preocupada por não comer e por não se mexer muito. Eu sei. Muita paz e sossego nestas situações é o que se quer, mas uma 'mãe' preocupa-se. Sou super-protectora para com os meus bichos.
   Ah, repararam nas garras dela? A última vez que a levei ao veterinário para cortar as unhas foi há uns três anos. Depois de passar este mal-estar, terá de ir à patacure sem falta.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Nunca haverá outra vez

   "Prosseguiu mais devagar. Trouxera alguns figos, que tirou da algibeira e devorou. Ao completar a curva do rio, deu de caras com o sol no poente, ao olhar para um pequeno vale entre duas colinas suavemente ascendentes e nuas. Na extremidade havia uma colina mais íngreme, avermelhada e num dos lados uma abertura escura. Como gostava de cavernas esteve tentado a lá ir. Mas as distâncias eram enganadoras, e não devia faltar muito para anoitecer; além disso não se sentia com energia suficiente. «Amanhã venho mais cedo e vou até lá», disse para consigo. Ficou a contemplar melancolicamente o vale, a língua à procura das sementes de figo entre os dentes, com as pequenas e tenazes moscas sempre a agarrarem-se à cara. Ocorreu-lhe que um passeio pelo campo era uma espécie de resumo da própria passagem pela vida. Nunca se tem tempo para saborear os pormenores; diz-se: outro dia, mas sempre com a convicção oculta de que cada dia é único e final, de que nunca haverá regresso, de que nunca haverá outra vez."

Paul Bowles, O Céu que nos Protege, pp. 111-112.

terça-feira, 30 de junho de 2015

Flannery O'Connor - Antologia Indispensável


   Clara Pinto Correia traduziu e escreveu a introdução, na qual conta como descobriu esta autora quando estava nos EUA a tirar o doutoramento. E ficou pasmada e adorou. Adorou as histórias estranhas, esquisitas, perturbadoras, que descrevem a complexidade das relações humanas.
   Nesta selecção de seis contos, Flannery O'Connor mostra-nos as pessoas que viviam no Sul dos Estados Unidos da América na primeira metade do século passado, perversas, loucas, desdenhosas, racistas, inconstantes, arrogantes, sob uma aparente normalidade. Finais felizes? Só nos contos de fadas. Não há aqui poética nem doçura. A prosa de Mary Flannery O'Connor é dura, cruel, violenta.
   Os contos desta antologia são: 'Os Homens Bons não São Fáceis de Encontrar', 'A Gente Sã do Campo', 'As Costas de Parker', 'O Festival de Partridge', 'O Preto Artificial' e o 'Juízo Final'.
   Abundam, infelizmente, as gralhas nesta publicação da Dom Quixote de 1996. Parece que houve uma grande euforia em trazer as histórias à estampa, em detrimento de uma edição cuidadosa. Apesar de tudo, gostei, pelo que classifiquei com 4* no Goodreads.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Uma pausa com Purcell

   Tirei um dia de férias. Não estava planeado, mas às vezes faço isto. Acordei à hora do costume, seis menos dez, os gatos já estavam a brincar. Existe uma velha cadeira de rodinhas no quarto deles, onde a Dalila dorme. Quando não dorme, entretém-se a empurrá-la de um lado para o outro. Custou-me a adormecer. O pavilhão gimnodesportivo tinha o ar-condicionado no máximo, um barulho infernal. Costumo dormir com a janela um pouco aberta e tive de a fechar. Quarto abafado mais insónia mais sem posição para descansar igual a acordar cedo sem vontade de ir trabalhar. Desliguei o despertador, virei-me para o outro lado e tentei adormecer de novo. Não consegui, embora estivesse cansada. Levantei-me, quarto-de-banho, gatos, cozinha, tartaruga, tudo OK. Era cedo para enviar um SMS à chefe. Voltei para o quarto e lá consegui dormir mais um pouco. Por volta das nove, acordei, SMS, regressei aos braços de Morfeu e despertei às onze e meia com uma sunrise party do vizinho do primeiro frente. Que, atenção, ainda não desligou a música, embora esteja só um pouquinho menos alta. É costume. É novo no prédio e, tirando este aspecto, não é mau vizinho. Foi ele que agarrou no César quando fugiu de casa, há umas semanas, e me disse que tinha dois gatos, ao que eu respondi que tinha quatro. Riu-se e foi à sua vida.
   Por vezes, a música fica a tocar até à noite, nove, nove e meia. Não faz isso muitas vezes e ninguém lhe diz nada. Afinal, do primeiro para o terceiro andar vivem umas cinco famílias (o apartamento por baixo de mim está vago há mais de dez anos e eu vivo no último piso). Não sou eu que lhe vou bater à porta. Sei que exagero. Gosto de silêncio, mas já que tenho de gramar a sua música, se tivesse coragem, bateria à sua porta (com o César ao colo para quebrar o gelo) e emprestar-lhe-ia um dos meus CDs. Diria qualquer coisa como 'O César gosta de Purcell. Não baixe o volume, que se ouve bem na minha sala.'

