quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

O conto do Horatius

   Dói-me o dedo mindinho

   A criança só parou de chorar junto ao moinho. O moleiro tirou a boina, limpou o suor da testa e voltou a colocá-la na cabeça. Abriu a porta e entraram.
   O menino fungou e sentou-se no chão, a um canto, de pernas encolhidas e com o queixo pousado nos joelhos.
   - Sabes que tens de ir para a escola – o homem puxou um pequeno banco de madeira e sentou-se ao seu lado.
   - Aqui aprendo tudo – olhou-o com os olhos ainda húmidos e vermelhos. Estendeu-lhe uma mão rechonchuda fechada. Abriu-a um pouco e um fio de farinha deslizou para o chão. Espalmou o montinho, rabiscou algo e apagou-o de seguida com um gesto rápido.
   Enquanto espalhava a farinha de um lado para o outro, fixou o olhar nas costas um pouco curvadas do avô, que se tinha levantado e começado a trabalhar.
   Momentos depois, o avô sentiu-o ao seu lado. Olhou-o e reparou que apertava uma mão junto ao peito.
   - Dói-me o dedo mindinho – a criança murmurou.
   - Como te magoaste? – pegou na mão e viu um fiozinho de sangue.
   - Bati na pedra.
   Ele tirou o lenço da algibeira, enrolou-o na mãozinha, atou-o, e, com um gesto brincalhão, despenteou o menino.
   O petiz colocou os bracitos à volta da cintura do avô. Assim ficaram um longo tempo, um moleiro, de mãos vermelhas e dedos calejados, e o seu neto, com um rasto de farinha nos caracóis negros e uma ferida já esquecida no dedo.

22 comentários:

  1. Gostei. A prática também traz sabedoria.

    ResponderEliminar
  2. adorei.
    adorei a forma como deste completamente a volta ao título, que era um dos mais difíceis.
    adorei o tom um pouco a livro de instrução primária (da minha: a Moleirinha, do Guerra Junqueiro).
    adorei a maneira como pegaste nestas coisas todas (o título complicado, o tom retro da história) e criaste uma história que é tua, como sempre.
    adorei os pormenores, é uma das coisas de que gosto na literatura e que tu usas tão bem (deus está nos detalhes, não é?) quer para dar verossimilhança à história quer para "meteres" os destinatários dos contos.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. eu tive o papu na primária. sim, podia fazer parte do papu 3 :)
      deus está nos detalhes é a melhor descrição, obrigada.
      apesar de ser um desafio longo, dá-me oportunidade de apurar a escrita e encontrar o 'meu' jeito.
      os meus contos têm algo de real, recordo-me de o Horatius mencionar um senhor de idade. seria o avô? sei que gosta de moinhos, isso sei :)

      Eliminar
  3. Não sei se o Horatius tinha caracóis quando pequeno, mas poderia bem ser o petiz.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O Horatius nunca teve caracóis, mas teve uma grande trunfa de cabelo, apesar de hoje estar a ficar careca... Lol

      Eliminar
  4. :-) Quando acabei de ler só via a cara do Horatius à minha frente, e de uma forma genial com base na titulo dele escreveste um bonito conto que a meu ver tem tudo a ver com o blogger em questão...pois aqui no campo há quem magoe o dedo mindinho!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. :-p estava mesmo a falar do Horatius lol.

      Eliminar
    2. eu percebi, mas brinquei com o título do seu blogue :)

      Eliminar
  5. Adivinho uma compilação de contos para 2016. :)

    um beijinho.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. eu apoio a ideia do Mark. acho mesmo que é imprescindível uma colectânea de contos. até já tenho título: 250 palavras para bette davis :)

      Eliminar
    2. como referi, não faço mesmo questão, mas se se proporcionar, tudo bem. A capa ficaria por conta do Namorado, como escrevi num post algures.
      mas, de facto, estou demasiado cansada para pensar seriamente nisso.
      agradeço o incentivo e todas as vossas palavras positivas :)

      Eliminar
  6. Apresar de estar a ler os contos por ordem, fiz batota e vim ler o meu antes dos outros que tenho em atraso. Tem um significado maior por ser lido hoje, Dia de Natal! Sinto que ele está moldado a mim como uma luva, ou o sangue de moleiro não me corresse nas veias...Muito obrigado Margarida! Não tenho palavras para agradecer e exprimir o quanto gostei!
    Uma beijoca grande e repenicada :-)

    ResponderEliminar