sábado, 25 de abril de 2015

Luz

Talvez que noutro mundo, noutro livro,
tu não tenhas morrido
e talvez nesse livro não escrito
nem tu nem eu tenhamos existido

e tenham sido outros dois aqueles
que a morte separou e um deles
escreva agora isto como se
acordasse de um sonho que

um outro sonhasse (talvez eu),
e talvez então tu, eu, esta impressão
de estranhidão, de que tudo perdeu
de súbito existência e dimensão,

e peso, e se ausentou,
seja um sonho suspenso que sonhou
alguém que despertou e paira agora
como uma luz algures do lado de fora.

Manuel António Pina, Todas as Palavras - poesia reunida, Os Livros.

10 comentários:

  1. :-) Gosto muito de poemas. É um "jogo" de palavras que quando é bem escrito o resultado final é excelente, e este é um desses casos.

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    1. gosto muito do MAP. :-) acabei de ler esta colectânea agora. muito boa.

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  2. Belo poema. Há uma ideia de alienação, de "fora para dentro", que gosto.

    beijinho.

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    1. a morte é um tema recorrente, morte, infância, livros, gatos... MAP faz falta.
      bjs.

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  3. Manuel António Pina. Não o poeta, mas o Homem e a sua múltipla escrita...Estou tão necessitado de conhecer melhor toda essa enorme obra.

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    1. o cronista, o escritor, o poeta, o amante de gatos... só tenho esta colectânea, contudo.

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  4. "paira agora como uma luz algures do lado de fora"

    Sabia tudo, este Pina

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