quarta-feira, 24 de junho de 2015

A insustentável delicadeza

   Enfiar minas 0,5 mm numa lapiseira é como um elefante atravessar um lago: delicadamente, de nenúfar em nenúfar.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

As Vozes do Rio Pamano


   A Tinta da China publicou em 2008 (Espanha, 2004), o extraordinário 'As Vozes do Rio Pamano', do escritor catalão Jaume Cabré. Do mesmo autor, já tinha lido 'Sua Senhoria', publicado pela mesma editora e escrito em 1991. Ambos os romances foram aplaudidos pela crítica estrangeira. Por cá, tiveram a tradução de Jorge Fallorca, falecido no ano passado.
   'As Vozes do Rio Pamano' é uma poderosíssima saga de 653 páginas (e merece cada palavra), que se centra na aldeia de Torena. Aqui, convivem falangistas e inimigos (maquis), que os combatem na sombra, e, entre ódio, vingança, poder, corrupção, religião e um imenso amor, Caubré, num estilo muito próprio, apresenta uma narrativa irreverente, com humor, mas também dorida e apaixonada, misturando pensamentos em discurso directo com diálogos brutos, poéticos, sofridos e amorosos.
   Cabré utiliza uma escrita absorvente. Avança e recua no tempo em simultâneo, mistura personagens, situações, pensamentos e vidas, tudo fazendo sentido e as 653 páginas são devoradas num ápice. 

   Recomendado vivamente a quem tiver coragem para atacar este colosso.

domingo, 21 de junho de 2015

Opção Jesus

   Estava a terminar o almoço e assistia ao jornal da tarde da rtp1. Passou uma notícia sobre um campeonato de matraquilhos e o comentador disse: 'É a chamada opção Jesus, ou é vermelho ou é verde'.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Ciranda de Pedra


   Adultério, uma filha fora do casamento, loucura, morte, suicídio, mais adultério, aventuras sexuais, religião, homossexualidade, impotência, amor, ódio.
   Um tumulto, esta coisa chamada vida. Custa crescer e perder a inocência.
   "- Você pensa demais, querida. Ande despreocupadamente e verá que não há nem passo bom nem ruim, é ir andando, tocando para a frente. para isso Ele nos deu pernas ágeis."
   Perturbador.
   O livro foi publicado em 1954.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Pássaros e gatos

   A minha vizinha do lado tem um canário. Ouço-o a cantar à medida que subo as escadas até ao nosso piso. Uma vez, tomei conta de um canário. Os donos tinham ido de férias. O chilrear provocava-me imensas dores de cabeça. Nunca mais me ofereci. Não acho piada a pássaros como animais de estimação. Contrariamente à minha mãe. Gostava de todo o tipo de bichos, bem, quase todos. Nunca tivemos hamsters nem peixes quando eu era miúda. Para além dos cães e dos gatos, a minha mãe tinha periquitos. Conseguiu trazer um periquito gigante de Angola. Chamava-se Pinóquio. Tão grande que eu pensava que era um papagaio. Não era gigante, eu é que era pequena. Um dia, abriu a gaiola e voou para o pinhal. Andámos uma tarde à procura dele, a chamar ‘Pinóquio, Pinóquio!’, de cabeça para o ar. Nunca mais o vimos. A minha mãe ficou desconsolada. Lovebirds. Já eu adulta, existia em sua casa um grande macho azul, pomposo, chamado Romeu, que viveu bastante tempo. As constantes Julietas viviam poucos meses. Ele bicava-as no pescoço, possessivo. Morreu solitário, de velhice. A minha mãe chegou a fazer criação e deu-me um casal de periquitos quando comprei a primeira casa, em 2001. Tive-os pouco tempo. Recambiei-os para casa de uma tia, numa ocasião em que manifestou interesse por eles. Já tinha a minha primeira geração de gatos, o Pitágoras, a Bia, o Farrusco e a Joana. Sorte dos pássaros que os gatos nunca olharam duas vezes para eles. Contrariamente ao Texugo, o gato selvagem da minha avó. O periquito dela não durou muito tempo. Um dia, entrei na sala onde estava a gaiola pendurada e a gaiola já não estava pendurada, mas no chão, a porta aberta e umas penas esverdeadas no chão. Foi tudo o que sobrou. Eu tinha medo do Texugo. Tinha um pêlo enorme, branco e negro e só obedecia ao meu tio. Dava-lhe carne e dormia com ele na cama. De resto, passava os dias fora de casa. Na aldeia, não há muitos anos, vi um gato muito parecido com ele, um tataraneto, provavelmente. Não me arrisquei a fazer-lhe festas. Se saísse ao tataravô, teria ficado com quatro arranhões no braço. A minha avó nunca mais teve outro gato. Mas recebia os da minha mãe nas férias, o Mikita, a Boneca e a Nina. Tivemos vários Mikitas. Na próxima, e última geração de gatos, terei um gato com este nome. Agora, bastam-me a Alice, o César, a Dalila e a Elvira.

