quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O conto do Miguel

   São Pedro de Moel. Julho

   O livro fechado sobre a mesa, o lápis marcando a página com as frases que tinha sublinhado. Com o lenço bordado que guardava no bolso do vestido, limpava os olhos lacrimejantes que recebiam a humidade do oceano.
   Pedia-lhe, constantemente, que não estivesse tanto tempo na varanda, mas ao regressar, reparava sempre na sua figura, vagamente obscurecida pelo guarda-sol, a cabeça inclinada para baixo, com o livro no regaço. Ao lado, na mesa redonda de ferro, os companheiros daquelas tardes soalheiras: a chávena de chá, o bule e o solitário com a rosa vermelha que lhe trazia todas as manhãs.
   Suspirava, abanando a cabeça, derrotado. Por fim, entrava, largava displicentemente no sofá da sala a toalha e o jornal meio lido e aproximava-se. Inclinava-se, depositava um beijo na face levemente oleosa do creme protector e perguntava-lhe como tinha passado a tarde. Por instantes, a resposta acalmava-o. Então, arrastava a cadeira para o seu lado, o que lhe valia a única reprimenda do dia, quando levava uma branda palmada no braço. Mas fazia-o todos os anos, naquela quinzena de férias junto ao mar, como se precisasse daquela punição, uma brincadeira entre os dois que mascarasse a angústia que se agarrava a ele como as lapas nos rochedos das falésias.
   Naquele Verão, à medida que se aproximava, foram aquelas as imagens que lhe vieram à memória. Estacionou junto ao hotel. Saiu e caminhou pelo passadiço de madeira, em direcção ao farol, enquanto escutava, triste, o marulhar do Atlântico.

18 comentários:

  1. há uma coisa nos teus contos que é como aquela canção dos Ornatos: "eu vi, mas não agarrei". e isso torna-os tão íntimos e intensos.
    acho que era mesmo este conto que te pedi quando te dei o título.
    obrigado

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    1. eu é que agradeço por teres gostado tanto :)

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  2. Lindo, talvez ficção, mas eu imagino alguém muito especial. Penso que estou certa. Parabéns. Um beijinho. Lidia

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  3. Adorei como sempre :D

    Beijinhos grandes

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  4. :-) muito bonito! "Mostras" a nostalgia que um verão por vezes deixa em nós, e a tristeza que só quem já passeou à beira-mar sob esse estado de espírito é que poderá compreender...diria eu, mas eu pouco ou nada sei.

    Questiono-me até onde vai a tua imaginação, será que todos os teus contos têm um inicio, ou meio e um fim? :-)

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    1. Limite, isso deixo à vossa imaginação :)
      mais do que nostalgia, mas o resto fica por dizer.

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  5. Dos que mais gostei. Achei requintado na medida certa. Gosto sempre do emprego de vocábulos que fogem ao linguajar diário.

    beijinho.

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    1. obrigada, Mark. sim, é muito delicado, este conto.
      bjs.

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  6. «acho que era mesmo este conto que te pedi quando te dei o título.»

    ...

    Costumo passar por aqui com alguma frequência. Creio que - quase com absoluta certeza - é a primeira vez que deixo ficar um comentário.

    Porquê?... Há motivos que, por tão óbvios, não necessitam de uma explicação que, se calhar, pecaria por inútil. Para lá deles, foi como se os meus dedos me arrastassem na direcção do teclado.

    Suponho que o Miguel teria uma necessidade premente de ler - arrisco dizer "escutar" - estas palavras. Por muitas que sejam as que nos possam chegar, nada se compara às que nos tocam a alma. Às que nos deixam, inertes, a contemplar o silêncio!...

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  7. Não vale a pena repetir que está genial, pois não? Muito bom texto e história. Gostei muito. Parabéns Margarida!

    Bjs

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  8. Margarida, conheces S. Pedro do Moel?
    É um sitio onde adoro ir. Mesmo de inverno. Confesso que este era dos contos que mais vontade tinha de ler, e mais uma vez não me desiludiste :-)

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    1. conheço. passei algumas férias de verão lá, no inatel, na residencial d. pedro (acho que era esse o nome, que fechou) e, depois, no hotel.

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