segunda-feira, 16 de março de 2015

Índice Médio de Felicidade II

"Este silêncio, este sossego, mesmo esta solidão, são coisas que já antes faziam parte de mim. Tenho os meus livros e os meus gatos e a Internet. É suficiente. Os dias passam e eu nem dou por eles." - p. 223.

David Machado, Índice Médio de Felicidade, D. Quixote, 1.ª edição, Agosto de 2013.

   Vejo pouca televisão, oiço pouca rádio. Necessito cada vez mais de silêncio. De manhã, acordo com uma rádio sintonizada,  por volta das seis menos dez. Não oiço o que está a passar, mas prefiro-a a despertar com o alarme do rádio-despertador. O rádio continuará ligado durante 59 minutos, enquanto me arranjo. O ruído é abafado pela porta fechada do quarto. Há semanas que nem a telefonia do quarto-de-banho ligo.
   Saio de casa um pouco depois das sete. Ruído, ruído logo cedo, no comboio, no autocarro, na auto-estrada. Depois, no trabalho. As pessoas chegam aos poucos. Encontram-se nos corredores, retomam, diariamente, a rotina, fala-se ao telemóvel, liga-se o rádio que está numa secretária, pergunto-me como conseguem trabalhar com o rádio ligado, e conversam  ao mesmo tempo, e quando não têm nada que fazer, riem-se com os vídeos no youtube sem auscultadores. Ruído incessante quase oito horas seguidas. E conversam alto, alto demais para quem precisa estar concentrado. Não me consigo abstrair de todos os sons que me cercam. Fico com dores-de-cabeça, incomodam-me.
   Saio às cinco e meia, mais uma viagem de regresso a Lisboa de autocarro, mais barulho, o rádio está ligado, está sempre ligado sobre os bancos dos passageiros.
   Desejo chegar a casa. Ao meu silêncio. Os gatos fazem-me companhia, mas como são tantos, entretêm-se eles  próprios. Livro-me da roupa do trabalho, umas calças de fato-de-treino, uma camisola velha, larga, desbotada, como qualquer coisa e sento-me no sofá com um livro na mão. O César sobe para o meu colo, começa com as massagens, livro de um lado, gato de outro. Relaxo. As gatas esticam-se pela sala, no cadeirão, no parapeito da janela, em cima da TV, no sofá.
   Leio, leio muito em silêncio. Tenho sorte com os vizinhos. Não há grandes barulhos, música alta, portas a bater, discussões. Sem TV, sem rádio, leio, encosto a cabeça, fecho os olhos uns momentos.
  Sossego, descanso, livro, gatos, sofá, silêncio, por fim. A minha felicidade é, também, isto.

13 comentários:

  1. Tens razão, o silêncio é fundamental, principalmente para quem como tu estás exposta a tantos barulhos diários.

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    1. imensos barulhos, demasiados. e trabalho eu no campo, mas até cá chegar...

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  2. No meu trabalho temos o mesmo pelo problema, pelo que não há música para ninguém. Quando estou sozinho na sala com uma colega minha de profissão ligamos o rádio, porque conseguimos concentrar com a música de fundo. Foram anos de faculdade a fazer maquetes pela noite dentro, a desenhar em autocad sempre com música de fundo, pelo que não nos incomoda, aliás acompanha e dá uma sensação de conforto. O nosso cérebro já filtra a rádio e torna-se no nosso pensamento. Não distraí nada e conseguimos estar super concentrados. Quando entram os nossos colegas "diferentes", desligamos porque já sabemos que não se conseguem concentrar até porque não foram treinados para isso. Acima de tudo, tem de haver respeito ;)

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    1. o problema é que trabalho em open space. estou quieta no meu canto, mas oiço tudo. o meu cubículo não passa de um nicho junto à janela, separado por armários de outro cubículo onde estão 4 colegas de outra área. mal chegam, ligam o rádio, baixinho, é certo, mas fica aquele ruído de fundo, e conversam alto, galhofam.
      esquecem-se que há gente que precisa trabalhar concentrada. é como referes, respeito, ou falta dele.

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    2. Também trabalho em open space e na minha sala somos 6 (todos diferentes) mais 3 da sala do lado que atendem telefones o dia todo e cuja separação se faz por um vão de porta enorme vazio. Ou seja: ouvimos as conversas, os queixumes da malta que reclama (ou não fosse isto um serviço público). Para mim desconcentra mais os telefones a tocar e a conversa do que a música :) Mas é como te digo, nem todos fomos "treinados" para isso! :) E sobre essa questão do rádio não há nada como explicar à outra parte que mesmo baixo, incomoda ;)

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    3. open space é uma praga.
      tens toda a razão, a mim também me incomoda mais o telefone e as conversas. imensas conversas sobre tudo e sobre nada...

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  3. Cada um tem o seu conceito de felicidade, por vezes o silêncio é muito bom

    Não consigo ler tanto como tu ou como desejaria

    Beijinhos

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    1. o silêncio é uma parte essencial da minha vida, cada vez mais.
      a leitura é um gosto, desde criança. :)
      bjs.

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  4. juro que pus o meu texto antes de ler este teu :)

    felizmente noc meu gabinete estou só eu, e já me chega o barulho que vem da rua.

    em casa, a ler, normalmente tenho música de fundo, agora no spotify. mas não me incomoda estar em silêncio. é que assim sempre vou descobrindo umas novidades, e a música ajuda-me a criar ambiente de leitura.

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    1. qual texto? ainda não li.
      o acer one de casa está cheio de tralha, logo, está muito lento. não oiço música nele, não vejo filmes nem clips do youtube. deixo isto para o trabalho, quando estou (nem sempre estou).
      música ou tv reservo para quando faço tarefas.

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    2. já li. caiu agora no g2reader. :)

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  5. Olha, eu praticamente nao vejo TV e nao sinto a falta.
    Também prezo muito a minha leitura em paz e sossego...

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