Inútil


Lygia Fagundes Telles, Ciranda de Pedra (1954),  ebook.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Portugal 2055

  

   Tomei conhecimento hoje do livro 'Portugal 2055 - Uma BD sobre alterações climáticas no nosso país' através do blogue jackolta, do Rui Alex, um dos ilustradores que colaboram neste magnífico trabalho.
   Deixo-vos o link do catálogo virtual (aqui) onde podem ler a BD - eu já o fiz e garanto-vos que é excelente - e se estiverem por Lisboa no próximo sábado à tarde, aproveitem e vão ao Museu Nacional de História Natural e da Ciência, na Rua da Politécnica, junto ao Príncipe Real. A apresentação do livro será às 16:30.
   Como refere o Professor Filipe Duarte Santos, no prefácio da BD: «"Portugal 2055" é um magnífico exemplo destas novas abordagens em que a arte se torna aliada da ciência para nos esclarecer de forma divertida. (...) Uma excelente contribuição acessível a todos, para compreender melhor o que são as alterações climáticas, quais os seus principais impactos em Portugal e como as combater.»

segunda-feira, 15 de junho de 2015

A Sentinela


   Richard Zimler é um bom escritor. Gostei de 'O Último Cabalista de Lisboa', 'A Sétima Porta', 'Os Anagramas de Varsóvia' e a incursão ao mundo de uma adolescente portuguesa nos EUA em 'A Ilha Teresa', mas não consegui entrosar-me com este seu último livro, um policial. A acção desenrola-se em Lisboa, em 2012, a personagem principal é Henrique - Hank - Monroe, inspector-chefe da Polícia Judiciária. A mistura das duas histórias, o homicídio de um construtor civil rico e as suas amizades com personalidades públicas ligadas à política ou altos quadros da administração pública, e o passado traumático de Hank, pareceu-me demasiado confusa, principalmente no que diz respeito à infância violenta e perturbadora do protagonista. Apesar da escrita escorreita, das passagens comovedoras entre Hank, os filhos e o irmão Ernie, apesar da pesquisa do modo de actuação da PJ e do comportamento de uma pessoa com distúrbios de personalidade múltipla, também não ajudou estar contada na primeira pessoa. Talvez a história resulte melhor escrita em inglês, como o é originalmente, e não tanto em português, ou, então, se se passasse algures numa cidade americana, de onde o autor é originário, e não em Lisboa e no Alentejo. Mas, se assim fosse, não teria sido possível criticar o governo, os cortes nos salários, a corrupção, a bancarrota, o tráfico de influências, bem como a sordidez, a podridão e a decadência moral da alta sociedade portuguesa.
   Junta-se o facto de ter encontrado expressões incorrectamente traduzidas. Parece-me que alguém que é criado no Alentejo não diz 'nove menos um quarto da noite' nem 'quarto-de-banho'. Se uma alfacinha dissesse 'tenho um foguete na meia', não seria estranho?
   Na verdade, confesso, eu prefiro os policiais clássicos. Com anti-heróis meditabundos e solitários.

domingo, 14 de junho de 2015

Chuva de Junho

   Se amanhã chover tanto quanto hoje, será que irei usar os meus botins pela primeira vez este ano?

