quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O conto do Francisco

   Quando eu menos esperava, apareceste…

   Preparava-me para sair do bar, quando alguém se sentou no tamborete de madeira ao meu lado, no balcão. Esvaziei o copo e, discretamente, olhei-o. Com um aperto de mão, cumprimentou o barman e pediu o costume. Um cliente habitual, constatei.
   Havia algo de diáfano naquele estranho, com o cabelo claro, a camisa branca, a pele pouco bronzeada, apesar de o Verão estar quase no fim.
   Sorveu um pouco da bebida e, de seguida, retirou de uma embalagem de cartão um objecto. Maravilhado, mostrou-o ao barman. Reparei que as suas mãos pálidas como que brilhavam ao segurar, com extrema delicadeza, aquela peça.
   Então, começou a contar a história, Estava a caminhar numa pequena rua, depois de uma reunião de trabalho ali perto, e parara diante da montra de uma loja de objectos usados. De uma parede, pendiam, quase até ao chão, uns pequenos focos, como uma silenciosa cascata de luz. E, em baixo, estava aquela peça. Ficou tão fascinado pela sua beleza que decidiu comprá-la naquele momento. E agora ali estava ela. Pousada no balcão profano e adorada como uma divindade.
   Era um singelo candeeiro a petróleo com uma base de metal dourado e uma chaminé delicadamente ornamentada.
   Interrompi-o. Disse-lhe que, quando era miúdo, acendera dezenas de vezes um candeeiro a petróleo exactamente igual àquele, na casa da minha avó.
   Depois da terceira bebida, confidenciei-lhe, já sentados numa mesa longe do balcão, que ainda o tinha em casa, em lugar de honra, em cima da cómoda.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O conto do Miguel

   São Pedro de Moel. Julho

   O livro fechado sobre a mesa, o lápis marcando a página com as frases que tinha sublinhado. Com o lenço bordado que guardava no bolso do vestido, limpava os olhos lacrimejantes que recebiam a humidade do oceano.
   Pedia-lhe, constantemente, que não estivesse tanto tempo na varanda, mas ao regressar, reparava sempre na sua figura, vagamente obscurecida pelo guarda-sol, a cabeça inclinada para baixo, com o livro no regaço. Ao lado, na mesa redonda de ferro, os companheiros daquelas tardes soalheiras: a chávena de chá, o bule e o solitário com a rosa vermelha que lhe trazia todas as manhãs.
   Suspirava, abanando a cabeça, derrotado. Por fim, entrava, largava displicentemente no sofá da sala a toalha e o jornal meio lido e aproximava-se. Inclinava-se, depositava um beijo na face levemente oleosa do creme protector e perguntava-lhe como tinha passado a tarde. Por instantes, a resposta acalmava-o. Então, arrastava a cadeira para o seu lado, o que lhe valia a única reprimenda do dia, quando levava uma branda palmada no braço. Mas fazia-o todos os anos, naquela quinzena de férias junto ao mar, como se precisasse daquela punição, uma brincadeira entre os dois que mascarasse a angústia que se agarrava a ele como as lapas nos rochedos das falésias.
   Naquele Verão, à medida que se aproximava, foram aquelas as imagens que lhe vieram à memória. Estacionou junto ao hotel. Saiu e caminhou pelo passadiço de madeira, em direcção ao farol, enquanto escutava, triste, o marulhar do Atlântico.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

O conto do João Máximo

   Loiras, ruivas ou morenas?

   “Nós, os desse tempo, ainda nos lembramos.”, declarou um velho, de repente.
   Tinham-se refugiado da chuva naquele bar. Ao balcão, estavam dois velhos e o empregado, quase tão idoso como eles, limpava um copo com um pano da loiça amarelo.
   Pediram dois finos e fizeram um sinal. As duas taças foram cheias. Os velhos olharam para eles e ergueram-nas numa saudação.
   “No dia da inauguração, há cinquenta anos, a casa estava cheia.”, prosseguiu. Um gole. Satisfeito, deu um estalido com a língua. “Tinham colocado uma grande faixa à porta três dias antes. Na data marcada, as pessoas acotovelavam-se à entrada, à espera que abrissem as portas, com os bilhetes na mão. Sentámo-nos na grande sala nova em folha. O proprietário fez um pequeno discurso sobre o inesquecível espectáculo que íamos assistir nessa tarde. Depois, pediu silêncio e afastou-se. Os cortinados foram abertos e a grande tela branca apareceu. Os meus olhos brilhavam de expectativa. Ao fundo, ouviu-se um ruído estranho e uma fina claridade surgiu no alto da sala. O filme tinha começado.”
   Escutavam-no, cativados.
   “Assim se inaugurou o cinema do bairro. A faixa continuou pendurada até ao fim do Verão. As palavras já mal se viam, desbotadas, mas ninguém se tinha esquecido do que anunciava”. O velho acabou de beber o vinho.
   O amigo suspirou e enleado naquelas recordações, terminou de olhos fechados:
   “Loiras, ruivas ou morenas? As grandes divas do cinema agora ao pé de si. Sessão inaugural no dia 21, às 16 horas.”

