terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Wham!, uma pancada repentina. Autópsia a uma era que acabou

   No passado dia 19 de dezembro, a revista The New Yorker publicou este cartoon:

“Maybe cool it on the beloved celebrities for a bit.”


  Pois o dia 25 de Dezembro foi o 'Último Natal' de George Michael. Deixo um link de um interessante artigo do Sapo24: "Wham!, uma pancada repentina. Autópsia a uma era que acabou".

«Já toda a gente disse que este ano foi um massacre no universo da pop e do rock. No rock erudito – Bowie - no rock avant-garde – Prince – e no das baladas – Cohen. Faltava um símbolo do pop, esse rock dançante que substitui a intenção pela excitação....»

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

MacGyver

   Estou a ver o MacGyver na Fox enquanto passo a ferro; bem, já acabei, de modo que posso escrever este texto. Eu tinha uma queda, aliás, uma forte queda, pelo Richard Dean Anderson e, claro, pelo MacGyver, que escapava de tudo o que era sítio com um canivete e pastilha elástica. Não é má esta nova série, tem mais acção, o actor tem pinta, mas só há um MacGyver, o dos anos '80 e inícios dos '90 do século passado, Richard Dean Anderson.
   MacGyver era um herói discreto, solitário, auxiliado por um(a) ou outro(a) companheiro(a) em cada episódio, mas, essencialmente, trabalhava sozinho para salvar um país/cidade/instalação nuclear de não sei quantos guerrilheiros, ou terroristas, ou maus da fita, ou por aí. Nesta série, pelo contrário, MacGyver tem uns quantos colaboradores.
   E o nome? Na série original, só soubemos que ele tinha nome de raça bovina na vigésima quarta temporada. MacGyver não o dizia e ponto final. Era, apenas, MacGyver.
   Para terminar, deixo uma piada. Vou escrever tal como a recordo, com preguiça em pesquisar no Google, de modo que dêem um desconto, que já passaram não sei quantos anos desde que ma contaram.
 
   Como é que o MacGyver sai do deserto só com uma laranja?
   Separa a vitamina da laranja, na vitamina, separa a vita da mina, faz explodir a mina, que provoca um terramoto, separa a terra da moto, salta para a moto e lá sai o MacGyver do deserto.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Ludovico Einaudi

   Hoje, ao sair do trabalho, a caminho da estação de comboios de Roma-Areeiro, lembrei-me que, às quintas-feiras, o Pascal está a trabalhar na parafarmácia situada numa rua ao lado da Avenida de Roma. Há dois meses, à hora do almoço, recebi uma massagem sentada na cadeira, desde as costas, aos ombros, braços, mãos, nuca, pescoço, enfim, tudo o que estava a precisar, e senti-me tão bem que fiquei fã dele. Assim, desta vez, como tinha mais tempo e pouco passavam das cinco e meia, consegui fazer uma massagem sem marcação.
   Mas o melhor foi ele ter colocado, como música ambiente, o Einaudi, em vez de música zen. Eu era, apenas, a segunda cliente dele que tinha adivinhado o nome do compositor.
   Durante o tempo em que durou a massagem, mais de meia hora, e até ter comido alguma coisa no 'Vitta Roma', antes de ir para casa, tentei lembrar-me do primeiro nome do Einaudi. Leonardo, Federico? Associei ao Leonard Cohen e ao meu gato Fred, que agora são mais as vezes que o chamo de Frederico, mas, lá bem no fundo, sentia que não era o nome correcto. E claro que não era e, mesmo antes de me recordar que podia ter confirmado no telemóvel (tenho lá as músicas), veio-me à memória: Ludovico! Bem, foi uma junção daqueles dois nomes, lá pensei.
   E aqui fica, então, o Ludovico Einaudi (tive pena de não ter ido aos concertos, é verdade).



domingo, 20 de novembro de 2016

Adele - Million Years Ago (Efe Tekin Remix)


I only wanted to have fun
Learning to fly learning to run
I let my heart decide the way
When I was young
Deep down I must have always known
That this would be inevitable
To earn my stripes I'd have to pay
And bare my soul

I know I'm not the only one
Who regrets the things they've done
Sometimes I just feel it's only me
Who can't stand the reflection that they see
I wish I could live a little more
Look up to the sky not just the floor
I feel like my life is flashing by
And all I can do is watch and cry
I miss the air I miss my friends
I miss my mother I miss it when
Life was a party to be thrown
But that was a million years ago

When I walk around all of the streets
Where I grew up and found my feet
They can't look me in the eye
It's like they're scared of me
I try to think of things to say
Like a joke or a memory
But they don't recognise me now
In the light of day

I know I'm not the only one
Who regrets the things they've done
Sometimes I just feel it's only me
Who never became who they thought they'd be
I wish I could live a little more
Look up to the sky not just the floor
I feel like my life is flashing by
And all I can do is watch and cry
I miss the air I miss my friends
I miss my mother I miss it when
Life was a party to be thrown
But that was a million years ago

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Nobel da Literatura

Apenas coincidência, mas os últimos três livros que li são de autores galardoados com o Prémio Nobel da Literatura. Não foi propositado, tanto mais que dois livros foram emprestados pela Lídia :)

(e com isto tudo, já ultrapassei o desafio do GR.)

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Patrick Modiano - A Erva das Noites

   No desafio do Goodreads, tinha assinalado 40 livros para ler este ano, pois contava ler grandes (em número de páginas) edições, e, afinal, li pequenos livros, médios livros, um e outro calhamaço e um grande, grande livro (em quantidade e qualidade), mas em ebook e numa edição brasileira. Mas é assim, quando se gosta do que se está a ler, aproveita-se todos os minutos livres.