quinta-feira, 11 de junho de 2015

O Memorial


   'O Memorial, Retrato de uma Família', foi publicado em 1932 e editado em Portugal em 1990 pelas Edições do Brasil. Uma edição cheia de falhas, a começar por uma tradução com alguns erros e terminado numa revisão péssima.
   Christopher Isherwood ainda não tinha 30 anos quando escreveu este seu segundo romance, tendo aproveitado já a sua experiência de vida em Berlim para a incluir na personagem Edward.
   Aqui se caracteriza uma época, neste caso a Inglaterra dos anos 1920, salientando-se a complexidade das personagens: a romântica viúva Lily, agarrada ao passado, cujo marido Richard morreu na Primeira Guerra Mundial, o filho Eric, a cunhada Mary, de passado sombrio, e os seus dois filhos, Maurice e Anne, e o amigo de Richard, Edward Blake, rico, homossexual, que sobreviveu à guerra e que vive, nos últimos tempos, em Berlim com um jovem.
   Não é um romance de fácil leitura. Pelo contrário. As páginas iniciais são um pouco confusas, dificultadas pela má revisão, e a acção só se conclui quase no fim do livro, após o regresso a esse momento (a história volta ao passado, de 1928 para 1920, 1925 e, por fim, 1929).
   E, sensivelmente a meio do livro, a escrita torna-se extraordinária, no capítulo dedicado a Eric, então ainda um jovem adolescente, com um fascínio pela família da sua tia e primos, os Scrivens, tão diferentes da sua mãe e da Mansão onde vivem com o avô, o fidalgo.

   Apesar dos entraves, é uma grande história e mereceu 4* no Goodreads. Se eu fosse dona de uma editora, agarraria neste livro, faria uma nova tradução e uma revisão primorosa e daria a este romance o tratamento merecido.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Sangue do Meu Sangue


   O segundo livro de MC que leio. O primeiro foi, não há muito tempo, 'Uma Casa no Fim do Mundo'. Gostei muito, ainda mais do que o primeiro; uma história brilhantemente contada, de uma extrema sensibilidade, porque não há famílias perfeitas, não há harmonia, há filhos, tão diferentes uns dos outros, a perfeita Susan, a sonhadora Zoe, o rebelde Billy. E os pais, o grego Constantine e Mary, de pais italianos, e décadas depois, os dois netos, Ben e Jamal. Três gerações, sete personagens. E à medida que crescem, aprendem a lidar uns com os outros, a amar-se, apesar dos conflitos, dos preconceitos, das desilusões. Porque não é fácil encontrar o seu lugar e ser feliz.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Lugares e Palavras de Lisboa

 

   Participei num passatempo no blogue Dona-Redonda e ganhei este livro. Ainda só passei uma vista de olhos, mas reúne contos de vários autores, para além de um dicionário dos pregões de Lisboa.
   A Redonda escreveu uma das histórias, bem apropriada para o Santo António, que se aproxima.
   Gosto tanto de receber livros, mas nunca tinha ganho um desta maneira. :)

sábado, 6 de junho de 2015

Thinking out of the box

   Esta noite, sonhei com um programa de humor.
   Um dos três humoristas é o Jeremy Clarkson, ou alguém parecido com ele (sim, sou fã do Top Gear). Estão no palco, na verdade, não é um palco, pois supõe um espaço erguido. Estão, apenas, à frente do público sentado, junto a uma parede. O Jeremy e os outros dois humoristas estão em pé em cima de um caixote de papelão aberto e ele começa a caminhar em frente, não parando de falar, e a ponta da caixa vai crescendo, crescendo, à medida que ele dá os passos. De repente, surge um bebé vestido com um babygrow claro a rastejar à frente. A cena continua: o bebé gatinha, a ponta do caixote acompanha-o e o Jeremy segue-os, com um microfone numa mão. Pergunta qualquer coisa a um espectador e este responde em inglês (!):
   - That's one reason. I hope not!
   A sala desata a rir e são atirados bonecos parecidos com o bebé para o palco.
   Acordei às 6:30, levantei-me e fui à cozinha buscar um caderno e apontei o sonho.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Escolhas futuras