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

O conto do João Roque

   Eu fui à tua procura

   Foi num sábado à tarde, recordou-lhe, enquanto liam aquele poema, mais uma vez, embora o soubessem de cor, depois de tantos anos. E, de novo, contou como tudo acontecera.
   Tinha acabado de chover e resolvera sair de casa, andar sem rumo, como tantas vezes faziam os dois. Num jardim, descobrira, por acaso, uma feira de livros usados. Adorava passar os dedos pelas lombadas gastas, vincadas, abrir um livro, depois outro e outro.
   De um caixote periclitante sobre uma desconjuntada mesa de campismo, um detalhe que guardou na memória, decidiu-se por um pequeno livro de poesia. Uma edição de autor, de pequeníssima tiragem, produzida uns vinte anos antes. Devagar, passou as páginas e leu alguns pequenos poemas de amor. “Jovem poeta apaixonado”, pensou, após ler, na contracapa, as três breves linhas que compunham a sua biografia.
   Folheou-o até parar num poema com o título “Eu fui à tua procura”. De repente, o coração apertou-se, sentiu a boca seca, um desassossego. Quase sem dar conta, retirou umas moedas do bolso das calças, entregou-as ao vendedor e afastou-se. Nas mãos, segurava aquele tesouro, a cabeça inclinada para baixo, incapaz de afastar os olhos.
   As pernas levaram-no a um prédio conhecido. Tocou à campainha. Do intercomunicador, saiu uma voz rouca que tão bem conhecia. Com um zumbido, a porta abriu-se. Entrou.
   Encontraram-se a meio da escada. Retirou o livro do bolso do casaco, abriu-o na página marcada com um velho papel e, ali mesmo, leu-lhe aquela declaração de amor.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

O conto do Silvestre

O pernóstico capcioso vituperador


   Uma noite, à saída do restaurante, um homem velho, magro, de sobretudo escuro e laço ao pescoço, ergueu uma bengala à frente deles.
   “Péssima escolha.”, declarou, abruptamente, barrando-lhes a passagem. Apontou para o restaurante com a ponta da bengala. Depois, disse, com um tom altivo, que conhecia um clube de bridge com um óptimo serviço. “Os senhores seriam bem-vindos. Convido-vos.”
   Com a confiança de um homem que sabia dar ordens e ser obedecido prontamente, fixou-lhes um olhar astuto. Mantinha a bengala no ar.
   Olharam-no, emudecidos. O estranho interpretou como se fosse submissão.
   Um deles abanou a cabeça.
   “Lamento, mas acabamos de jantar. Estamos cansados. Mas podemos oferecer-lhe uma bebida rápida aqui”, respondeu.
   “É um lugar repugnante. Jamais entraria aí dentro.”, foi a resposta do estranho.
   Empertigado e agitando com maneirismos a bengala, viram-no afastar-se.
   Algum tempo depois, foram jantar ao mesmo restaurante. Recordaram-se do episódio estranho e perguntaram ao dono se conhecia o velhote.
   “Um louco que se julga um barão!”, exclamou. “Só porque, um dia, há alguns anos, não o servimos com o requinte que desejava. Isto é um estabelecimento familiar. De vez em quando, aparece por aqui. Engraça comigo e desgraça-me a casa, essa é a verdade. Espalha boatos na rua.”
   Por fim, acalmou-se e sorriu. “Mas os senhores gostam de cá vir”.
   Anos depois, continuam a jantar naquele restaurante. De vez em quando, ainda se recordam do barão que não era barão, do clube de bridge que não existia e trocam sorrisos cúmplices.