quinta-feira, 12 de novembro de 2015

O conto do No Limite do Oceano

   Meu Prozac e a avezinha

   Como um objecto que acaba por ser esquecido, guardado no fundo de uma gaveta, o tempo encarregara-se de enterrar a dor. Muitos anos se passariam até voltar a senti-la.
   Um dia, estava a caminhar num campo e reparei, ao longe, em três crianças ajoelhadas em frente a uma árvore. Curioso, aproximei-me e, de súbito, ela emergiu como uma erupção vulcânica.
   Dois rapazes enterravam uma pequena caixa de cartão, um féretro níveo manchado por dedadas castanho-escuras; com as mãos, tinham escavado um buraco. Reparei que nos dedos magros e sujos de uma menina, que soluçava, uma pequena coleira cinzenta oscilava, o seu movimento como que a marcar o ritmo dos soluços.
   Num episódio semelhante, um jovem, um pouco mais velho do que aqueles rapazes, soluçava ajoelhado junto a um monte coroado de folhas verdes e galhos entrançados. De um ramo mais resistente, espetado em cima, uma coleira e uma trela azuis assinalaram aquele sofrimento, balançando com uma súbita rajada de vento.
   Fechei os olhos, triste; ao abri-los, encontrei as crianças abraçadas e a chorar em silêncio.
   Depois, afastaram-se de mãos dadas e, à frente delas, o sol brilhou, num magnífico céu azul sem nuvens.
   Aos poucos, as três figuras douradas esbateram-se. Uma imagem solar irrompeu, afastando a dor e aquecendo-me naquela tarde outonal: um jovem Prozac contemplava, com a cabeça um pouco inclinada e as patas empoleiradas no parapeito da sala, um pequenino melro suspenso num abeto do jardim, no longínquo Verão dos meus treze anos.

16 comentários:

  1. Muito bom, sempre divinal e uma escrita maravilhosa ;)

    Beijinhos

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  2. muito bem Margarida.
    muitos fortes os contos, bravo

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    1. obrigada, Miguel.
      tu, o Mark e o Limite passaram por um período difícil ultimamente. não é fácil fugir desse tema, pelo que o repeti (e já o tinha referido num comentário anterior do Limite).

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  3. Margarida li o conto ontem e não sabia bem o que comentar, e mesmo hoje não sei bem. Gostei muito mesmo :-) :-) :-) acho que deves de saber que não foi por acaso que dei-te essas 5 palavras. Inicialmente a minha ideia era dar-te as palavras e depois escrever uma espécie de prequela ou sequela do teu conto, mas o teu conto é intocável, não irei fazer isso.

    Não sabia o que contar, passou-me pela cabeça que fosses pegar nas palavras a criar uma fábula mas deste volta à minha ideia sem saberes qual era e "matas-me" com a seguinte frase "um jovem Prozac contemplava, com a cabeça um pouco inclinada e as patas empoleiradas no parapeito da sala, um pequenino melro suspenso num abeto do jardim"...o Prozac é o meu filho canino, e por vezes quando a minha mãe anda dum lado para o outro ele fica com uma expressão de espião, sempre ao olhar para ela, a ver onde ela vai, e se for à rua ele também quer ir. E quando isso acontece, inclina um pouco o pescoço e até parece que os olhos aumentam de tamanho.

    Aqui tens a chave das 5 palavras: o Prozac é o meu filho canino e a avezinha a minha mãe. E OBRIGADO :-)

    Em 2016 lanço-te eu um desafio, e esse é em dose tripla :-p

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    1. obrigada, Limite.
      não fazia ideia dessa explicação, como é óbvio.
      apenas segui a minha linha de pensamento, «inspirada em factos reais».
      que o prozac ainda viva durante muitos anos, com os seus enormes olhos de espião :)
      pois, não sei se irei continuar esta série. a ver vamos. mas, se ainda cá estiver, se puder, irei responder ao teu desafio.

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    2. Ohhh Margarida, tens que estar :-p senão faço uma petição!!! Hoje vou ler o teu conto cá em casa :-)

      Bom fim-de-semana :-)
      Bjs

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    3. :D uma petição!
      vais ler à tua família? :o espero que gostem.
      bom fim-de-semana.
      bjs.

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    4. Estava em falta com + umas palavras, é que contei este teu conto aos meus pais e já sabia que iriam gostar muito e o pormenor do Prozac estar com a cabeça um pouco inclinada faz toda a diferença, pois sabemos as vezes que ele o faz e porque razão o faz, faz toda a diferença.

      O meu pai quer contribuir com um titulo de 5 palavras para o teu desafio mas ele é pior que eu, é capaz de encontrar o titulo que lhe diz muito e tu irias ficar a pensar. Talvez se esqueça mas porque ele há muitos e muitos anos escreveu poemas, talvez publique um que escreveu e que diz que "sinto quando minto...". Um desafio para mim, para lhe perguntar se posso.

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    5. força. escreve o título nos comentários do post do Bette Davis, mas só estará pronto em fevereiro.
      estou curiosa pelas palavras do teu pai e aproveita para enviar aos teus pais o meu abraço e o meu agradecimento :)

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  4. Há muito do Limite neste conto. Acertaste em cheio. :)

    um beijinho.

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    1. há? às vezes, Mark, acho que é uma tremenda coincidência eu tocar naqueles 'pontos'. não acredito muito na minha sensibilidade. tenho receio de chegar longe de mais.
      bjs.

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  5. Para não ser dissonante... mas não posso ser de outra foram: gostei muito. E também revi (como o Mark) muito do Limite neste texto. Parabéns Margarida :)

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  6. Texto maravilhoso! ^^
    Parabéns!
    Tens uma surpresa lá no blog:

    http://myphantanilus.blogspot.pt/2015/11/as-cartas-do-mikel-311-pt-eng.html

    Beijinhos :3

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