   "Ao que parece o país em que vivo, este pequeno rectângulo à beira mar plantado, está de pernas para o ar. Os escândalos fazem fila indiana, como que a quererem ser notícia de capa de jornal ou abertura de noticiário televisivo em horário nobre. Verdadeiro parece ser o facto de o tema base para tudo estar já tão gasto. Infelizmente não podemos viver sem aquela bicha solitária que no final das contas de solitária nada parece ser.
   A conclusão final é que é a mais desconcertante: continuemos ao som dos passos do coelho ou com aquele antónio que dê à costa, a verdade é que será apenas mais do mesmo. E não existe porta mágica que nos salve, pois o povo já não presta cavaco a soluções milagrosas.
   Não existem ruborizados avôs suficientes nem sequer blocos experientes que construam um país melhor. Os cérebros ou estão enjaulados ou fogem como o Diabo à cruz, dando realmente a entender que afinal a massa cinzenta que devia encher aquelas cavidades cranianas não passa de massa da verde, que trama o pobre mas que arreganha os dentes aos afortunados.
   Valha-nos o calor que se entremeia com o vento e laivos de frio. Porque o calor aquece o corpo, enche as esplanadas de ávidos sedentos de água de cevada gaseificada e de chupadores de lesmas com casa, porém potencia o efeito contrário que é o de provocar o esquecimento, cobrindo com um véu as decisões futuras e os escândalos mais dispendiosos, já que os outros são alimentados pelo mesmo calor e escarrapachados nas revistas em que qualquer tuga que se preze, lá investe os parcos euros que ainda sobram.
   Passe a onda de calor e volte-se à contestação, pois o futuro a Deus pertence e o que é de Deus nem sempre está ao alcance de qualquer um."

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Reviver o Passado em Brideshead

   O sub-título deste livro é 'As memórias sagradas e profanas do Capitão Charles Ryder' e foi publicado em 1945 por Evelyn Waugh.
   'Reviver o Passado em Brideshead' conta a história da amizade entre Charles e o peculiar Sebastian, em Oxford, nos inícios dos anos 1920, sendo Charles agnóstico e Sebastin oriundo de uma família católica. Influenciado pela sua mãe, profundamente católica, aos poucos Sebastian vai perdendo o seu comportamento infantil e afunda a sua tristeza num constante estado ébrio, enquanto Charles encontra a sua vocação como pintor, desistindo de Oxford e indo estudar para Paris.
   O tempo é de mudanças; dos exuberantes anos pós-Primeira Guerra Mundial, com bailes de debutantes, festas, alegria, sucedem-se greves e movimentos sociais. Os anos passam. Charles é um reconhecido artista, casado, e a sua antiga amizade com a família é retomada quando encontra Julia, a irmã de Sebastian, que era tão parecida com ele, numa viagem de barco de regresso a Inglaterra. Brideshead encanta, novamente, Charles, mas, tal como acontecera anteriormente entre ele e Sebastian, a religião católica coloca entraves a esta nova relação.
   Sendo um excelente romance - e de 1945, logo a seguir ao fim da II Guerra Mundial -, a revisão da tradução para português deixa muito a desejar. A edição que tenho é a mais recente, com a capa do filme de 2008; a Relógio D'Água publicou-o pela primeira vez em 2002. Nesta reedição, a editora deveria ter realizado uma revisão mais profunda: deixou passar erros como 'coxa' em vez de '' (quando Sebastian parte um dedo do pé - e não da coxa), ou 'encontrar-mo-nos', para além de algumas gralhas que empobrecem o livro.
   Em 1981, a Granada Television produziu a notável mini-série 'Reviver o Passado em Brideshead', que passou em Portugal em meados daquela década. Encontrei a versão restaurada no youtube, num canal criado com este nome. As interpretações de Jeremy Irons (como Charles Ryder - tão novo que ele é aqui) e de Anthony Andrews como Sebastian Flyte são extraordinárias. A série é fiel ao livro, pelo que sugiro que leiam umas dezenas de páginas e depois vejam os episódios. Vale a pena.
   Aqui fica um vídeo do primeiro episódio (cada um tem a duração de dez minutos e passa para o seguinte automaticamente):

quinta-feira, 28 de maio de 2015

O Tigre Branco


   O escritor indiano Aravind Adiga, nascido em 1974, com este romance de estreia, ganhou o Man Booker Prize em 2008.
   Este é o retrato do grande país que é a Índia, mas a Índia corrupta, violenta, onde as diferenças entre as classes sociais, onde os ricos mandam e desmandam, e os pobres, os mendigos, os sem-abrigo sobrevivem em bairros de lata, sob os viadutos, nas bermas das estradas. Esta é a história, contada na primeira pessoa, do ex-criado Balram Halwai, ex-motorista de um empresário rico, que tinha o sonho de sair da Escuridão, de não permanecer sempre de cócoras, de ser, também ele, um empresário.
   Balram, que antes dos dezoito anos, não tinha nome, era o 'Rapaz', foi 'baptizado' pelo seu professor, corrupto, sim, também ele, aquando das eleições. Porque aos dezoito anos já se podia votar, se bem que o jovem (e toda a população da sua aldeia maior de idade) já tinha votado e nem se tinha apercebido.
   A sua aldeia na Escuridão, Laxmangarth:
   "Vossa Excelência, é com orgulho que o informo de que Laxmangarth constitui um exemplo da típica aldeia paradisíaca indiana, adequadamente provida de electricidade, água corrente e telefones e que as crianças da minha aldeia, criadas com uma dieta nutritiva à base de carne, ovos, vegetais e lentilhas, quando examinadas com fita métrica e balança, preenchem os critérios de altura e peso mínimos estabelecidos pelas Nações Unidas e por outros organismos cujos tratados o nosso primeiro-ministro assinou e em cujos fóruns ele com tanta pompa e regularidade faz questão de marcar presença.", pode ler-se nas primeiras páginas. E é com este constante registo irónico, mordaz, ilustrando o grande poder de observação do autor, que vivemos a vida de Balram, os seus conflitos, dilemas, sonhos e luta por uma vida melhor, no quarto cheio de baratas na cave do condomínio de luxo onde o seu patrão vive.
   Esta é uma obra de ficção, toda a semelhança com a realidade é pura coincidência, lê-se no início da história. E, assim, a Índia romântica, magnífica, a Índia do espiritualismo, da aventura, é totalmente arrasada com este poderoso, mordaz e negro romance.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Lygia e Mário

