quinta-feira, 19 de novembro de 2015

O conto do Ribatejano

   Leva contigo o meu coração

   Devagar, como se estivesse a arrancar pedaço a pedaço, o coração, rasgo as folhas do calendário pendurado atrás da porta.
   O som do picotado ecoa na enorme cozinha; ressoa-me nos ouvidos como uma serra a desmembrar-me. Tremo convulsamente. Escorrego para o chão, as pernas tortas, os braços pendentes, sou uma marioneta desengonçada.
   Deslizo uma mão e apanho uma folha. O mês é Março. Tinhas marcado com um círculo a caneta de feltro verde, a tua cor preferida, a data do nosso aniversário. Seria o terceiro, a vinte e um. Vinte e um era o meu número da sorte. Até agora.
   Sinto uma dor lancinante no peito e não consigo prender as lágrimas. Soluço sem parar, estupidamente abandonado, zangado. Bato com os punhos na tijoleira, como cheguei a este estado, pergunto-me, feito em frangalhos.
   O cão aproxima-se de mim. Olha-me com os seus grandes e tristes olhos, as orelhas em baixo, estende uma pata e afaga-me um joelho.
   Numa tarde de sábado chuvosa, naquele mês de Março, apareceste à porta com o cão nos braços. Tinhas encontrado, disseste, tremendo de frio, o pobre animal abandonado na estrada.
   Acolhi-vos sem reservas. Nunca fora tão completo, tão feliz, a casa cheia de vida, gargalhadas, latidos, olho para as pernas da mesa roídas, lembro-me dos chinelos que te oferecera nesse natal, duraram um dia, eu gritei com o cão, tu fizeste-lhe festas e desculpaste-o, eu desisti, vencido.
   Três anos depois, deixas-me o cão e levas contigo o meu coração.

13 comentários:

  1. Muito bom, já começo a ter dúvidas em decidir pelo melhor texto

    :)

    Beijinhos

    ResponderEliminar
  2. A-D-O-R-E-I! Os contos mais "sentimentais" conquistam-me facilmente e este, não foi excepção. Parabéns.

    ResponderEliminar
  3. ah, bem feita pró Nelson, que se arma em durão e leva aqui um belo conto, directo ao coração :)

    (estou a brincar, é claro; o conto é belíssimo, e o Nelson merece)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. :) quem arrisca em dar um título, tem surpresas...

      Eliminar
  4. Margarida este teu texto grita, as palavras assim o exigem. Gostei muito!

    ResponderEliminar
  5. Os teus contos são muito emotivos. No meu entender, um bom conto deve apelar às nossas emoções. E é isso que fazes. :)

    um beijinho.

    ResponderEliminar