   O 40.º livro, o que completou o desafio do GR, foi a pequena jóia, o sublime 'Erva das Noites' (o título em inglês desvenda um pouco mais a história: 'O Caderno Preto'). Um pouco mais de 100 páginas, páginas boas, letra miúda, escrtito em folhas rijas, como deve ser um livro, numa edição da Porto Editora que eu tinha comprado ainda em 2015.
   É o segundo livro do Prémio Nobel da Literatura de 2014 que leio e é tão bom, tão onírico, tão bem escrito (e traduzido), que merece nova e demorada leitura; com Modiano, na verdade, a leitura tem de ser feita devagar, ao sabor da narrativa, absorvendo o ambiente e, como as personagens, flanando ao lado delas pelas avenidas, pelos bairros, ou sentando-se junto dela nos bancos dos parques ou dos jardins de Paris, esquecendo ou misturado estações do ano, tempos, passado e presente, em sonhos ou na realidade.

sábado, 22 de outubro de 2016

O jantar

   
(os all-star são meus :-P )



   Depois do Francisco, o Mark, o Limite e o Adolescente terem escrito sobre o jantar, faltava eu. Foi no passado sábado.
   Gostei muito, mesmo. Até tivemos sorte com o tempo, pois previam chuva e, afinal, esteve uma noite óptima.
   Resta agradecer ao Adolescente a ideia de retomar o jantar. Em princípio, estarei presente em novas edições (grande inquérito, Adolescente, mas respondi :-P )
   Um brinde!

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Nobel da Literatura

   A propósito da atribuição do Nobel da Literatura a Bob Dylan, passei o dia a lembrar-me de um post que aqui escrevi há uns bons meses, cujo excerto retirei do livro "A Velocidade da Luz", de Javier Cercas.

O post é este.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

7.º jantar anual de bloggers lgbt e simpatizantes


   Pois é já este sábado. A organização esteve a cargo do blogger Adolescente Gay. Mais informações, sigam este link.
   Eu estarei presente :-)

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Leonardo Padura - Mario Conde #3 e #4

   #3 - Máscaras:
   Um travesti vestido de Electra Garrigó é assassinado. Tendo como inspiração Virgilio Piñera (confesso, na minha humildade, que não conhecia), surge o velho Alberto Marqués, homossexual assumido, que abana os preconceitos do polícia Conde.
   Em longos capítulos, Padura descreve as várias facetas do travestismo, as máscaras, e, embora sendo importantes para situar o tema, acabam por tornar este livro, em parte, maçador.
   O que mais me agrada nestes policiais do MC não são, apenas, os casos de homicídio que o Conde tem de resolver; na verdade, os crimes são um empurrão para as histórias mais importantes, as paralelas: a amizade entre ele e o Carlos Magricela, as refeições extraordinárias da mãe do Carlos, as paixões do Conde, a crítica social ao regime de Cuba, o sonho do Conde em ser, finalmente, um escritor, um escritor melancólico, nostálgico, comovedor, é certo, e, claro, a escrita leve, com um traço de ironia, de Padura, não deixando, contudo, de ser pungente, principalmente nas cenas do solitário polícia. Foi isso que senti falta neste terceiro livro da série do Mario Conde.


   #4 - Paisaje de otoño:
   Este é o quarto (e último livro) que reúne um ano da vida de Mario Conde.
   A "Tetralogia das Quatro Estações", como refere o autor no prólogo, começa, assim, no primeiro livro (Um Passado Perfeito), que se desenrola no Inverno (passagem de ano); o segundo (Vientos de cuaresma), passa-se na Primavera; Máscaras, no Verão, e, este, Paisaje de otoño, termina, claro, no Outono, no aniversário do polícia (a 9 de outubro, mesmo dia do aniversário de Leonardo Padura, :-) - mesmo dia, mas não nasceram no mesmo ano), culminando na passagem do ciclone Félix, num final de livro sublime, um dos melhores desta série.
   Todavia, um ciclone mais importante surge na vida do tenente Conde (a leitura dos outros livros é essencial) e ele toma uma decisão irreversível, quando os seus colegas polícias são investigados e o chefe, o Velho, o major Rangel, se aposenta.
   Não falta, sequer, uma cena de 'O Falcão de Malta', que serve de inspiração para uma grande tirada: '«Séptimo: no me agrada la idea de que exista una possibilidad entre cien de que puedas haberme tomado por un imbécil» (...) pero la utilidad de la literatura para explicar la vida volvía a quedarle demonstrada al polícia que rabiosamente sospechaba una cosa: existía más de una possibilidad, casi cien entre cien, de que varias gentes lo hubieran tomado por un imbécil.'
   Mais um excelente livro.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Aqueles Dias

Hoje é o Dia Mundial do Animal. O mais recente membro da família, o Fred, chegou há dois meses. Como passaram rápido! Engordou, tornou-se o rei da casa, usurpando os lugares onde dormem os outros gatos (excepto em cima da TV, que continua a ser o sítio preferido da Dalila).



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Fiz anos há uns dias. Uns quantos acima dos quarenta, mas a balança do PT dá-me 27 anos, por isso, está tudo bem.

