quinta-feira, 8 de outubro de 2015

O conto do João Roque

   Eu fui à tua procura

   Foi num sábado à tarde, recordou-lhe, enquanto liam aquele poema, mais uma vez, embora o soubessem de cor, depois de tantos anos. E, de novo, contou como tudo acontecera.
   Tinha acabado de chover e resolvera sair de casa, andar sem rumo, como tantas vezes faziam os dois. Num jardim, descobrira, por acaso, uma feira de livros usados. Adorava passar os dedos pelas lombadas gastas, vincadas, abrir um livro, depois outro e outro.
   De um caixote periclitante sobre uma desconjuntada mesa de campismo, um detalhe que guardou na memória, decidiu-se por um pequeno livro de poesia. Uma edição de autor, de pequeníssima tiragem, produzida uns vinte anos antes. Devagar, passou as páginas e leu alguns pequenos poemas de amor. “Jovem poeta apaixonado”, pensou, após ler, na contracapa, as três breves linhas que compunham a sua biografia.
   Folheou-o até parar num poema com o título “Eu fui à tua procura”. De repente, o coração apertou-se, sentiu a boca seca, um desassossego. Quase sem dar conta, retirou umas moedas do bolso das calças, entregou-as ao vendedor e afastou-se. Nas mãos, segurava aquele tesouro, a cabeça inclinada para baixo, incapaz de afastar os olhos.
   As pernas levaram-no a um prédio conhecido. Tocou à campainha. Do intercomunicador, saiu uma voz rouca que tão bem conhecia. Com um zumbido, a porta abriu-se. Entrou.
   Encontraram-se a meio da escada. Retirou o livro do bolso do casaco, abriu-o na página marcada com um velho papel e, ali mesmo, leu-lhe aquela declaração de amor.

26 comentários:

  1. Adoro esta "coisa" de conseguir imaginar o "fim" desta história. MUito bom, Margarida. Parabéns.

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    1. obrigada :). quis fugir um pouco ao que escrevi nos últimos contos do João.

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  2. Meu Deus!!! Muito bom este conto :D

    Beijinhos

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  3. Tens toda a razão, Margarida.
    Tu sabes, como muita gente minha amiga sabe, que eu não fui à procura de ninguém, isto no caso do amor que mantenho com o Déjan há 10 anos; simplesmente aconteceu...
    Daí, acho que deste muito bem "a volta ao texto", e arranjaste uma história muito bem urdida, de uma forma objectiva, mas com pinceladas de coisas que têm a ver comigo, como a história da banca dos livros, por exemplo.
    De resto, a qualidade do conto é excelente, mas isso já não é novidade para ninguém.
    Obrigado e um beijinho.

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    1. :) obrigada, João. escrever sobre um livro foi a minha ideia inicial, mas não tinha ideia deste fim. pensei-o quando cheguei a meio da história.
      bjs.

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  4. Sabia que o João iria gostar. :) Creio que se torna mais fácil quando conhecemos as pessoas.

    um beijinho.

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  5. gostei muito, Margarida, está em forma. e estás melhor, acho eu, com uma narrativa mais seca e eficaz, todas as palavras contam, nenhuma está a mais.
    estou a notar isso nos três contos que já publicaste, gostei muito de todos.
    ler-te, voltar a ler os teus contos curtos e 'concentrados', tem sido um regresso cheio de prazer.

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    1. obrigada, Miguel.
      não é fácil, mas os livros que li ultimamente ajudaram-me muito.
      no fundo, é preciso ler bastante para se ser capaz de escrever algo de jeito.

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  6. Ai adorei este conto! Está tão lindo, tão perfeito! ^^
    Parabéns! ^^

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    1. também gosto muito. já escrevi muito contos bonitos nestes anos, mas, modéstia à parte, este é um dos perfeitos :)
      bjs.

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  7. Fiquei a saber do desafio, demasiado tarde, pelo Francisco. Da próxima quero participar.
    Acho adoráveis os contos até agora.

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    1. não estipulei prazo, GB :) basta dares-me um título até 5 palavras.
      obrigada.

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  8. Margarida mais uma vez um brilhante conto,e começo a pensar se o que o que te é dado com um título "politicamente correto" o que será que escreverás com alguns dos que já te deram. Eu gostos de desafios, e gosto de alternativas e sei que terás já um, que envolve Loiras e Ruivas entre outros. Escreves muito bem, e deixas sempre no ar o que mais gosto num conto, a liberdade de imaginação, pois sem ela não éramos nada.

    Tenho um outro desafio para ti, mas não falarei dele agora, fica para 2016, espero não me esquecer. O que te posso dizer é que envolve 3 contos, com base em imagens...é a tua "cara" e esse quero mesmo te desafiar :-)

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    1. obrigada, Limite. normalmente, escrevo-o num serão, duas, três horas, depende, depois de um dia extenuante (viagens, trabalho, cansaço), o cérebro já não funciona mito bem. uns dias antes, começo a pensar no título que tenho, tento pensar numa história não muito previsível, embora não fuja da realidade. o limite das 250 palavras é bom, obriga-me a cortar o acessório e deixar espaço à imaginação.
      deixemos para 2016 esse teu desafio, então (este ano está completo com estes contos).

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  9. Com um toque romântico mais acentuado que os restantes :-)

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  10. A segunda parte é muito bonita. Confesso que ao ler periclitante, a palavra não me largava o pensamento e tive de recomeçar várias vezes.

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