Coy manteve-se em silêncio, mas tinha as suas dúvidas. Tinha lido sobre o mar durante toda a sua vida, e nunca encontrara ali nada sobre o grito de angústia de uma toninha que salta na água com o flanco arrancado pela dentada de uma orca. Nem sobre a noite mais curta da sua vida, com a aurora iniciando-se encadeada ao crepúsculo no horizonte avermelhado da enseada de Oulu, a poucas milhas do círculo polar árctico. Nem sobre o canto dos kroomen, os estivadores pretos, no castelo de proa em noite de lua, diante de Pointe-Noire, no Gabão, com os porões e a coberta cheios de troncos empilhados de ocumé e cajueiro. Nem sobre o estrépito aterrador de um Cantábrico onde céu e mar se confundem sob uma cortina de espuma cinzenta, depressões de catorze metros e vento de oitenta nós, com as ondas deformando os contentores, acorrentados na coberta como se fossem de papel, antes de os arrancarem, levando-os borda fora; a tripulação de vigia amarrada em qualquer sítio da ponte, aterrada, e os restantes nos camarotes, rolando pelo chão contra as portas, vomitando como porcos. Era como o jazz, no fim de contas: os improvisos de Duke Ellington, o saxofone-tenor de John Coltrane ou a bateria de Elvin Jones. Sobre isso também não se podia ler nos livros.
Arturo Pérez-Reverte, O Cemitério dos Barcos Sem Nome, Círculo de Leitores, 2000, pp. 134-135.
foi dos primeiros, e acho que continua a ser um dos meus livros preferidos do Pérez-Reverte. um daqueles casos em que me tocou num ponto sensível, e eu apaixonei-me profundamente pela história, pelas personagens e, definitivamente, pelo autor. espero que gostes :)
ResponderEliminarestou a gostar muito :)
Eliminara maneira dele escrever é extraordinária, cativante.