--&--

O Freddie faria 70 anos no mês passado.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Leonardo Padura - Vientos de cuaresma

   Terminei o meu primeiro livro em espanhol da série 'Mario Conde', o tenente da polícia de Havana, o último dos românticos, dos nostálgicos, que se apaixona por uma mulher que toca saxofone e que se passa nos finais dos anos 80, sob os ventos quentes do sul, os ventos da quaresma (os primeiros parágrafos são de cortar a respiração, mesmo sob aqueles ventos áridos e sufocantes do deserto). Queda para o tabaco, para a bebida (o eterno rum), inseparável do amigo Flaco Carlos e da comida da sua mãe Josefina. O personagem ideal, aquele por quem temos uma paixonite, nem que seja porque numa outra vida quis ser escritor e leu Pablo Neruda, J.D. Salinger, Ernest Hemingway, Julio Cortázar e Carson McCullers.
   Este é o segundo livro desta série (há quase um ano li 'A Neblina do Passado', que se desenrola mais de uma década depois deste acontecimento). Ainda bem que o primeiro livro desta série do Mario Conde, 'Um Passado Perfeito', se encontra editado em Portugal (um grande achado por 4,90 €); ler em espanhol não é muito difícil, mas, por vezes, tenho de sublinhar as palavras para as traduzir mais tarde. E ler o anterior livro em português ajudou a aprender o nome das personagens e a situar o Conde no seu bairro, no Pré, na cidade. Mas também é um facto que ler o livro no original é uma delícia, especialmente os diálogos entre o Conde e o Flaco Carlos.
   Neste livro, para além de investigar a morte de uma professora do Pré (Pré-Universitário - e na mesma escola onde Conde estudou e conheceu aqueles que são, vinte anos depois, ainda seus amigos),

é a história de Havana que é contada, a Havana de que ele tem saudades e que nunca conheceu.

    A Havana de Chori, por exemplo:

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

domingo, 14 de agosto de 2016

Mais um dia na vida do Fred


Na terça, foi vacinado (e levará o reforço no fim do mês); ontem, foi esterilizado. Tira o colar na terça. Se não vê os outros gatos, é um mimo, mas se eles estão perto, só lhes bufa. A mãe é minha, avisa.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

terça-feira, 19 de julho de 2016

De La Mar - Noa Noa

O terceiro álbum do duo Noa Noa, de Filipe Faria e Tiago Matias, foi apresentado no programa Raízes, da Antena 2. O programa está disponível no RTP Play (aqui). Este disco, De La Mar, é dedicado às canções sefarditas em ladino. A primeira canção é maravilhosa.

domingo, 17 de julho de 2016

Imaginar Los Sitios Posibles Donde Estabas - Luis García Montero

Imaginar los sitios posibles donde estabas,
verte llegar sin noche a La Tertulia,
reconocer tu voz apresurada
al contar una anécdota
o preguntar por mí,
saber que nos mirábamos antes de conocernos,
son capítulos largos de mi vida.


Supongo que también te dejarán a ti
este mismo vacío,
esta impaciencia por estar sin nadie
mientras se nos olvida
todo el calor que duele de olvidado.


El naufragio es un don afín al hombre.
Después de que sucede
suelen tener las huellas
esa incomodidad que tienen las mentiras,
el recuerdo es un dogma,
la soledad el pecho que tú me acariciaste.


Pero cambiando de conversación
el tiempo - buen amigo
que deforma el pasado como el amor a un cuerpo -
hará que cada día no parezca un disparo,
que volvamos a vernos una tarde cualquiera,
en un rincón del año y sin sentir
demasiada impotencia.


Será seguramente
como volver a estar,
como vivir de nuevo en una edad difícil
o emborracharnos juntos
para pasar a solas la resaca.


Igual que quemaduras debajo de los dedos,
en un segundo plano
seguiremos presentes y esperando
ese momento exacto del náufrago en la orilla,
cuando al salir del mar
me escribas en la arena:
«Sé que el amor existe,
pero no sé dónde lo aprendí».

(mais aqui)

terça-feira, 12 de julho de 2016

Um sábado imenso

  Os Jardins Efémeros eram o mote; a visita do Miguel à minha cidade está tão bem descrita aqui. Um dia esplendoroso que teve como primeira paragem um alfarrabista da Rua Direita.
   Este pequeno livro, oferta do Miguel, simboliza um sábado imenso.
 


A Tipografia Guerra é de Viseu

segunda-feira, 11 de julho de 2016

terça-feira, 5 de julho de 2016

Bitaites e queer jazz

Não sei há quantos anos tenho o Bitaites nos meus favoritos; comecei por gravar a página da Rádio Bitaites há uma gamela de anos e lá caía de vez em quando. Não sigo religiosamente, há muito que a rádio se eclipsou, mas quando regresso ao B., encontro sempre bons artigos.

O último post não é excepção: o jazz está a voltar a ser queer. É ler e escutar.

No comboio

A viagem no comboio da ponte daria toda uma novela.

Personagem #1: a estilista de unhas.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Leonardo Padura - Um Passado Perfeito



   Este é o primeiro livro com o tenente Mario Conde, que sonhava em ser escritor como Hemingway. Polícia em Havana, trinta e quatro anos, fumador inveterado, melhor amigo do Magricela, da bebida e dos cozinhados da Josefina.
   O desaparecimento de um colega do liceu leva-o a mergulhar no passado e a enfrentar a sua grande paixão da adolescência.
   Um romance policial, o segundo que leio com o peculiar Mario Conde, mais um dos meus heróis, e Leonardo Padura fá-lo terno, romântico, mas também desencantado, um herói noir perdido nas recordações de uma Havana de outro tempo.
   É daqueles livros impossíveis de largar, a ler nas viagens de comboio, à hora do almoço, em casa, não pela história do desaparecimento, mas pelas emoções e tumultos que suscita no amargurado Mario Conde e pela maneira como Padura o faz, com uma melancolia e uma ternura, mas também com muito humor e é uma pena que a maior parte dos livros, da colecção Noites Brancas, da Asa, esteja esgotada (mas não na versão original, já reservada).

