quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

O conto do Rui Alex

   No livro guardo a ilustração

   Estendo o braço. O rapaz, embrulhado num xaile de lã, aceita-o com uma mão a tremer. Baixa a cabeça, segurando as lágrimas e aperta-o junto ao peito. Ao seu lado, a senhora abraça-o com ternura. Devagar, puxa-o, agarra na minha lapiseira que estava sobre a mesa, aproxima o candeeiro a petróleo, regula a chama, examina-o e assinala uma vinheta com uma cruz. Brinda-me com um sorriso e passa-o ao velhinho. Ele debruça-se sobre a página, com os óculos na ponta do nariz, levanta a cabeça, confuso, e volta a incliná-la. Estende o braço e o jovem agarra-o, vira a folha e observa a tira com a cena dos rapazes nas escadas. Emocionado, lê baixinho o poema que estava num balão e olha para mim, agradecido. O homem sentado no sofá em frente agarra-o antes de cair ao chão. Dá uma ligeira cotovelada no amigo ao seu lado, enquanto aponta para vinheta que mostra a mesa do restaurante junto a uma janela sombreada pela chuva. De repente, uma bengala cai estrondosamente no soalho. O snob arrebata-o das suas mãos com um gesto violento. Observo-o a procurar o desenho, até que o atira para cima do sofá e sai da sala, carrancudo. O cão, então, estica uma pata e tenta virar as páginas abertas; o dono puxa-o para o seu colo, pega nele e entrega-o, por fim, aos dois velhotes. Eles, como cinquenta anos antes, olham, cativados, para o cartaz da diva que ocupa a última página.

10 comentários:

  1. Não sei quem é o senhor Rui Alex, mas decerto gostará do conto. :)

    beijinho.

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    1. o Rui Alex é ilustrador, Mark.
      espero que sim :)
      bjs.

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  2. penso que percebi o que querias pôr no texto. mas há, ou pelo menos eu descobri-lhe eheh, uma outra leitura, uma sub-leitura, em que este é uma espécie de conto de todos os contos, como se fosse um programa, um guião, para esta edição da bette davis.

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    1. a primeira ideia que tive, logo que o RA deu o seu título, tinha o ilustrador a folhear um livro de banda desenhada que publicou, com cada uma das histórias atrás escritas. depois, pensei que seria mais interessante as personagens interagirem, o livro ser o fio condutor entre elas.

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  3. Não sei se a palavra "nostalgia" tem alguma coisa a ver com o texto e com a tua ideia mas de qualquer forma foi o que senti quando li o teu conto. :-)

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  4. Gostei muito, obrigado :)
    E, sabes, isso é algo que imagino sucessivas vezes quando termino as minhas pequenas BDs e deixo-as partir para as mãos dos leitores. Vejo as personagens reunidas, dando-me passa-bens, agradecidas pelas suas existências, como pessoas reais que gostam de ver os seus rostos reconhecíveis no papel.
    Talvez seja uma tolice, mas parece-me que não sou o único? :)

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    1. :)
      lembro-me de uma vinheta de homenagem a Carl Barks. ele está sentado ao estirador e do lápis saem as suas personagens mais famosas.
      (adoro o CB, claro :))

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