segunda-feira, 15 de junho de 2015

A Sentinela


   Richard Zimler é um bom escritor. Gostei de 'O Último Cabalista de Lisboa', 'A Sétima Porta', 'Os Anagramas de Varsóvia' e a incursão ao mundo de uma adolescente portuguesa nos EUA em 'A Ilha Teresa', mas não consegui entrosar-me com este seu último livro, um policial. A acção desenrola-se em Lisboa, em 2012, a personagem principal é Henrique - Hank - Monroe, inspector-chefe da Polícia Judiciária. A mistura das duas histórias, o homicídio de um construtor civil rico e as suas amizades com personalidades públicas ligadas à política ou altos quadros da administração pública, e o passado traumático de Hank, pareceu-me demasiado confusa, principalmente no que diz respeito à infância violenta e perturbadora do protagonista. Apesar da escrita escorreita, das passagens comovedoras entre Hank, os filhos e o irmão Ernie, apesar da pesquisa do modo de actuação da PJ e do comportamento de uma pessoa com distúrbios de personalidade múltipla, também não ajudou estar contada na primeira pessoa. Talvez a história resulte melhor escrita em inglês, como o é originalmente, e não tanto em português, ou, então, se se passasse algures numa cidade americana, de onde o autor é originário, e não em Lisboa e no Alentejo. Mas, se assim fosse, não teria sido possível criticar o governo, os cortes nos salários, a corrupção, a bancarrota, o tráfico de influências, bem como a sordidez, a podridão e a decadência moral da alta sociedade portuguesa.
   Junta-se o facto de ter encontrado expressões incorrectamente traduzidas. Parece-me que alguém que é criado no Alentejo não diz 'nove menos um quarto da noite' nem 'quarto-de-banho'. Se uma alfacinha dissesse 'tenho um foguete na meia', não seria estranho?
   Na verdade, confesso, eu prefiro os policiais clássicos. Com anti-heróis meditabundos e solitários.

8 comentários:

  1. se não estou em erro li quatro dele: o ùltimo cabalista, à procura de Zana, os anagramas e os contos, confundir a cidade com o mar. e gostei deles todos, será um autor a que muito provavelmente voltarei.
    mas acho que percebo bem o que dizes acerca deste A Sentinela, e partilho da tua preferência :)

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    1. é verdade, também li 'confundir a cidade com o mar', e gostei muito, e 'meia noite ou o princípio do mundo', deste já nem tanto.
      pois... eu gosto de RZ, escreve muito bem. mas emoção a jorros em certo tipo de livros não, acho que perde a mística.

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  2. No meu alentejo diz-se "um quarto para a dez" e os mais velhos diziam "quarto de banho", mas hoje em dia já ninguém fala assim (também se dizia "banquinha" para "mesa de cabeceira").
    Do Zimler só li a Cidade e o Mar (emprestado pelo miguel, acho) e gostei. Mas devo confessar que o escritor me fascina mais do que a obra... :D

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    1. no norte diz-se de uma forma e eu também digo assim, no sul, é ao contrário. quarto-de-banho é também mais típico numas zonas do que noutras.
      banquinha não aparece no livro ;) mas gosto.
      a mim também. :)

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  3. Não conheço, neste momento comecei a ler "A Rapariga do comboio" que supostamente está na berra e que é bom, pode ser que seja bom.

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    1. já o folheei. não posso comprar mais nenhum. tenho de despachar os meus.

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  4. Ainda assim, e ponderando a tua critica, quero comprar e ler. E também a "Sétima Porta" e "Os Anagramas de Varsóvia". Haja tempo.

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