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Comida

No Ibiza, um pequeno restaurante familiar na esquina da João XXI com a avenida de Roma, pedi meia dose de costeletas à salsicheiro, apenas com batata frita e salada de alface e cenoura, porque me apetecia comida caseira, reconfortante, e eu que há tanto tempo não comia umas costeletas, estas do fundo, tão tenras, e as salsichas cortadas aos pedacinhos, com o molho de manteiga, nem me lembrei do colesterol, mas, sim, lembrei-me dos pratos deliciosos da José, a mãe do Carlos Magricela, já não magricela, agora que está inválido, a Josefina de 'Um Passado Perfeito', com o tenente Mario Conde, que estou quase, quase a terminar, e é uma maravilha, uma pequena maravilha.

sábado, 25 de junho de 2016

Sobre o desfiladeiro

'... a casa antiga passou a ser a ala antiga e a parte nova, que é tão excitante que mal posso esperar que a vejas, foi construída mesmo sobre o desfiladeiro. Acho pouco provável que haja outra casa igual no mundo, na minha modesta opinião. O terraço faz-me pensar num velho cartoon na New Yorker, com dois homens a apreciarem a vista do Grand Canyon e um a dizer ao outro: "Já quiseste cuspir até um quilómetro e meio, Bill? Tens aqui a tua oportunidade.' - em conto O Eco.

Paul Bowles, À Beira da Água, Quetzal, Junho 2016.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

terça-feira, 14 de junho de 2016

Zero a zero

   A Redonda diz que a TV é só bola, só bola e não há notícias.
   Concordo.


(este é um grande disco-homenagem. As covers são excelentes. Tenho-o há anos).

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Haruki Murakami


Nem sei bem o que fazer.
Estava tão bem na ignorância, até ler esta notícia.
Mas tenho de dar uso ao Kobo...

Paul Teroux à conversa com Pico Iyer


   O Miguel partilhou, no G+, esta bela conversa entre escritores, o Pico Iyer (que não conhecia. Li, pela primeira vez, uma sua história, na mais recente Granta Portugal) e o Paul Teroux. PT é fabuloso. Sim, é uma longa conversa (1h18m), mas vale a pena, porque é bastante interessante. Discorre não só sobre viagens mas também sobre pobreza, 'filantropia telescópica', livros, claro, sobre livros, autores e leitores e Bruce Chatwin, na parte das questões (por coincidência,li-o há dias).
   Para quem não tiver a paciência para ouvir a conversa integral, o Miguel sugere um pedaço - entre os 55' e a 1h. Eu proponho não só esse bocadinho, mas também o fim da conversa. Ora, mas, na verdade, aconselho, mesmo, que a oiçam do princípio ao fim.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

My barber, my dry-cleaning lady and my bodega guy

Não é em Nova Iorque, mas poderia escrever sobre a minha cabeleireira, duas ruas abaixo da minha casa (que comenta sempre como gosta do meu forte cabelo); sobre o casal que tem a loja de limpeza a seco, que fica a um minuto de casa, e que me estragou os cordões de uma canadiana. Estive à espera dois meses pelo casaco arranjado, mas continuo a lá ir, quando encontro a porta aberta (estando mais vezes fechada do que aberta), porque, apesar desse incidente, o serviço é bom e barato; ou sobre as pessoas dos três cafés que vou saltitando na semana, à hora do almoço, entre a Avenida de Roma, a Praça do Areeiro e a Avenida Almirante Reis, todas muito simpáticas e acho que já me conhecem, embora eu não diga 'É o costume'.

Três histórias sobre relações de amor e perda em Nova Iorque, no The New Yorker (link).

domingo, 5 de junho de 2016

Robert Hayden - Monet's Waterlilies

Le Bassin des Nympheas, 1904, Denver Art Museum


Today as the news from Selma and Saigon
poisons the air like fallout,
I come again to see
the serene, great picture that I love.

Here space and time exist in light
the eye like the eye of faith believes.
The seen, the known
dissolve in iridescence, become
illusive flesh of light
that was not, was, forever is.

O light beheld as through refracting tears.
Here is the aura of that world
each of us has lost.
Here is the shadow of its joy.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Lembretes

Acabei de gravar um lembrete no outlook em como tenho de imprimir os lembretes de trabalho para deixar à minha colega, antes de ir de férias...

segunda-feira, 23 de maio de 2016

A palavra


Esta imagem foi retirada da revista da C.M. da minha terra. Conseguem encontrar 'aquela' palavra que eu uso em vez de...? ;) Afinal, não sou a única.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Ao meio-dia, ou carrega ou alivia

   Depois de tantos anos presa em nenhures, só um dilúvio é que me impede de sair à hora do almoço.
   Carregou bem. Agora, está a aliviar. 

domingo, 8 de maio de 2016

Deptford Goth - Life After Defo

Um extraordinário álbum já com uns anos que nunca me canso de ouvir. Há 3 anos, escrevi isto.
Em escuta contínua no S.

Life after Defo dá o título ao álbum. Aqui está o vídeo:

sábado, 7 de maio de 2016

Lydia Davis - Não Posso nem Quero

   Esta colectânea de contos de Lydia Davis tem histórias tão pequenas, micro-relatos, como contos de várias páginas, escrevendo sobre a morte da irmã, ou sobre bolsas ganhas e discorrendo sobre a dificuldade de ser professora, escrevendo, afinal, sobre a vida, simples ou complicada, triste ou divertida, emotiva ou um simples apontamento.
   E vacas, também escreve sobre vacas, três vacas que observou em estações diferentes, vacas sentadas, em pé, de perfil, uma escrita que hipnotiza, poética: 'Sobre a neve, à distância, caminhando muito separadamente nesta direcção, parecem grandes traços negros de uma caneta'; 'Quando ele está parado, uma miniatura, com o focinho enfiado na erva à semelhança da mãe, como o seu corpo é tão pequeno e as suas patas tão finas, parece um agrafo negro e largo'.
   Uma outra história é sobre um 'infeliz erro biográfico' publicado num boletim informativo da livraria Harvard, delicioso e irónico, assim rematando a carta ao gerente de marketing: '... a menos que, com base no conteúdo do meu livro, no seu título, ou na minha fotografia reconhecidamente de olhar um pouco selvagem, os vossos clientes tenham partido do princípio de que, a dada altura, estive internada no McLean.'
   Mas o conto que mais me emocionou foi sobre a irmã mais velha, que tinha morrido, depois de algum tempo em coma, devido a um tumor. Nem sempre era fácil a relação entre ambas, a irmã mais velha que cuidou dela e que lhe oferecia presentes em forma de animais. O conto intitula-se 'As Focas'e tem 22 páginas, é longo, tocante, autobiográfico, fixando-se em pequenos objectos do quotidiano que a irmã comprava e que, depois de tantos anos após a morte, ainda lhe diziam tanto. Ou na passagem de ano, pois o pai também morrera por essa altura: 'A primeira passagem de ano sobre a morte de ambos pareceu-me uma nova traição - estávamos a deixar para trás o último ano em que eles tinham vivido, um ano que tinham passado, e a começar um ano que eles nunca iam conhecer.'
Ou a dor da ausência: 'Agora posso olhar para essa mesma cama em que ela dormiu e desejar que ela regressasse, pelo menos por algum tempo. Não teríamos de falar, nem sequer teríamos de olhar uma para a outra, mas seria um consolo tê-la simplesmente ali - os seus braços, os seus ombros largos, o seu cabelo.'

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Instantâneos da hora do almoço

   Hoje, depois do almoço, fui passear na Avenida de Roma e entrei na livraria Barata. Ontem, tinha comprado numa promoção de uma livraria online um livro que foi publicado hoje. Não resisti, contudo, em folheá-lo e ler uma frase ou outra. Ao vivo, é outra coisa e tinha ficado com ideia de ter poucas páginas. Não tem.
   Já recusei comprar livros por causa do tipo de letra utilizado. De há uns tempos para cá, estão a ser impressos livros de uma determinada editora, não me lembro de qual, com a letra fina, pequena; reparo nos T’s maiúsculos que são muito delicados, gosto deles, seriam bonitos impressos numa folha A3, enormes T’s pendurados na minha sala, por exemplo, mas incomoda-me ler um carácter demasiado fino e pequeno, por isso, ficam na mesa da livraria. Podem ser bons livros, mas não compro.
   Tive sorte com o livro que comprei pela internet. Não tem letra fina.

   *

   Antes de regressar ao trabalho, fui a um supermercado e comprei maçãs. Saí, virei à direita e vi uma mulher a tirar uma fotografia aos seus amigos que caminhavam à sua frente e que se tinham virado para a pose, (várias mulheres e dois homens). Reparei em dois círculos colados nos cantos superiores do telemóvel. Pareciam as orelhas do Rato Mickey, mas em dourado.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Macbeth

Hoje, 400 anos volvidos sobre a morte do Bardo, fui ver Macbeth.


Excelente a interpretação de Marion Cottilard, dos actores secundários e, na última parte desta adaptação ao cinema, de Michael Fassbender.

Já tinha comentado um post do Limite sobre o mesmo tema, com o link de uma crítica do The Guardian.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Sábado, amigos, teatro e TW

   O dia de sábado terminou em beleza com a peça 'Jardim Zoológico de Vidro', no Teatro da Politécnica e encenada por Jorge Silva Melo, na companhia do Miguel e do Eduardo.
(não há muitos meses, esta mesma peça de Tennessee Williams tinha sido apresentada no S. Luiz, com o título 'O Jardim Zoológico de Cristal', com encenação de Sandra Faleiro).
   Tinha-a lido há pouco tempo, queria vê-la, pelo que aproveitei a vinda do Miguel e do Eduardo à capital e sugeri este programa cultural.
  Depois da peça, o Eduardo ainda queria dar um pézinho de dança, mas teve de ficar para a sua próxima visita a Portugal; com tempo, reserva-se uma noite num hostel em Lisboa. Nessa altura, farra, Eduardo! :p
   Antes, um almoço com o João, o Luís, a Patty, a mãe do João, o João Roque e muitas trocas de livros (para manter a tradição); a gata Bia já cortou um pouco a timidez e deixou fazer festas (sortudo do Miguel) e as sobremesas do João estão mais que aprovadas.
   A única fotografia do dia feliz foi uma selfie do Eduardo na Politécnica.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Hiper online

   As minhas grandes compras faço no continente online; existe um hipermercado no centro comercial perto da minha casa.
   Sigo a estratégia de ir ao site, seleccionar os artigos (areia dos gatos, lixívia, gel verde, leite, tudo em grandes quantidades) e esperar alguns dias até finalizar a compra, aguardando a oferta do serviço de entrega. Normalmente, a loja online oferece o serviço, isto é, acumula em cartão o custo.
   Nas últimas compras, ofereceram não só o serviço de entrega, mas também um vale de 5€, a acumular no cartão, por não ter recebido alguns produtos (recebi-os todos, mas se eu uso aquela estratégia, eles também não são parvos). Fazendo as contas, e com os descontos em alguns artigos, mesmo sem a oferta do serviço de entrega, querias, era, duas vezes seguidas... comprei mais areias, umas lâmpadas economizadoras com 50% de desconto e mais uns quantos produtos assim com promoções de 50%.
   Nesta última entrega faltavam vários artigos, os que tinham desconto, claro, massa fusilli, cápsulas delta, mas, em contrapartida, recebi umas simpáticas ofertas, umas amostras de mistura de cereais pensal e mokambo, umas quantas de gel de banho e uma garrafa de água júnior (na outra compra tinha recebido amostras semelhantes do gel de banho e de natas sem lactose e água com gás, enfim, uma festa).
   Mas, agora, se receber um vale de 5€ a acumular em cartão, é melhor vir atrelado à oferta do serviço de entrega. Se não, nada feito, por muito que aprecie as amostras e as compras serem colocadas na cozinha do meu terceiro andar sem elevador.

terça-feira, 19 de abril de 2016

O Livro da Selva

Baseado no livro de Rudyard Kipling, aqui está um filme maravilhoso, visualmente arrebatador, com um Mogli fenomenal, um naipe de fabulosos actores (neste caso, as suas vozes), uma história memorável e uma deliciosa cena de Balu e Mogli no rio, não esquecendo os créditos finais.

