quinta-feira, 5 de novembro de 2015

O conto do Mark

   Enquanto os cães se demoram.

   O tapete do corredor abafa o ruído dos seus passos. Só a chuva se ouve. Na ombreira da saleta, detém-se e observa-a. Mirrada, há muito que a sua grandiosidade desaparecera. Agora, está afundada num cadeirão antiquado, um pouco mais velho do que ela. O seu queixo pontiagudo pousa num peito liso, oculto pelo xaile de lã.
   De olhos fechados, respira muito devagar, como se estivesse a dormir. Mas, tal como ele, escuta a chuva a tamborilar nas vidraças.
   Vê a sua vida a passar por detrás das pálpebras fechadas quase transparentes. E aguarda. Não vai demorar.
   Por fim, solta um longo suspiro, como se lhe desse permissão para entrar. Então, ele aproxima-se devagar e, gentilmente, passa a mão pelo seu cabelo branco do alto da cabeça. Ajoelha-se à sua frente, mas teme que os frágeis ossos se quebrem em inúmeros pedaços e não coloca a cabeça naquele delicado colo. Mantém-na no ar, os olhos rasos de água, e sente a vida prestes a desmoronar-se.
   Ela abre os olhos, levanta a cabeça e sorri-lhe. Apazigua-o com o olhar terno. A custo, ergue um braço esquelético, tapado por um tecido escuro de seda; ele repara que no magro pulso está a pulseira de ouro que lhe oferecera no último aniversário.
   E, enquanto os cães se demoram à porta pela derradeira vez, ela pousa a mão na testa dele e o abençoa.
   Um último sopro de vida sai-lhe dos lábios engelhados. A mão inerte tomba para o lado.

17 comentários:

  1. Jasus!!! Adorei :)

    Levas-nos mesmo a viver as palavras e sentimentos

    Muito bom mesmo

    Beijinhos

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  2. wow, Margarida. Poderoso!

    Comoveu-me imenso, por todas as razões, as mais óbvias e as menos óbvias.
    E toda a narrativa está construída com uma precisão de neurocirurgião. E tem o seu quê de gótico, que lhe fica tão bem. Gótico e emocional, é uma mistura muito complexa e difícil, mas que o conto consegue em pleno.

    Parabéns: é, até agora, o melhor desta série (na minha opinião humilde, claro). E parabéns ao Mark, que ganhou um conto extraordinário.

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  3. Um conto forte e bastante emotivo. Fatal, como a vida.

    Obrigado, Margarida.

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  4. até fiquei de lágrimas nos olhos, Margarida. Que misto de sensações.
    Parabéns

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    1. puxa :) estão todos de acordo. combinaram? ;)
      obrigada.

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  5. Margarida, eu bem sei que são contos, este que li fez-me lembrar a minha avó, e por mais estranhas que sejam as ligações que nos ligam e nos distanciam, acabei de ler o post do Mark em que falei sobre as idas ao cemitério à campa a minha avó e agora venho ao teu e leio o conto que escreveste com base na ideia dada por ele. Diria que é uma espécie de 2 em 1, estranha, e que me fez fechar os olhos quando terminei de ler o teu conto, pois muita vez deita a cabeça no colo da minha avó e muita vez sequei-lhe o cabelo branco na sua etapa de vida, o seu último sopro não o senti, mas está gravada na memória o último beijo que lhe dei.

    Este teu conto é o que mais me tocou, fez-me pensar, e encher os olhos de lágrimas.

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    1. de cada vez que escrevo uma história, inspiro-me na realidade. claro que já aconteceu a pessoa não se rever no conto. e eu fico um pouco apreensiva com isso. de outras vezes, fico muito tempo a pensar no primeiro parágrafo e o título não é muito fácil. foi o que aconteceu com o conto do Mark. não encontrei outro tema para este título. agora, não sei se era o que o Mark estava à espera. é sempre uma incógnita. com alguns títulos, consigo perceber à primeira, noutros, não. e este ano, há muitos assim, o que é um tremendo desafio.
      e há temas recorrentes, não consigo fugir deles.

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    2. Margarida sabes que estás de parabéns e este teu comentário diz muita da forma como escreves e a forma como lês as pistas que te dão.

      Não fujas dos temas recorrentes e dá asas à liberdade quando conseguires, é essa a tua maior vantagem :-)

      Bom fim-de-semana.

      Bjs

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    3. obrigada, Limite.
      bom fim-de-semana.
      bjs.

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  6. Este conto está particularmente bonito e especial. Também me fez pensar numa avó e no seu reencontro final com um neto, há muito esperado. Muito lindo. :3

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  7. Tomara eu ter tido essa oportunidade :) Gostei muito :) Mais uma vez (odeio repetir-me lol)

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