   
     Dois pequenos grandes livros terminados no fim-de-semana: Antes do Baile Verde, de Lygia Fagundes Telles, e Ursamaior, de Mário Cláudio. Ambos classificados com 5* no goodreads.
 
   Antes do Baile Verde foi publicado pela primeira vez em 1970. O ebook que li é de 2009, da editora brasileira Companhia das Letras. Reúne dezoito contos, o primeiro escrito em 1949 e o último em 1970.
   São dezoito pequenas ficções intituladas 'Os Objetos'; 'Verde Lagarto Amarelo'; 'Apenas um Saxofone'; 'Helga'; 'O Moço do Saxofone'; 'Antes do Baile Verde'; 'A Caçada'; 'A Chave'; 'Meia-Noite em Ponto em Xangai'; 'A Janela'; 'Um Chá Bem Forte e Três Xícaras'; 'O Jardim Selvagem'; 'Natal na Barca'; 'A Ceia'; 'Venha Ver o Pôr-do-Sol'; 'Eu Era Mudo e Só'; 'As Pérolas' e 'O Menino'. O meu conto preferido é 'A Caçada', seguindo-se 'Natal na Barca', 'Eu Era Mudo e Só' e 'O Menino'.
   As páginas finais do livro reúnem algumas críticas literárias, uma carta de Carlos Drummond de Andrade, redigida em 1966, e um depoimento de Urbano Tavares Rodrigues, quando a autora foi galardoada com o Prémio Camões, em 2005.
   É um dos melhores livros de contos que já li, aconselho vivamente.


   Ursamaior, um presente que muito agradeço ao João Roque, foi publicado em 2000. Apresenta sete personagens encarceradas, do jovem assassino Henrique ao transformista Cristiana, passando pelo burlão Rogério e por Geraldo, o jogador, por exemplo.
   Através das narrativas ora na terceira pessoa, ora na primeira, intercalando-se as vidas dos sete homens presos umas nas outras, com os discursos e comportamentos muito próprios do nível de vida de cada um, o autor consegue transmitir um profundo conhecimento da língua portuguesa.
   A história inicial é a mais brutal, como brutal é o fim da última personagem apresentada.
   Mário Cláudio, de quem nunca tinha lido nada antes, é, com justiça, um dos grandes escritores portugueses da actualidade.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Frase do dia no goodreads

   No goodreads, leio a frase escolhida para hoje, segunda-feira: "Woke up this morning with a terrific urge to lie in bed all day and read", de Raymond Carver.
   Substituo a cama pela praia. Encontrei no folheto do Lidl esta espreguiçadeira e só me apetece meter baixa por deficiência de vitamina D.


  Ainda faltam dois meses para as minhas férias grandes.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Granta Portugal 5