Para miúdos e graúdos (na versão original, claro).

A ver e a ler a crítica no DN (link aqui).

sábado, 9 de abril de 2016

Tomem lá umas asas e voem

   - Então e as aves?
   - Isso foi ao quinto dia, juntamente com os monstros marinhos e todos os seres vivos que se movem nas águas.
   - Assim, de repente? Tomem lá umas asas e voem?
   - Parece que sim.
   - Todas ao mesmo tempo? Cegonhas, pardais, gaivotas, pombos, falcões, águias, pintassilgos, melros, corvos, codornizes?
   - Com alguns minutos de diferença, provavelmente.
   - Deve ter sido uma coisa linda de se ver, tudo a bater as asas.
   - Podem crer. Uma coisa linda...

João Ricardo Pedro, Um Postal de Detroit, Dom Quixote, 2016, ebook.


Lendo a amostra sem intenções de comprar o livro, até este excerto.
O ebook já está na biblioteca do Kobo...

domingo, 3 de abril de 2016

Nada

"Good night," the other said. Turning off the electric light he continued the conversation with himself. It is the light of course but it is necessary that the place be clean and pleasant. You do not want music. Certainly you do not want music. Nor can you stand before a bar with dignity although that is all that is provided for these hours. What did he fear? It was not a fear or dread. It was a nothing that he knew too well. It was all a nothing and a man was a nothing too. It was only that and light was all it needed and a certain cleanness and order. Some lived in it and never felt it but he knew it all was nada y pues nada y nada y pues nada. Our nada who art in nada, nada be thy name thy kingdom nada thy will be nada in nada as it is in nada. Give us this nada our daily nada and nada us our nada as we nada our nadas and nada us not into nada but deliver us from nada; pues nada. Hail nothing full of nothing, nothing is with thee. He smiled and stood before a bar with a shining steam pressure coffee machine.
"What's yours?" asked the barman.
"Nada."

Ernest Hemingway, A Clean, Well-Lighted Place. 1926.

