quinta-feira, 28 de maio de 2015

O Tigre Branco


   O escritor indiano Aravind Adiga, nascido em 1974, com este romance de estreia, ganhou o Man Booker Prize em 2008.
   Este é o retrato do grande país que é a Índia, mas a Índia corrupta, violenta, onde as diferenças entre as classes sociais, onde os ricos mandam e desmandam, e os pobres, os mendigos, os sem-abrigo sobrevivem em bairros de lata, sob os viadutos, nas bermas das estradas. Esta é a história, contada na primeira pessoa, do ex-criado Balram Halwai, ex-motorista de um empresário rico, que tinha o sonho de sair da Escuridão, de não permanecer sempre de cócoras, de ser, também ele, um empresário.
   Balram, que antes dos dezoito anos, não tinha nome, era o 'Rapaz', foi 'baptizado' pelo seu professor, corrupto, sim, também ele, aquando das eleições. Porque aos dezoito anos já se podia votar, se bem que o jovem (e toda a população da sua aldeia maior de idade) já tinha votado e nem se tinha apercebido.
   A sua aldeia na Escuridão, Laxmangarth:
   "Vossa Excelência, é com orgulho que o informo de que Laxmangarth constitui um exemplo da típica aldeia paradisíaca indiana, adequadamente provida de electricidade, água corrente e telefones e que as crianças da minha aldeia, criadas com uma dieta nutritiva à base de carne, ovos, vegetais e lentilhas, quando examinadas com fita métrica e balança, preenchem os critérios de altura e peso mínimos estabelecidos pelas Nações Unidas e por outros organismos cujos tratados o nosso primeiro-ministro assinou e em cujos fóruns ele com tanta pompa e regularidade faz questão de marcar presença.", pode ler-se nas primeiras páginas. E é com este constante registo irónico, mordaz, ilustrando o grande poder de observação do autor, que vivemos a vida de Balram, os seus conflitos, dilemas, sonhos e luta por uma vida melhor, no quarto cheio de baratas na cave do condomínio de luxo onde o seu patrão vive.
   Esta é uma obra de ficção, toda a semelhança com a realidade é pura coincidência, lê-se no início da história. E, assim, a Índia romântica, magnífica, a Índia do espiritualismo, da aventura, é totalmente arrasada com este poderoso, mordaz e negro romance.

6 comentários:

  1. A Índia é um país tudo menos magnífico, esperando, com isto, não ofender a susceptibilidade de um apaixonado por aquelas "bandas". Além dos problemas todos que referiste, e que constam do livro, há as castas, terminantemente proibidas pela Constituição da Índia, mas que ainda continuam a vigorar informalmente, e com forte apoio social, junto do povo.

    Sendo uma obra de ficção, com certeza terá muitas semelhanças com milhões de existências iguais às de Balram.

    um beijinho.

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    1. faz-se referência às castas, mas não muito aprofundado. por exemplo, de acordo com o apelido do protagonista, ele deveria ser 'um fazedor de doces', mas o pai era condutor de riquexó. Balram e o irmão foram obrigados a desistir da escola e foram trabalhar para uma casa de chá, mas a tratar do carvão e como moços de limpeza.
      muita semelhança, é um livro muito poderoso, apesar do tom irónico da narrativa.
      bjs.

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    1. muito. embora a narrativa esteja carregada de ironia, é um livro muito poderoso. estás a imaginar centros comerciais do tipo ocidental onde só os ricos entram? os criados ficam à porta, barrados pelos seguranças. e como este, há dezenas de exemplos.

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  3. No que leio, por vezes calha ler um livro com uma escrita mordaz, que até gosto muito, provavelmente no livro que referes iria sentir isso e para mais a Índia pode ter história e uma beleza que apela a muita gente mas tem um fosso bem grande no que toca a muita coisa.

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    1. acho que irias gostar. mordaz do princípio ao fim.

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