sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

O conto da Só eu

   Só eu... e os outros

   Os meus olhos fixam-se no espelho rectangular pendurado na parede do bar. Pelo reflexo, observo um casal abraçado no terraço. A porta está entreaberta e os cortinados afastados para os lados. A cabeça da rapariga poisa num ombro largo, a outra figura está de costas, os seus braços envolvem-na delicadamente e ela sorri, tem um sorriso tranquilo num rosto que reconheço. Ela devolve-me o olhar; não pára de sorrir. E sou eu.
   Aceito um copo numa mão que poisei há instantes no balcão e bebo um gole. Conhecidos, amigos, estranhos seguram-me, mas, com uns abanões, liberto-me e, agitada, aproximo-me do terraço.
   Oiço-os a chamar por mim e, antes de desviar o olhar por um instante, reparo numa faúlha a extinguir-se no céu. Quando viro a cabeça, o terraço está vazio.
   Abro mais a porta e o vento atinge-me com força. Há segundos, sei que estávamos aqui, tu e eu, mas, agora, só existe a escuridão.
   Sinto os ouvidos a latejar e a cabeça a andar à roda e sento-me num banco corrido com o copo na mão. Atrás de mim, o ruído é ensurdecedor, gargalhadas, música, escuto o meu nome várias vezes.
   Oiço o copo a estatelar-se no chão e olho para a mão vazia, depois para baixo e, por fim, para o céu estrelado com a lua em quarto minguante.
   Quero mais do que um reflexo num espelho, mas o meu coração está tão partido como o copo e, com força, espezinho os cacos.

12 comentários:

  1. muito atmosférico. e atmosfera carregada, claro. esta série de contos tem revelado uma nova faceta na tua escrita, de que gosto muito.

    este princípio pedia um romance ou uma novela, esses fantasmas da esplanada mereciam dar a conhecer o seu mistério

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    1. obrigada.
      desvendar o mistério dos outros? não. fica assim, que cada um imagine o que quiser :)

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  2. Está muito bom! Adoro a subtileza com que tens escrito, muito bom mesmo! ^^
    Parabéns!

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    1. obrigada. a sorte é que são apenas 250 palavras, não daria conta do recado se fosse uma página :p

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  3. Talvez este seja o meu preferido...na verdade, um é especial, o meu, o anterior e este para mim fazem uma dupla imbatível! Enquanto lia, facilmente construí as imagens na minha cabeça, e o vento quase o senti. :-)

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    1. :), sempre podemos adaptar as histórias, juntas os vários contos e criar um mundo novo.

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  4. Sabes a sensação de ler de seguida, quase sem ler espaços nem pontuações, para ler tudo num instante e ver o final? Foi assim, para mim.
    Brutal!

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  5. Margarida, Uau!!!
    Sem me conheceres conseguiste captar tão bem o meu eu.
    Obrigada pelo teu magnifico texto.

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