segunda-feira, 28 de março de 2016

Hotel Lutécia

   Posso afirmar que, até aos quarenta anos, só tinha amado uma vez. Ela chamava-se Carla Margarida e conhecemo-nos na primeira classe. Ao longo dos anos, em todas as mulheres que conheci, em todas as que amei, era ela que abraçava, era com ela que fazia amor, que adormecia e acordava. Procurava no rosto daquelas mulheres semelhanças, questionava se ela teria os mesmos olhos verdes que eu fitava naqueles momentos, se já tinha aquelas rugas ao pé da boca que eu percorria com a ponta dos dedos ou se os ombros pintalgados que beijava teriam igual curva delicada.
   Carla Margarida, do nariz e dos ombros sardentos, da franja e da cara redonda como a lua cheia, dos olhos verdes, do cabelo arruivado e do sorriso que me cativou aos seis anos. Era a minha melhor amiga, era o meu amor.
   Durante quarenta anos, não conheci mais ninguém com este nome. De facto, a Carla Margarida da minha infância continua a ser a única. Os mortos não contam.
   Há trinta anos que ela saiu da minha vida. Não acabámos a primária juntas, não fomos para o ciclo como tínhamos planeado, uma última vez estivemos juntas, na tarde do último dia de aulas antes das férias do natal. Ela apertou-me as mãos, depois de guardar os cadernos, o estojo e os livros na mochila, enquanto me entregava uma folha dobrada em quatro. E, antes de sair da sala atrás da mãe, virou o rosto uma última vez, olhou-me, triste, e eu soube que nunca mais a veria.
   Para trás, ficaram os intervalos passados sentadas abraçadas no pátio atrás da escola primária, junto ao muro que dava para a casa da bruxa, para trás ficaram três anos e alguns meses e muitas horas de mãos dadas, segredos sussurrados, trabalhados feitos em conjunto, lanches partilhados; eu dava-lhe o meu pão com marmelada embrulhado num envelope de pano e ela dava-me pão com fiambre, pois eu raramente o comia em casa. E ela gargalhava quando eu abria o pão ao meio, tirava o fiambre, levantava a cabeça e abria muito a boca, com a língua esticada e comia devagar as duas fatias, fazendo ruídos estranhos. E ela continuava a rir sem parar, muito corada, enquanto segurava o meu pão com a marmelada feita pela minha avó. Depois, entretínhamo-nos a fazer bolinhas com o miolo de pão e atirávamo-las aos pombos do pátio, trocando sorrisos.
   Recordo-me tão bem como se tivesse sido ontem e já passaram trinta anos. Ao contrário das frases feitas, tais como o tempo ajuda a esquecer, apaga quase tudo, tal como apagou as palavras escritas a lápis naquela folha dobrada que guardo num dos meus livros de histórias, e em que, ao longo dos anos, procurei, numa ânsia de finalmente, finalmente, pelo menos uma vez, uma única e indestrutível vez, mal desdobrasse a folha, as palavras surgissem límpidas na letra infantil da Carla Margarida e eu não me esforçasse por decifrar naquelas sombras, embora a soubesse de cor, a declaração de amor “amo-te para sempre, vamos ficar juntas para sempre, sempre, sempre”, e apenas, restar, naquela folha A4 pautada e vincada, amarelada pelos anos, malmequeres nos cantos, desenhados com grandes pétalas a lápis HB n.º 2, pétalas coloridas a grafite, a cor da cinza, a cor do meu amor perdido, dizia eu, afinal, ao contrário das frases feitas, o tempo não ajudou a extinguir o meu amor e a dor da separação.
   Até há dois anos.
   O que aconteceu foi que eu a seguir narro, um acontecimento tão peculiar no qual duas vidas se entrelaçam no meio da morte de uma estranha que tinha o nome do meu amor de infância.
   Eu caminhava sem pressa, tinha saído do trabalho minutos antes e, com aquela curiosidade mórbida que me faz abrir o jornal no café e ir para a página da necrologia, li os vários obituários que estavam colados no vidro da montra de uma agência funerária da Avenida de Roma. Seis obituários, distribuídos em duas colunas e, no cimo da segunda coluna, deparei-me com o nome Carla Margarida. Omito os quatro apelidos, não interessa para esta história, deixou viúvo José Maria, que lhe deu os dois últimos nomes, e três filhos órfãos, dois rapazes, Tiago e Luís, e uma filha, Margarida, achei comovedor a criança ter esse nome. Seria criança, seria já uma jovem mulher, teria filhos, seria a Carla Margarida da foto avó?
   Olhando para aquela fotografia a preto e branco perguntei-me se poderia ser a minha Carla Margarida trinta anos depois, uma mulher de pele flácida, rosto magro e abatido, cabelo grisalho, exposta numa montra a trezentos quilómetros de distância da cidade de província onde nos tínhamos conhecido. E li que nesse dia, pelas dezoito horas e trinta minutos, se realizaria a missa de sétimo dia na igreja de São João de Deus.
   Caminhei até à Praça de Londres, entrei na igreja e sentei-me ao fundo. Assisti à missa do sétimo dia pela Carla Margarida, puxando uma pele rebelde de uma cutícula até fazer sangue. Apesar do mercurocromo que a minha avó me esfregava nas unhas para eu não as roer até ao sabugo, naquela situação perturbadora, eu ataquei sem clemência, agora as já não maltratadas unhas, mas algo mais frágil, e senti uma punhalada de dor por ter puxado com demasiada força a pele. Chupei o sangue e senti que naquele sabor metálico estava todo o meu sofrimento, toda a dor que eu recusava em abandonar, como recusava em acreditar que, trinta anos antes, eu tinha perdido o meu amor.
   Terminada a missa, levantei-me e olhei para a frente, procurando a família inconsolável no meio da pequena multidão enlutada e que se transfigurou num homem de meia idade, careca e com peso a mais, em dois jovens homens que agradeciam cumprimentando os presentes e numa mulher amparando o pai com um esguio braço sobre o seu ombro. Dei-me conta, então, que a morta por quem foi rezada a missa não podia ser a Carla Margarida da minha infância, a não ser que tivesse sido mãe muito jovem, porque a filha andaria à volta dos trinta anos, era muito alta, mais alta do que eu, pelo menos, era morena, magra, e não notei semelhanças com o meu amor, mas alguma coisa que intrigou, porque aproximei-me devagar, evitando fazer barulho com os sapatos e estendi uma mão para o viúvo. Achei tão caricata aquela situação, estar na missa de sétimo dia de uma mulher que tinha o mesmo nome da rapariga por quem eu estive apaixonada toda a minha vida, que escondi uma risada nervosa e, ao mesmo tempo que um soluço me obrigou a encolher o estômago, encheu-me os olhos de lágrimas. A mulher estendeu a mão ao mesmo tempo que eu e apertou-me o antebraço. Tão delicadamente foi o seu toque que eu virei a cara e olhei-a pela primeira vez. Ela perguntou-me se eu estava bem, o pai agradeceu-me a presença com uma mão suada e mole, um dos filhos perguntou algo e eu respondi que era uma amiga. Penso que a resposta pareceu agradar e eu afastei-me com os olhos marejados, virando-me para sair da igreja.
   Na rua, inspirei fundo, tirei os óculos e limpei os olhos com um gesto brusco, procurei um lenço de papel nos bolsos do casaco e fiquei parada, no meio da Praça de Londres, e pensei naquela situação absurda, enquanto esfregava as lentes.
   Não sei quanto tempo fiquei ali, sem me mexer, sei que o entardecer foi caindo devagar, o frio de inícios de Abril fez-me tiritar momentaneamente e puxei o fecho do casaco até ao pescoço. A pessoas foram saindo da igreja, dispersando-se, e eu fiquei sozinha junto às escadas, até que senti uma mão num ombro. Virei-me e deparei-me com a filha. Ela sorriu timidamente e, com um gesto de cabeça, indicou a Avenida de Roma. Anuí, sem trocarmos uma palavra, e caminhámos até à estação de comboios.
   Ali, queria despedir-me dela e não sabia como. Não tirara as mãos dos bolsos do casaco durante o trajecto com receio de não conseguir suportar o tremor que atravessava o meu corpo da cabeça à planta dos pés.
   Sem nada fazer prever, ela passou a ponta de um dedo pela minha maçã do rosto, tão levemente como se fosse um fio de teia de aranha que, por vezes, ficava colado na minha cara quando nos escondíamos debaixo dos arbustos, junto ao muro da escola primária, isto foi o que eu pensei naquela altura. Ela sorriu e apontou, com o indicador com que segundos antes me tinha afagado, para a parede branca do prédio à nossa direita. Erguemos a cabeça e, lá no alto, o sol batia no letreiro do Hotel Lutécia. As letras, de um vermelho baço, recordaram-me a cor ocre vermelho do sangue que sugara durante a missa. Ela comentou como era bonito o sol ali a bater, naquele fim de tarde de Abril, e eu acenei, mordiscando o lábio, mas ela reparou no meu embaraço. Beijou-me no rosto e despediu-se de mim com um abraço rápido e com promessa de nos reencontrarmos brevemente.
   No regresso a casa e durante toda a noite nada fez passar a melancolia que senti ao ser abandonada por aqueles braços esguios e por aquele hálito morno, até que acordei a meio da madrugada de um sono sem sonhos nem sobressaltos. Levantei-me, fui à sala, tirei o meu livro de histórias de aventuras da estante, folheei até encontrar a folha A4 e desdobrei-a. Passei a ponta dos dedos pelas palavras desmaiadas e soube que, naquele instante, o meu amor pela Carla Margarida tinha sido apaziguado.