   A Granta Portugal 5 tem como tema 'Falhar melhor' e os doze textos apresentados e um ensaio fotográfico abordam o desencanto, o pessimismo, a morte e outras coisas que não revelo para não desapontar os seus fiéis leitores.
   Paulo Varela Gomes é o primeiro autor. Um murro no estômago a frase inicial. O resto? Um texto pungente e de grande coragem.
   Os meus textos preferidos são de Jonathan Franzen, de Simon Schama - se pudesse escolher seria este o preferido dos que classifiquei com 5*, embora o mais longo que a Granta PT publicou até ao momento - e de Joana Bértholo. Fiquei agradavelmente surpreendida com a sua narrativa, embora seja algum densa.
   Gore Vidal? Ah, já escrevi um post sobre o seu texto. Adorei. :)
   Os outros autores que me agradaram foram Pedro Mexia, Herta Müller, Bruno Vieira Amaral e Patrícia Almeida/David-Alexandre Guéniot (ensaio fotográfico).
   Ora, esta poderia ter sido a primeira Granta que li de fio a pavio, sem interrupções, se não terminasse com um texto de Jacinto Lucas Pires. Acho que fica aquém dos outros. Li-o muito rapidamente.
   Na globalidade, este é um excelente número. A capa é de Jorge Colombo e as ilustrações são de Catarina Sobral.
   Uma revista muito mais pequena do que a anterior, a Granta Pt África, mas julgo que a superou. O que quer dizer que quantidade não significa qualidade.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Meio sol amarelo


   Romance vencedor do Orange Prize, descreve a guerra civil entre a Nigéria e a República do Biafra (1967-1970).
   Um drama, duas histórias de amor, centrados em dois núcleos: por um lado, Ollana, Odenigbo (professor na Universidade de Nsukka), Ugwo, o criado (extraordinária personagem), e Bebé (a filha do casal); por outro, Kainene, irmã gémea de Ollana, uma empresária que lida com os governantes corruptos da Nigéria, e o seu namorado inglês Richard, jornalista e aspirante a escritor. Duas irmãs tão diferentes que irão lutar pela mesma causa, o Biafra independente.
   O primeiro capítulo de 'Meio sol amarelo', o livro fora lançado em Portugal em 2009, foi recentemente publicado na Granta Portugal 4 - África. Graças a esta revista, pude comprovar a excelência da escrita desta autora nigeriana, que nunca tinha lido.
   Chimamanda Ngozi Adichie, da etnia ibo, inspirou-se nas histórias dos seus familiares que lutaram na guerra e em 2013 foi produzido um filme nigeriano baseado no seu romance.

   Outras informações sobre o Biafra podem ser consultadas na Wikipédia.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Epístola à Nova Era

   Eu juro, ontem, se não estivesse no comboio, tinha-me escangalhado a rir com a história do Gore Vidal, publicada na última Granta Portugal. Ok, comecei com um pé atrás, não dou mais do que 3*, mas depois a rábula vai crescendo, crescendo, num ritmo alucinante, que de 3* passou a 4* e terminou com 5* e um smile e eu a chegar a casa com um sorriso estampado no rosto.
   É  fabuloso quando uma história me faz sentir tão bem disposta depois de um longo dia de trabalho.
   Para quem tiver interesse, aqui está o original em inglês, publicado em 1990 (clicar neste link).

domingo, 17 de maio de 2015

Hoje, o namorado sou eu

   Foi com o texto abaixo apresentado que participei nesta iniciativa do Namorado. Reescrevi o que ele me enviou.
   Acertei em quatro dos seis bloggers. Suponho que não é mau, considerando que não sou leitora assídua dos respectivos blogues. Mas foi graças a uma outra brincadeira do Namorado que eu passei a seguir um.

***

   Quisesse parar o Tempo. Como num passe de magia, os dedos esvoaçando no ar, um meneio de leque. Apanhava-o com os dedos e guardava-o no bolso das jardineiras, junto do bilhete de cinema, da primeira vez que vi o ET, do berlinde da cor do arco-íris, da pastilha ainda por encetar, da carica com o número “1” desenhado a marcador Molin.
   Quisesse parar o Tempo. Congelá-lo no espelho do quarto grande, sentada em frente à cómoda. A Mãe a pentear-me com força, uma careta a deformar-me a cara. Por entre as pálpebras semicerradas, a espreitar no reflexo o seu pulso gordo virando o elástico uma, duas vezes.
   Quisesse parar o Tempo. Nesta velha fotografia a preto e branco, ao lado de colegas da escola primária que, meio século depois, continuam com oito anos. E eu, numa das raras vezes que usei saia, a mostrar uns joelhos ossudos enfarruscados, nódoas negras de quedas e esfoladelas das subidas às árvores.
   Olho pela vidraça da janela da sala o jardim banhado pelo luar. O vento do fim do outono solta mais umas folhas do velho castanheiro. Ergo a cabeça e vejo-me lá em cima, sentada num grosso ramo, puxando os ouriços com cuidado. Dias frios, noites quentes na cama de ferro pintada de branco, os lençóis de flanela, sonos sem sobressalto.
   Hoje, pelo contrário, as memórias enchem as noites em branco e, por estas horas silenciosas, desliza a minha alma. "Até quando? E porquê?"



