sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

O conto do Eolo

   O Destino Absoluto: Apocalipse

   Olhou-se ao espelho, dos lábios gretados aos olhos vermelhos, passando pelo nariz entupido e inchado. A cabeça latejava. Para terminar em beleza, notou a borbulha na testa ao passar com a ponta do dedo. Enorme, nem toneladas de corrector conseguiriam disfarçar.
   Tentou inspirar profundamente pelo nariz congestionado, mas sentiu uma tontura e apoiou-se no lavatório, de olhos fechados.
   Ao fundo, um barulho incessante de gargalhadas e diálogos de um filme manga; ouviu um grito estridente e imaginou as garras da gata fincadas na perna da vítima, o animal bufando, furibundo, com a cauda erecta como um espanador.
   Tenham piedade de mim, só quero sopas e descanso, pensou. Canja da mamãe, isso, sim, é que me sabia bem.
   Devagar, levantou a tampa da caixa e tirou o lápis. A mão tremeu-lhe; naquele estado, nenhum risco sairia direito, constatou. Nem para desembrulhar um presente teria forças.
   Afastou-se do espelho a tempo. O espirro obrigou-o a sentar-se na borda da banheira, as lágrimas escorriam-lhe pelo rosto, a base estragada. Minha santa Mac, acode-me, soluçou.
   Levantou-se e atirou a caixa para a gaveta, fechando-a com um gesto brusco. Suspirou, impotente. Era o apocalipse. Teria de os enfrentar assim mesmo.
   Assoou-se com força, mirou-se uma última vez e saiu do quarto-de-banho.
   Minutos depois, encontrava-se numa sala silenciosa, deitado no sofá com a cabeça no colo da mãe.
   Ela aconchegou-lhe a manta, inclinou-se e beijou-o na face húmida.
   - Feliz Natal – a mãe sorriu.
   Apertou-lhe a mão, grato, e fechou os olhos.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

O conto do Mikel Shiraha

   Palavras Cruzadas, Destinos Cruzados

   Sobre o tapete puído da sala, está uma velha mesa quadrada castanho-escura; o homem, sentado no banco, não levanta a cabeça. Uma caligrafia redonda, delicada, enche uma página de papel azul vincada ao meio; ao lado, um envelope imaculadamente branco, sem remetente, está aberto. Encontrara a carta minutos antes debaixo da porta da entrada.
   Segura a folha com a mão direita e fixa o olhar, a respiração abranda a pouco e pouco, as letras esbatem-se.
   A claridade do meio da manhã é substituída pelo entardecer. Um menino escreve numa folha pautada do caderno da escola. Tem a cabeça levemente inclinada para o lado esquerdo, a testa franzida de concentração. Pede, não presentes, nem doces, nem um casaco novo que o seu já estava curto nos braços, mas as luvas tricotadas pela avó ainda tapavam o frio; pede, sim, que ela regresse a casa com saúde, ela e o seu riso, era tão bom ouvi-la a rir, a casa está tão silenciosa e fria, a avó longe que, para a visitar, um bocadinho apenas nas tardes de domingo, tem de atravessar um grande corredor de cor verde-clara a cheirar a desifectante.
   O menino pede com tanto fervor, escreve com tanta força que o papel rasga.
   No tampo da mesa, fica gravada a palavra «amor», a mesma que remata aquela carta anónima, com um traço mais comprido no último «r», como uma pequenina onda que se transforma numa vaga, inunda a sala e submerge o homem nas recordações.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

O conto do Horatius

   Dói-me o dedo mindinho

   A criança só parou de chorar junto ao moinho. O moleiro tirou a boina, limpou o suor da testa e voltou a colocá-la na cabeça. Abriu a porta e entraram.
   O menino fungou e sentou-se no chão, a um canto, de pernas encolhidas e com o queixo pousado nos joelhos.
   - Sabes que tens de ir para a escola – o homem puxou um pequeno banco de madeira e sentou-se ao seu lado.
   - Aqui aprendo tudo – olhou-o com os olhos ainda húmidos e vermelhos. Estendeu-lhe uma mão rechonchuda fechada. Abriu-a um pouco e um fio de farinha deslizou para o chão. Espalmou o montinho, rabiscou algo e apagou-o de seguida com um gesto rápido.
   Enquanto espalhava a farinha de um lado para o outro, fixou o olhar nas costas um pouco curvadas do avô, que se tinha levantado e começado a trabalhar.
   Momentos depois, o avô sentiu-o ao seu lado. Olhou-o e reparou que apertava uma mão junto ao peito.
   - Dói-me o dedo mindinho – a criança murmurou.
   - Como te magoaste? – pegou na mão e viu um fiozinho de sangue.
   - Bati na pedra.
   Ele tirou o lenço da algibeira, enrolou-o na mãozinha, atou-o, e, com um gesto brincalhão, despenteou o menino.
   O petiz colocou os bracitos à volta da cintura do avô. Assim ficaram um longo tempo, um moleiro, de mãos vermelhas e dedos calejados, e o seu neto, com um rasto de farinha nos caracóis negros e uma ferida já esquecida no dedo.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

O conto do Rui Alex

   No livro guardo a ilustração

   Estendo o braço. O rapaz, embrulhado num xaile de lã, aceita-o com uma mão a tremer. Baixa a cabeça, segurando as lágrimas e aperta-o junto ao peito. Ao seu lado, a senhora abraça-o com ternura. Devagar, puxa-o, agarra na minha lapiseira que estava sobre a mesa, aproxima o candeeiro a petróleo, regula a chama, examina-o e assinala uma vinheta com uma cruz. Brinda-me com um sorriso e passa-o ao velhinho. Ele debruça-se sobre a página, com os óculos na ponta do nariz, levanta a cabeça, confuso, e volta a incliná-la. Estende o braço e o jovem agarra-o, vira a folha e observa a tira com a cena dos rapazes nas escadas. Emocionado, lê baixinho o poema que estava num balão e olha para mim, agradecido. O homem sentado no sofá em frente agarra-o antes de cair ao chão. Dá uma ligeira cotovelada no amigo ao seu lado, enquanto aponta para vinheta que mostra a mesa do restaurante junto a uma janela sombreada pela chuva. De repente, uma bengala cai estrondosamente no soalho. O snob arrebata-o das suas mãos com um gesto violento. Observo-o a procurar o desenho, até que o atira para cima do sofá e sai da sala, carrancudo. O cão, então, estica uma pata e tenta virar as páginas abertas; o dono puxa-o para o seu colo, pega nele e entrega-o, por fim, aos dois velhotes. Eles, como cinquenta anos antes, olham, cativados, para o cartaz da diva que ocupa a última página.