terça-feira, 22 de março de 2016

Quem não está ocupado em nascer está ocupado em morrer

'Lembro-me muito bem de um pormenor curioso: a última canção que punham todas as noites, como um aviso discreto aos clientes habituais de que o bar ia fechar, era It's alright (I'm only bleeding), uma velha canção de Bob Dylan que Rodney adorava porque, tal como a mim os ZZ Top me devolviam o desconsolo sem horizontes da minha juventude, a ele era-lhe devolvido o júbilo hippy da sua juventude, ainda que se tratasse de uma canção tristíssima que falava de palavras desiludidas que ecoam como balas e de cemitérios a abarrotar de falsos deuses e de gente solitária que chora e tem medo e vive num poço sabendo que tudo é mentira e que compreendeu cedo de mais o que não vale a pena tentar compreender, esse júbilo era-lhe talvez devolvido graças a um verso que eu também não consegui esquecer: «Quem não está ocupado em nascer está ocupado em morrer».'

Javier Cercas, A Velocidade da Luz, Edições Asa, p. 30.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Mikael Tariverdiev

   Há coisa de um mês, li uma peça sobre este compositor no Público. Ouvi os vídeos e fui ao youtube procurar outras músicas. Melodias românticas, entre jazz e um toque de chanson française, e Tariverdiev caiu-me no goto. Pesquisei um pouco mais e fui dar com uma crítica do Davide Pinheiro, agora alojado no Sapo.
   A caixa com as obras encontra-se à venda aqui. Em alternativa, existe o Spotify, onde Couple in a Café (da série de televisão 'Seventeen Moments of Spring') toca sem parar.

quinta-feira, 17 de março de 2016

Deus existe e vive em Bruxelas

Deus não aceita que a filha se sente à sua direita, à mesa; deus adora cerveja e usa um velho roupão, meias e chinelos; deus é um sádico, diverte-se enviando catástrofes, doenças e acidentes aos seres humanos; deus maltrata a filha e a mulher, uma deusa e submissa dona-de-casa.

O filme está classificado como comédia; o humor poderia ser mais refinado, mas tem algumas situações caricatas. Não deixa de ser comovente, como na parte em que cada apóstolo tem uma musiquinha dentro de si.

A miúda é um achado, a banda sonora é um must.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Um olá para Guimarães

Dois telefonemas do mesmo número de telemóvel, de um senhor que queria falar para o Belita Supermercados, de Guimarães. E pedi-lhe para dizer o número que estava no cartão do supermercado. Era o meu.

Olá, Belita Supermercados! :-)

domingo, 13 de março de 2016

Quizá Sólo Nos Falte Ser Algo Menos Jóvenes

Quizá sólo nos falte
ser algo menos jóvenes, sentir en otro tono
más distante la vida,
                           sin abusos
con nuestra inevitable humanidad.

De nuevo el paraíso.
Otra vez en la suerte de una casa
no demasiado grande, bajo el sol de los viernes,
un refugio sincero en la colina
donde mirar la tierra con forma de caricia,
mientras marzo se va y abril levanta
la frente de los campos heredados,
a dos horas de viaje.

Junto al cristal dolido de la puerta,
me gusta comprobar que te desean
las raíces por mí, cuando se ciñen
con sus dedos salvajes a tu cuerpo,
a tus enormes días de pezones pequeños,
como sombras de olivo.
Igual que lo hace un sueño, bajas por la pendiente
para dormir conmigo,
incendiando
el encubierto reino de la luz retirada,
que no calla los pleitos de la carne
ni le pone distancia
al ruido mundanal de su vocabulario,
heredado también con estas piedras.

Aunque es más blanco el humo de los leños
y flota en son de paz
sobre el envejecido silencio de estos montes,
aunque los himnos del atardecer
debilitan las voces, acercándolas,
no conozco la senda que me aparte
de un cuerpo al que pedirle dignidad,
un cuerpo no invitado
a sus aniversarios, ese calor litúrgico
de los antepasados
y los bailes antiguos
con los hombros desnudos
parecidos al mar.

Es imposible retirarse a tiempo.

Es imposible,
mientras yo me aventuro a sorprendemos,
decirte, conocerte,
tener un privilegio.
y de nada nos sirven estas horas
que no son de tu edad ni de la mía.

                                   Luis García Montero
                                                (fonte)

terça-feira, 8 de março de 2016

Árvores e Dia da Mulher

Já que os Serviços de Espaços Verdes da CM de Lisboa andam a cortar e arrancar as árvores da Praça de Londres, poderiam aproveitar o balanço e fazer uma razia nas que estão no meio da praça. Aí, eu já veria a manifestação da CGTP em frente à SG...

sábado, 5 de março de 2016

Estou a amolecer com a idade

Esta semana, abri a porta ao vendedor da cabovisão e ao da meo. Esta manhã, aceitei um folheto de uma testemunha de jeová.

quinta-feira, 3 de março de 2016