quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

O conto do Mikel Shiraha

   Palavras Cruzadas, Destinos Cruzados

   Sobre o tapete puído da sala, está uma velha mesa quadrada castanho-escura; o homem, sentado no banco, não levanta a cabeça. Uma caligrafia redonda, delicada, enche uma página de papel azul vincada ao meio; ao lado, um envelope imaculadamente branco, sem remetente, está aberto. Encontrara a carta minutos antes debaixo da porta da entrada.
   Segura a folha com a mão direita e fixa o olhar, a respiração abranda a pouco e pouco, as letras esbatem-se.
   A claridade do meio da manhã é substituída pelo entardecer. Um menino escreve numa folha pautada do caderno da escola. Tem a cabeça levemente inclinada para o lado esquerdo, a testa franzida de concentração. Pede, não presentes, nem doces, nem um casaco novo que o seu já estava curto nos braços, mas as luvas tricotadas pela avó ainda tapavam o frio; pede, sim, que ela regresse a casa com saúde, ela e o seu riso, era tão bom ouvi-la a rir, a casa está tão silenciosa e fria, a avó longe que, para a visitar, um bocadinho apenas nas tardes de domingo, tem de atravessar um grande corredor de cor verde-clara a cheirar a desifectante.
   O menino pede com tanto fervor, escreve com tanta força que o papel rasga.
   No tampo da mesa, fica gravada a palavra «amor», a mesma que remata aquela carta anónima, com um traço mais comprido no último «r», como uma pequenina onda que se transforma numa vaga, inunda a sala e submerge o homem nas recordações.

12 comentários:

  1. Muito bonito!! Gostei especialmente de "om um traço mais comprido no último «r», como uma pequenina onda que se transforma numa vaga, inunda a sala e submerge o homem nas recordações." porque o "jogo" de palavras funciona na perfeição e acho que o Mikel vai adorar o teu conto!

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    1. espero que sim. a sua avó esteve doente há tempos, mas, aqui, está muito de mim e de uma visita que nunca esqueci à enfermaria do velhinho hospital de Viseu, onde estava a minha avó.

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  2. Nota 20, quanto a mim o melhor texto escrito até agora e que nos Traz o Mikel ao pensamento

    Parabéns aos dois :)

    Beijos e abraços

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  3. Obrigada Margarida pelo lindo texto que escreveste referente a esta avó e ao meu neto que tanto amo! Não te conheço pessoalmente, mas já sei muito de ti, pois o meu neto contou-me a maneira carinhosa como o trataste e como foste gentil com ele, desde que o conheceste, por isso ficaste também no meu coração. Não sei se sabes, mas eu também sou do distrito de VISEU! Gostaria de te conhecer se quiseres e puderes. Podias vir ate cá, conhecer esta conterrânea. Serás recebida com todo o carinho que esta avó te pode dar. O meu Bem hajas.

    Beijinhos,

    Avó do Mikel

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    1. olá, Maria Rita :) ainda bem que gostou. e não me vou esquecer. para o próximo ano, conto ir ao Porto em férias. aceito, com todo o prazer, o seu convite. :)
      bjs.

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  4. O conto está muito bonito! Gostei imenso da forma como jogaste com as palavras! A minha avó também adorou, ao ponto de ter-te enviado um comentário ela mesmo. :)

    Beijinhos :3

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    1. fico muito feliz por terem gostado :)
      bjs.

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  5. Olá Margarida!
    Comecei hoje a visita natalícia aos vizinhos e velhos amigos do blogobairro, para desejar Festas Felizes e um ano de 2016 mesmo MUITO BOM! E, já agora, dizer que já sentia muitas saudades de ler os seus belos textos.
    Beijinho e até beve

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    1. olá, Carlos! espero que esteja bem melhor :)
      obrigada. Boas Festas e desejo-lhe tudo de bom.
      :)
      bjs e até breve.

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  6. Feliz Natal Margarida! Espero que passes esta quadra junto das pessoas que mais amas e estimas! ^^

    http://myphantanilus.blogspot.pt/2015/12/conto-de-natal-blogosferico.html

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