domingo, 27 de setembro de 2015

O conto do Ricardo

   Se o amor acontecesse


   Fora há doze anos.
   Tinham-se conhecido no trabalho. Departamentos diferentes, três andares de distância, encetaram uma conversa de circunstância num dos elevadores. “Cheguei na semana anterior”, respondera a uma pergunta mais curiosa. “Ainda não conheço muita gente”. Nesse mesmo dia, ao fim da tarde, voltaram a encontrar-se à porta do escritório. Sorrisos de reconhecimento, casacos apertados, os dias começavam a arrefecer, um cachecol fora enrolado, uma gola do casaco levantada.
   Lembrava-se de todos os pormenores, de como caminharam sem destino durante muito tempo, de como a conversa acabava de repente e um silêncio, que começava a ser familiar, se instalava entre eles, enquanto se iam afastando do centro.
   Anoiteceu devagar. Os candeeiros da rua acenderam-se, o trânsito tornou-se mais intenso. Hora de ponta. A um dado momento, declarou que era a altura do dia que preferia, quando as pessoas se apressavam para chegar a casa. “Sinto-me a nadar contra a corrente, como o salmão a subir o rio”. Riram.
   Depois, sem saber como, tinham parado à porta daquele pequeno restaurante. Entraram, sentaram-se numa mesa junto à janela e jantaram.
   Sete meses depois do primeiro encontro, a pergunta interrompeu um dos muitos silêncios que habitava entre eles desde o início.
   “O que farias, se o amor acontecesse?”
   Nunca tinham discutido o assunto e ficou surpreendido com a pergunta. Não ousou responder logo. Olhou pela janela a rua deserta. Chovia nessa noite, uma chuva puxada a vento, que batia no vidro sem cessar. Comoveu-se.
   “Caminhava”, murmurou, por fim.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Bette Davis 2015


   Está aberta a 4.ª edição do Bette Davis. Quem quiser participar, só tem de me dar um título até 5 palavras e eu escreverei um micro-conto com 250 palavras, incluindo o título. A caixa de comentários é vossa.

domingo, 20 de setembro de 2015

Para Além das Montanhas


   Através de um monólogo pungente, sofredor, carregado de amor, um imenso amor por um irmão doente, por onde pulsam as recordações, 'Para Além das Montanhas' transporta-nos para uma terra no nordeste de Portugal, para outros tempos, para um lugar onde desliza um rio, para um milheiral, para uma casa velha, pobre, para trabalhos duros, para uma vida, afinal, difícil de gente simples, para dois irmãos inseparáveis, para uma avó sábia e protectora.
   Um romance rico em palavras e expressões típicas, em descrições que me fizeram recordar a infância, a aldeia, para aquele tempo em que, mesmo na dificuldade, fui feliz.
   O autor, Ricardo, é filho da minha amiga Lídia. Obrigada ao Ricardo pela dedicatória e à Lídia pela generosa oferta.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Quarenta e dois

   Sentou-se numa fila de três cadeiras, na ponta esquerda e retirou o livro da mala. O auditório estava, ainda, quase vazio, apesar de faltarem poucos minutos para a hora marcada. Minutos atrás, cumprimentara um director de serviços, uma assessora e umas quantas funcionárias das relações públicas. Relações públicas não seriam as palavras apropriadas, pensou, no instante em que mal recebera sorrisos das funcionárias. Não seriam antipáticas, mas afastaram-se dela momentos depois. Segundos para receberem os convidados, de sorrisos plásticos e dedos frios. Frios mas de unhas revestidas a verniz de gel, como está na moda. Cronometrariam os segundos consoante os convidados? A sua recepção não durara mais do que cinco.
   Sentada, virou a cabeça para a direita e reparou nas unhas. A funcionária voltava a receber os convidados, mas perdia mais tempo com aquele grupo. Seria dela. Olhou para as suas próprias unhas, curtas, uma cutícula inflamada, a do indicador esquerdo. Roera uma pele. Pensou numa colega de um curso que fizera meses antes. «Seria incapaz de usar dedos carecas.», dissera ela, num almoço qualquer. «Dedos carecas e andar no rés-do-chão.» A colega usava sapatos de salto alto e era tão alta como ela. Mas falava muito mais do que ela, enquanto olhava os colegas lá do alto.
   Ouvia pedaços da conversa do grupo. Era inevitável, estando tão próximo dela. Falava-se de Atlanta. Uma convidada conversava com o Presidente do instituto, sabia quem ele era, claro, embora nunca o tivesse cumprimentado. Que tinha muita pena em faltar ao congresso que o instituto estava a organizar, mas o de Atlanta realizava-se exactamente, mas exactamente nos mesmos dias que o nosso. E já se tinha inscrito. «Claro que o nosso tem uma qualidade superior, basta ver o elenco.», ouviu. Elenco, pensou. Parecia que estava a falar da telenovela das nove. Ergueu a cabeça do livro aberto nos joelhos e viu a convidada de costas. Calças de ganga, marca igual à que vestia, um número maior do que o seu, sem dúvida. Um número 42 a caminho de Atlanta. Qual seria a conversão da roupa nos Estados Unidos da América?

