quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Taci e riposa: qui si spegne il canto

   A Lídia e eu almoçámos no início do mês, numa quarta-feira, num pequeno restaurante no Bairro Azul; trocámos livros, trocámos novidades, a Lídia, a sua viagem à Grécia, eu, as minhas férias.
   Já na passada terça-feira, disse, praticamente, 'Olá e adeus' a um blogger em Sete Rios, na companhia do Francisco. Depois, caminhámos, nesse fim de tarde ventoso, até pararmos na mesma rua onde tinha almoçado raia com arroz de pimentos com a Lídia. Eu e o Francisco partilhámos uma tosta de queijo e um chá de frutos vermelhos e muita conversa. Regressámos a Sete Rios quase pelo mesmo caminho passavam poucos minutos das oito da noite. 
   Já não estava com estes amigos há uns tempos. Gosto destes pequenos grandes encontros, espaçados assim no tempo, com comida caseira e boa conversa, sem pressas.
   E agora? Bem, estou quase, quase a terminar o livro que a Lídia me emprestou, 'O Pintor de Batalhas', de Arturo Pérez-Reverte. Um livro poderoso, sobre um ex-fotógrafo de guerra que decide a pintar um mural circular sobre o horror, a maldade, o caos, tendo por fonte as guerras por onde passou em trinta anos de actividade e a perda da mulher que amava, Olvido. Olvido é uma grande personagem; Pérez-Reverte desenha sempre mulheres fortes, destemidas, aventureiras, grandiosas e além da sua época. Estou a lembrar-me, por exemplo, de Lolita Palma, do extraordinário 'O Assédio', que se desenrola em 1811.
   Esta Olvido, por seu lado, é sombria, só o seu nome diz tudo. E foi Olvido, a dada altura, que referiu a Faulques, a personagem deste romance, o pintor de batalhas, este verso: 'Taci e riposa: qui se spegne il canto'. Cala-te e repousa: aqui se acaba o canto, assim está no romance.
  Este livro bebe em muitas fontes, desde pinturas de batalhas ao longo dos séculos, a poemas como este, de Andrea de Chirico/Alberto Savìnio) (no romance, é mencionado como Alberto de Chirico); é uma pequena maravilha.
   Fui pesquisar. Não conhecia. A obra chama-se 'Tragedia dell'infanzia'; o primeiro verso referido por Olvido faz parte deste poema que encontrei na p. 21 da tese de doutoramento «Tra Morte e verbo: la metafora saviniana della morte dalla Poesia al Teatro», de Leili Maria Kalamian (em pdf), pesquisada na internet (consegui guardar).

Taci e riposa Qui si spegne il canto
Della tua vita Dell'antico pianto
Torna più grave l'eco affievolita
In questa sosta in cui l'incanto
Muore Cedi alla serena
Pace la fronte in cui si smaga
La voce di sirena.

14 comentários:

  1. Temos de repetir mais vezes :)

    Beijinhos grandes

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    1. temos, sim, Francisco :)
      bjs. bom fim-se-semana.

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  2. Cara amiga Margarida, já tinha saudades de ler um texto teu. Um mês a espreitar o blog, e nem uma foto dos gatitos .....também gostei desse livro,...beijos. Lídia

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    1. Lídia, não tinha muita vontade de escrever. nem tenho, ainda. um quase 'cala-te e repousa. aqui se acaba o canto.' não escreverei tantas vezes como agora.
      os gatinhos estão bem, cheios de mimo :)
      um grande livro. obrigada pela sugestão.
      bjs.

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  3. Não percebo muito italiano, mas penso que a obra se chama "Tragédia de infância" :-p.

    Num ano quantos livros lês? Não sei se fazes parte dum, nem sei se existem cá em Portugal, mas gostaria de fazer parte de um clube de leitura? E atenção não é um convite nem nada do género, apenas acho que deve de ser engraçado mas a falta de tempo corta as pernas a qualquer um.

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    1. sim, traduziste bem o título. até ontem à noite, li 60 livros e coloquei 2 de parte, embora tenha lido até à centena de páginas. esforcei-me, mas num irritou-me a leitura e no outro, embora sendo um nobel, era chato.
      tenho de actualizar o goodreads. não faço, não quero, Limite. isso obriga-me a participar muito, a estar disponível e como leio nos meus tempos livres e como grande hobby, é verdade, não quero sobrecarregar a minha vida com isso. há clubes, mas só me lembro dos do goodreads e uns locais, que pertencem a bibliotecas e associações culturais.para mim, a leitura é solitária.

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  4. De momento, ando a ler "O Segundo Sexo" da Simone de Beauvoir. Um livro, como a autora, bastante feminista, mas muito interessante. Ela explora os preconceitos, os dogmas, de um modo assaz inteligente. Se nunca o leste, recomendo-to.

    Bom regresso ao trabalho, se for caso disso.

    um grande beijinho.

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    1. eu conheço, Mark. dois volumes, recém-editados de novo. não li, ainda, mas quero ler. terá de ficar para o ano. este ano, tenho já as minhas leituras mais ou menos planeadas.
      já regressei há uns dias. mas é agosto, ainda cheira a férias.
      obrigada.
      bjs.

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    2. Pelo que vi, o avô só tem um. A menos que esteja tudo condensado nesse. Tenho de ver isso.

      um beijinho.

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    3. falo de uma reedição. sim, a tua deve ser a condensada, o livro é antigo. vi na bertrand há uns meses.
      bjs.

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    4. Margarida quando quiseres ler, posso emprestar-te o livro. Eu li quando tinha vinte anos, pós 25 de abril, antes esses livros estavam proibidos. Naquele tempo foi para mim um livro de reflexão, vou agora ler algumas partes já com outro olhar sobre a actualidade e o que Simone escreve sobre a mulher. Porque houve uma enorme transformação no pensamento apesar do preconceito ser ainda enorme. Lidia

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    5. sim, Lídia. quero ler. depois peço para mo trazeres, num dos nossos encontros. :) obrigada.

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  5. ando cheio de saudades dos bloggers, mas espero que a coisa se resolva em breve :)

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