sexta-feira, 2 de outubro de 2015

O conto do Silvestre

O pernóstico capcioso vituperador


   Uma noite, à saída do restaurante, um homem velho, magro, de sobretudo escuro e laço ao pescoço, ergueu uma bengala à frente deles.
   “Péssima escolha.”, declarou, abruptamente, barrando-lhes a passagem. Apontou para o restaurante com a ponta da bengala. Depois, disse, com um tom altivo, que conhecia um clube de bridge com um óptimo serviço. “Os senhores seriam bem-vindos. Convido-vos.”
   Com a confiança de um homem que sabia dar ordens e ser obedecido prontamente, fixou-lhes um olhar astuto. Mantinha a bengala no ar.
   Olharam-no, emudecidos. O estranho interpretou como se fosse submissão.
   Um deles abanou a cabeça.
   “Lamento, mas acabamos de jantar. Estamos cansados. Mas podemos oferecer-lhe uma bebida rápida aqui”, respondeu.
   “É um lugar repugnante. Jamais entraria aí dentro.”, foi a resposta do estranho.
   Empertigado e agitando com maneirismos a bengala, viram-no afastar-se.
   Algum tempo depois, foram jantar ao mesmo restaurante. Recordaram-se do episódio estranho e perguntaram ao dono se conhecia o velhote.
   “Um louco que se julga um barão!”, exclamou. “Só porque, um dia, há alguns anos, não o servimos com o requinte que desejava. Isto é um estabelecimento familiar. De vez em quando, aparece por aqui. Engraça comigo e desgraça-me a casa, essa é a verdade. Espalha boatos na rua.”
   Por fim, acalmou-se e sorriu. “Mas os senhores gostam de cá vir”.
   Anos depois, continuam a jantar naquele restaurante. De vez em quando, ainda se recordam do barão que não era barão, do clube de bridge que não existia e trocam sorrisos cúmplices.

16 comentários:

  1. Excelente, o melhor texto de sempre, atrevo-me a dizê-lo

    Beijinhos

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  2. Um conto cheio de requinte, e a culpa foi do título. Gostei muito, de entre as frases, há uma viagem no tempo, e porque um conto não é mais que isso, este deixa no ar uma série de coisas, e nada melhor que a imaginação do leitor criar o resto.

    (Confesso que estou um pouco apreensivo quanto às 5 palavras que te dei...pois pensei numa espécie de conto, e sei que irás fazer algo que me irá deixar a pensar...como este e o outro já publicado. Excelente iniciativa tudo,).

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    1. o Silvestre deu-me um título um pouco pernóstico :p
      optei com criar uma personagem com a mania das grandezas e uma aduela a menos, como diria o mestre Torga.
      fica o resto entrelinhas, como referiste :)
      não te preocupes com o teu conto. não faço ideia do texto, ainda. penso num conto de cada vez e agora é a vez do número 3 (rimei). e é uma brincadeira, não fiques ansioso. :)

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    2. Margarida... Adorei. Acho que em 250 palavras está tudo o que o título pede. E ainda fiquei com um certo gosto a século XIX na boca. Acho que nunca te vi escrever algo de teor tão clássico. Props! :)

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    3. obrigada, Silvestre. :)
      (e só agora vi ali em cima uma gralha, é «por» e não «com»...)

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  3. É preciso ter imaginação. Gostei. Um dia reúnes todos os contos num livro. :)

    beijinho.

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  4. Está muito giro! Fez-me recordar os "Velhos do Restelo"! ^^
    Beijinhos :3

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    1. achei-o divertido :) só faltou acrescentar o castão de prata à bengala, mas já não tinha palavras ;)
      bjs.

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  5. Muito bom!
    Não explicas o significado das palavras do título, mas ainda assim ficamos com uma ideia do que significam :-)

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