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Festa da Amizade

   Domingo, 12h (mais ou menos). Tinha combinado com o Francisco que, da próxima vez que o Carlos (Limite do Oceano) regressasse a Lisboa, eu almoçaria com eles e dávamos 'uma volta' pela cidade. Bem, digamos que 'a volta' de ontem demorou umas cinco horas e calcorreámos uns 10 km, tendo começado na Casa dos Bicos e terminado em Sete Rios.
   Da Casa dos Bicos, subimos pela Rua da Madalena até ao Poço do Borratém, passámos na rua onde morei alguns anos, no início dos anos '90 (já lá não ia há muitos anos, as drogarias já não existem, nem os armazéns de atoalhados, muitas portas fechadas e vandalizadas, o armazém ruiu, só ficou a fachada, há mini-cafés, alguns prédios antigos restaurados, menos mal, apontei a casa onde morei, ali, 2.º andar (restaurada, agora, no 'meu tempo' era muito velha), ela chamava-se D. Alice, ele, Sr. Fernando, naquela altura tinham quase idade para serem meus avós, ele era reformado do Porto de Lisboa, ela, doméstica. Nunca mais soube deles. Há alguns anos, encontrei o Sr. Fernando na rua e disse-me que tinha ganho a lotaria, 50.000 €, e ajudou a filha a amortizar parte do empréstimo da casa (vivia na linha de Sintra, chamava-se Fernanda, a filha, e trabalhava, naquele tempo, na Sorefame). Confesso que esta parte da conversa ficou por dizer ontem. Fica o registo. Depois deste quarto, arrendei uma casa, também um segundo andar, pequeníssimo, na Mouraria, por coincidência, relativamente perto da antiga casa, no outro lado da Praça do Martim Moniz, junto à Rua do Benformoso. A Vila onde morei continua em mau estado, mas os prédios ao lado receberam obras e a calçada está mais bonita. O cheiro a especiarias também é mais notório agora que há vinte anos. Continuámos a subir, devagar em dia de calor, e parámos, finalmente, no Largo da Graça. A fome já apertava, estávamos cansados e cheios de sede. Procurámos um restaurante barato para almoçar e encontrámos um café que servia refeições, bem em conta. Sopa de nabiças, deliciosa, filetes com arroz de feijão, escalopes, alheira, batatas fritas caseiras, redondas, muito bem servido, água com fartura e a cereja no topo do bolo foi uma dose extra-gigante, 'é para acabar', de molotof. Quando regressei à mesa, depois da refeição, estava um prato com mais ou menos meio molotof. Repartido a régua e esquadro - pronto, a olho, mas tentou-se :p - por três - o Francisco comeu do prato e eu ajudei a rapar o caramelo :D . Chegada a conta, foi cobrada apenas uma dose de molotof, a tal 'é para acabar'. Claro que deixámos uma gorjeta, chegou para pagar as duas doses de sobremesa, saímos e seguimos viagem. Ao fundo, à esquerda, visitámos o Miradouro da Senhora do Monte, regressámos ao largo, fomos até à Vila Berta, depois, à Vila Souza e parámos no Miradouro da Graça. Descemos até ao Panteão, mas não entrámos, e acabámos esta volta na Estação de Santa Apolónia. Engraçado, não há muitos dias tinha passado por lá :p
   Como ainda faltava algum tempo para o Carlos apanhar o expresso em Sete Rios, resolvemos ir até ao jardim da Gulbenkian. Metro linha azul e uns minutos depois o Francisco colocou o seu francês à prova - e muito bem - com uns turistas no metro de S. Sebastião. Iam para a Gulbenkian. Passámos o CAM e embrenhámo-nos no belo jardim. Terminámos a passeata em beleza com gelados da gelataria do Centro Interpretativo, alfarroba, amendoim, oreo, conversa e fotos, muitas, para mais tarde recordar.
   No último dia do Avante (para o ano há mais, fui lá sexta e sábado), preferi passá-lo com estes meus amigos muito especiais. Conheço o Francisco há mais de dois anos, o Carlos há poucas semanas, são bons rapazes, e a eles dedico este vídeo (a versão curta do documentário 'Kora' passou no Cineavante - porque a Festa é mais que concertos e eu adorei a música do kora e só me apetece ouvi-la sem parar).



Trailer 1 Documentário Kora from Jorge Carvalho on Vimeo.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Com um brilhozinho nos olhos

   A Lídia e eu tínhamos combinado um almoço com o Miguel há uns tempos. Convidei o Mark, que não conhecia a Lídia, e ontem, finalmente, almoçámos os quatro. O Miguel e a Lídia não se viam há bastante tempo e reuniram-se mais cedo.
   Eu fui ter com eles à hora do almoço. Tínhamos combinado mais ou menos um ponto de encontro, na Rua Marquês da Fronteira, no Bairro Azul. Mal eu subi as escadas do metro de S. Sebastião, avistei o Mark e, segundos depois, ouvi chamar por mim. Era a Lídia e o Miguel, que estavam mais atrás.
   A conversa prolongou-se muito depois da hora do almoço. Fomos os últimos a sair da sala do restaurante. Não tínhamos planos, ou melhor, os planos que havia envolvia estarmos ainda juntos até à hora de o Miguel ir apanhar o comboio de regresso a casa.
   A felicidade é um dia como o de ontem.

   E com um brilhozinho nos olhos
   Guardei um amigo
   Que é coisa que vale milhões.