Original:
   "Reflexivamente, observamos alguns cabelos brancos, enleados noutros pretos, que ganham jeitos furtivos. Vemos rugas expressivas de velhice. Verificamos uns olhos castanhos, a fundirem-se com um verde qualquer, isentos de emoções.
   Reflexivamente, percebemos tudo. Uma alma torturada pela ansiedade, provocante e inquisidora. Materializamos o vazio e uma perpétua indiferença, após uma noite de sonhos inquietos.
   Reflexivamente, surgem vozes, coloridas por perguntas sem resposta. Questões, que cozem as verdadeiras curiosidades. Até quando? E porquê?"

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Ei-la

   Granta Portugal 5 - Falhar Melhor.
   O primeiro texto é de Paulo Varela Gomes. Li-o esta manhã no comboio. 5*.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Festa do Cinema

   Nem sei há quanto tempo não coloco os pés numa sala de cinema. Invariavelmente, escolhia dois sítios, o El Corte Inglés e o Monumental, o primeiro às quartas-feiras, no dia do espectador, o segundo, de segunda a quinta-feira até às 20h. Mas, desde que passei a trabalhar mais uma hora, custa-me estar mais umas horas encerrada numa sala, com a desvantagem de morar longe e chegar a casa tarde. E tenho de me levantar muito cedo todos os dias.
   Todavia, hoje é o último dia da Festa do Cinema. É um acontecimento imperdível e, assim, aproveitando a existência de um autocarro (não o do meu serviço, mas partilhamos boleias) que sai daqui às 17h30 e vai até ao Campo Grande, vou aventurar-me pelo Alvaláxia e assistir ao filme 'Ao Som da Vida', às 18h35 (em Lisboa, é o único cinema que o passa. Em Coimbra, também está). Dizem que é bom, é o primeiro filme de William H. Macy. Só vi o trailer e gostei. E aqui o deixo.
   Até mais logo, se nos encontrarmos por lá :)

segunda-feira, 11 de maio de 2015

O lago

   Da minha mesa de trabalho, avisto um lago artificial que faz parte do campo de golfe. Há alguns meses, dois trabalhadores tiraram um pneu enraizado no meio do lago, afastando do seu pedestal, sem se aperceberem, uma solitária, cinzenta e esguia garça-real. Há anos que esse era o seu lugar preferido.
   A garça passou alguns dias a calcorrear sem sentido a erva junto ao lago, caminhando nas suas finas patas, desconsoladamente, até que desapareceu de vez.
   Hoje, ao fim da manhã, dei conta de novos inquilinos, uma família de patos que fazia o ninho na água. Em primeiro lugar, vi o Sr. Pato, que mergulhava na água cinzenta do lago estagnado e regressava à superfície com o seu prémio no bico, poisando-o no montinho de ervas e de paus, que crescia aos poucos.
   Demorei algum tempo a reparar na D. Pata e em três patinhos, que se aproximaram do ninho em construção. A D. Pata subiu para o topo, mas não se sentou. Ajeitou, com gestos vigorosos, baixando e levantando a cabeça, a sua mais recente casa, enquanto o Sr. Pato colocava mais pauzinhos pequenitos junto ao molho. Pouco depois, a D. Pata saltou para a água e um patinho acomodou-se no ninho, os outros dois preferindo continuar na água, alheios à azáfama dos progenitores.
   De onde me encontro, não consigo distinguir bem as suas cores, são pequenos pontos fulgurantes nadando sem parar. Contrastam com a margem artificial do lago; de uma lona que há muito perdeu a cor preta, restam uma estreita faixa cinzenta na parte de cima e uma grossa e pálida mancha, formada pelos restos ressequidos de lama provenientes do lago quando fica cheio.

Uma Mentira Mil Vezes Repetida


   O único adjectivo que me ocorre para classificar este livro é cáustico. Aconselha-se colocar um sorriso zombeteiro no início da leitura e só o retirar na última página, sob risco de levar demasiado a sério a história contada por um narrador sem nome aldrabão e arrogante.
   Um logro, um romance inexistente engendrado por um homem em busca da fama e do reconhecimento, um funcionário público aposentado com uma 'generosa reforma aos trinta e seis anos devido a uma agressiva doença de pele provocada pelo implacável stresse do funcionalismo público', que passeia as mil e duzentas páginas de 'Cidade Conquistada' pelos transportes públicos do Porto, seduzindo os utentes.
   Gostei muito da história megalómana, apesar das partes não politicamente correctas; 4* no Goodreads pela irreverência, criatividade e pelas gargalhadas que me provocou.