terça-feira, 7 de julho de 2015

O Céu Que Nos Protege


   Escrito em 1949 e publicado em 1989 pela Assírio & Alvim, narra em três partes a viagem de Port, Kit, casados, e Tunner, um amigo, pelo vasto e misterioso deserto do Sahara: Livro Primeiro: 'Chá no Sahara'; Livro Segundo: 'A Aresta Aguda da Terra' e Livro Terceiro: 'O Céu'. Os primeiros são viajantes, o segundo, turista, essa é a diferença.
   Até ler este romance, nunca me tinha deparado com uma descrição tão dolorosa sobre a morte, a morte mais dilacerante e solitária de um ser humano: «Sinto-me muito doente. Sinto-me horrível. Não há razão para medos, mas tenho medo. Por vezes não me encontro aqui, e não gosto disso. Porque estou tão longe e sozinho. Ninguém consegue lá chegar. É demasiado longe. E aí estou só. » (...) «Tão só que nem me ocorre a ideia de estar só »...
   Incapaz de lidar com essa morte, ela nega a realidade e refugia-se no deserto. A relação com os dois árabes, a submissão de uma ocidental num mundo masculino, é a única forma de sobrevivência. A narrativa de Bowles consegue contornar o abuso do acto. Não há adjectivos violentos, mas uma entrega em busca de protecção. E disfarçada de um jovem, a relação do árabe com esse 'aparente' homem torna-se normal aos olhos das outras mulheres.
   As marcas ficam para sempre, o terror da perda, a loucura, solidão dali para a frente e um refúgio naquele mundo tão diferente do seu.
   Bernardo Bertolucci adaptou este romance em 1990. Deixo três vídeos de 'Um Chá no Deserto': o início do filme, a maravilhosa banda sonora e parte do fim, onde aparece o autor do livro, Paul Bowles. O monólogo está descrito na p. 197 do romance, logo após a tragédia:
   'Esquecera aquela tarde de Agosto, há pouco mais de um ano, quando se tinham sentado sozinhos sobre a relva debaixo dos bordos, vendo o temporal a varrer o vale do rio e a subir na direcção deles, e então o tema fora a morte. E Port dissera: «A morte vem sempre a caminho mas o facto de não sabermos quando chegará parece afastar a natureza finita da vida. É essa terrível precisão que odiamos tanto. Mas, como não sabemos, pensamos que a vida é um poço inesgotável. No entanto, tudo acontece apenas um certo número de vezes, na verdade um número muito reduzido. Quantas vezes mais recordarás uma certa tarde da tua infância, uma tarde que é, tão profundamente, uma parte do teu ser que nem podes conceber a tua vida sem ela? Talvez mais quatro ou cinco vezes. Talvez nem tanto. Quantas vezes mais contemplarás a lua cheia a erguer-se? talvez vinte. E, no entanto, tudo parece ilimitado.»




4 comentários:

  1. Eis um livro que me anda a apetecer reler...

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    1. e a mim está a apetecer-me viajar até ao norte de África :)

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  2. Nunca vi o filme, na altura não ligava muito à sétima arte, muita coisa me passou ao lado, e por causa do ritmo que a vida tem, há coisas que ficam no passado à espera de serem "repescadas".

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    1. eu lembrava-me do filme, mas não do livro. nas férias, vou tentar pedi-lo no vídeo clube ao pé de casa. sim, em miúdos, não nos apercebemos dos livros por detrás de um filme, de grandes autores que descobrimos mais tarde.

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