quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

O conto do Neko-chan

   Porque nunca lá fui, embora...

   Tenho um saco de plástico na mão esquerda e giro-o, como se se tratasse de um acrobata que, suspenso de cabeça para baixo por uma faixa de pano, rodopia sem parar. Minutos antes, passara por uma mercearia ao pé de casa. Com o indicador e o polegar, faço rodar a asa à volta do dedo médio, cada vez mais apertado; anseio pelo formigueiro que perdura muito tempo depois de soltar a asa.
   Estaco diante de uma estranha porta velha, ao lado do meu prédio. Com curiosidade, abro-a e começo a subir uma escada em caracol, amparando-me a um ferrugento e periclitante corrimão. Cortando o silêncio dilatado pela escuridão, os degraus rangem. Olho para cima e vejo uma ténue claridade que penetra por uma pequena janela rectangular. Não conheço a casa, mas continuo a subir até chegar ao fim das escadas. O dedo lateja de tão apertado. Desenrolo a asa e deixo cair o saco das compras no degrau. Chego a um patamar, segurando-me ao corrimão, mas ele cede subitamente.
   Grito e acordo. O meu coração bate desenfreadamente. Viro a cabeça, olho a janela aberta, o cortinado a esvoaçar para dentro do quarto, e fixo o tecto branco. A tremer, puxo os cobertores até ao queixo. Nada é real, sei que nunca aconteceu, porque nunca lá fui, embora conheça a rua onde moro como a palma da minha mão.
   Levanto-me e, devagar, caminho até à porta. Abro-a, dou um passo em frente e mergulho no vazio.

8 comentários:

  1. tantos contos, Margarida, têm-nos dado a possibilidade de descobrir mais coisas, de mergulhar mais dentro, de perceber coisas (ou julgar perceber, dá igual para a experiência do leitor), de tentar construir uma espécie de teoria da literatura 'margaridiana'.

    apercebi-me, por exemplo, de que os teus contos, todos, ou quase todos, têm sempre as suas 'sapatas' (como se diz na construção civil - perdoa a grosseria da imagem) na infância e na velhice (numa ou noutra ou em ambas). não é relevante o que isso diz acerca de ti, mas é importante para perceber o que move a tua escrita, o que é que ela procura.

    adorei o conto anterior, o das mitocôndrias, porque é tão subtil que chega a ser ambíguo, e exige do leitor que saia da sua poltrona distante e se esforce por entender, quase por tomar posição.

    os teus contos valem sempre tanto pelo que está escrito como pelo que não está lá, deve ser por isso que estás tão bem neste formato de conto muito curto, porque te obriga a deixar não escritas tantas coisas que são relevantes para as histórias.

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    1. teoria quê? :p
      obrigada, são temas fulcrais das minhas histórias, sim.
      fiquei na dúvida no último parágrafo... :/ não sei bem o que queres dizer. se eu me abalançar em escrever o que deixo para trás, tenho receio de me espalhar e o conto perder-se.

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  2. E não é que captaste um pouco de mim: tentar ser curioso, um saco que é de pano que gira sem parar na minha mão. Lembrar de sonhos, não muito.
    Parabéns!

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  3. Mal comecei a ler, lembrei-me da cena do filme "Beleza Americana" :-). Um filme que adorei por isso este teu conto tem um toque esvoaçante.

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