quarta-feira, 1 de julho de 2015

Nunca haverá outra vez

   "Prosseguiu mais devagar. Trouxera alguns figos, que tirou da algibeira e devorou. Ao completar a curva do rio, deu de caras com o sol no poente, ao olhar para um pequeno vale entre duas colinas suavemente ascendentes e nuas. Na extremidade havia uma colina mais íngreme, avermelhada e num dos lados uma abertura escura. Como gostava de cavernas esteve tentado a lá ir. Mas as distâncias eram enganadoras, e não devia faltar muito para anoitecer; além disso não se sentia com energia suficiente. «Amanhã venho mais cedo e vou até lá», disse para consigo. Ficou a contemplar melancolicamente o vale, a língua à procura das sementes de figo entre os dentes, com as pequenas e tenazes moscas sempre a agarrarem-se à cara. Ocorreu-lhe que um passeio pelo campo era uma espécie de resumo da própria passagem pela vida. Nunca se tem tempo para saborear os pormenores; diz-se: outro dia, mas sempre com a convicção oculta de que cada dia é único e final, de que nunca haverá regresso, de que nunca haverá outra vez."

Paul Bowles, O Céu que nos Protege, pp. 111-112.

4 comentários:

  1. wow.

    mais um contributo para a discussão sobre o sentido da vida :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. já o leste? é o melhor dele, sem dúvida.

      Eliminar
  2. Muito bonito, principalmente esta parte: "Ocorreu-lhe que um passeio pelo campo era uma espécie de resumo da própria passagem pela vida. Nunca se tem tempo para saborear os pormenores; diz-se: outro dia, mas sempre com a convicção oculta de que cada dia é único e final, de que nunca haverá regresso, de que nunca haverá outra vez."

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. sim, sim, concordo em absoluto, mas tinha de situar a frase. :-)

      Eliminar