segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Tu chamas-me, amor, eu apanho um táxi

Tu chamas-me, amor, eu apanho um táxi,
cruzo a desmedida realidade
de fevereiro para ver-te,
o mundo transitório que me oferece
no assento de trás
uma oculta abóbada de sonhos,
luzes intermitentes como conversas,
letreiros acesos na brisa,
que não são destino,
mas que estão escritos por cima de nós.

Eu sei que as tuas palavras não terão
esse tom luxuoso, que os ares
inquietos do teu cabelo
guardarão a nostalgia artificial
do sótão sem luz onde me esperas,
e que por fim de manhã
ao acordar-te,
entre esquecimentos a meias e detalhes
fora de contexto,
terás piedade ou medo de ti mesma,
vergonha ou dignidade, incerteza
e talvez o luxurioso mal-estar,
o golpe que nos deixam
as histórias contadas numa noite de insónia.

Mas também sabemos que seria
pior e mais custoso
levá-las a casa, não esconder o seu cadáver
no fumo dum bar.
Eu venho sem idiomas desde a minha solidão,
e sem idiomas vou até à tua.
Não há nada a dizer,
mas suponho
que falaremos nus sobre isto,
pouco depois, tirando-lhe importância,
avivando os ritmos do passado,
as coisas que estão longe
e que já não nos doem.
Luis García Montero

Jorge Sousa Braga, org., Qual é a Minha Ou a Tua Língua? Cem poemas de amor de outras línguas, Assírio e Alvim, Março 2008, 2.ª edição.


Tú me llamas, amor, yo cojo un taxi...

Tú me llamas, amor, yo cojo un taxi,
cruzo la desmedida realidad
de febrero por verte,
el mundo transitorio que me ofrece
un asiento de atrás,
su refugiada bóveda de sueños,
luces intermitentes como conversaciones,
letreros encendidos en la brisa,
que no son el destino,
pero que están escritos encima de nosotros.

Ya sé que tus palabras no tendrán
ese tono lujoso, que los aires
inquietos de tu pelo
guardarán la nostalgia artificial
del sótano sin luz donde me esperas,
y que, por fin, mañana
al despertarte,
entre olvidos a medias y detalles
sacados de contexto,
tendrás piedad o miedo de ti misma,
vergüenza o dignidad, incertidumbre
y acaso el lujurioso malestar,
el golpe que nos dejan
las historias contadas una noche de insomnio.

Pero también sabemos que sería
peor y más costoso
llevárselas a casa, no esconder su cadáver
en el humo de un bar.

Yo vengo sin idiomas desde mi soledad,
y sin idiomas voy hacia la tuya.
No hay nada que decir,
                                pero supongo
que hablaremos desnudos sobre esto,
algo después, quitándole importancia,
avivando los ritmos del pasado,
las cosas que están lejos
y que ya no nos duelen.

11 comentários:

  1. Lindo. O ideal para acabar o dia mais triste do ano :)

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    1. é um poema muito bonito, não é? já tinha publicado o post quando me lembrei de procurar o original. não conhecia este poeta espanhol e deixei o link do site.

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    2. Sim, gostei muito. Estava a precisar. Obrigado :)

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  2. que lindo, Margarida. adorei. e é interessante como as leituras são tão diferentes conforme o lemos em espanhol ou em português. mais cerebral e magoado em português, mais emocional e desesperado em espanhol. isto para dizer que está tão bem traduzido que quando li no feedly nem sequer pus a possibilidade de não ter sido originalmente escrito em português.

    obrigado pela revelação

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    1. não, não, dizes assim 'grato pela revelação' ;)
      são estas coisas dos livros e das partilhas que nos fazem descobrir pérolas. aqui tão perto e não conhecia este autor. fiquei com curiosidade em ler mais coisas dele.

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  3. Foste tu que me deste este livro, recordas-te?

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    1. perfeitamente. foi no primeiro jantar em tua casa, convidaste-me a mim e ao João e ao Luís :)
      eu ofereci-te este livro, mas como foi há 2 anos já não me lembrava do título e só quando publicaste um poema do W.W. no teu blogue é que o mencionaste.

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  4. Bonito. Ando, aos poucos, a descobrir a magia da língua castelhana. :)

    um beijinho.

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    1. eu achava o castelhano rude, áspero. de todo, como o Miguel refere, é emocional. eu acrescento, vibrante.
      bjs.

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