segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

O conto do Pai do No Limite do Oceano

   Vida, solidão, esperança, legado, morte

   Quando eu tinha um pouco mais de trinta anos, avistei-a muitas vezes à hora do almoço. Ela tinha umas pernas elegantes que terminavam nuns tornozelos finos, em contraste com o corpo curvilíneo e as ancas largas, a saia caindo um pouco abaixo do joelho.
   Eu virava a esquina e a via-a a subir a calçada, parar no cimo, tirar a chave da mala e entrar num prédio. Caminhava uns bons metros atrás dela e nunca consegui ver o seu rosto, apenas um vislumbre da face e do nariz parcialmente escondido pelo cabelo castanho a tocar os ombros, antes de abrir a porta e desaparecer.
   Ao longo dos anos, nos meus solitários passeios, procurava-a olhando para as pernas das mulheres na rua. Outras vezes, imaginava que estaria a ver a mesma peça de teatro que eu, separados apenas por duas filas de distância, ou sonhava que chocávamos nas escadas do metropolitano.
   Vinte e cinco anos depois, encontrei-a na fila da bilheteira da estação do comboio que utilizava todos os dias da semana. Esperei que ela se virasse, enquanto observava as pernas graciosas, que tão bem recordava, embora o corpo tivesse alargado e o cabelo embranquecido.
   Abordei-a, mencionando a rua onde eu ainda trabalhava. Ela sorriu, acenando com a cabeça. Esperou que eu comprasse um bilhete e entrámos na mesma carruagem. Vi o meu comboio partir na direcção contrária e apertei-lhe a mão.
   Cinco anos depois, abatido, desço no mesmo cais. No anelar esquerdo, tenho duas alianças.

10 comentários:

  1. Bom, sem palavras para dizer o quanto eu gostei deste post :)

    beijinhos muito grandes

    ResponderEliminar
  2. que bela, e forte, essa imagem de podermos estar a ver a mesma peça de teatro, separados por poucas filas de distância, da pessoa que estamos fadados a encontrar.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. que já foi escrita tantas vezes, cantada outras tantas, filmada.... :)
      (e que simpáticos são em não anotarem um erro... já corrigido)

      Eliminar
  3. Um modo muito simpático de presentear o pai do Limite, no seguimento da avó do Mikel. E tu, tão gentilmente, aceitas o desafio, mostras o teu empenho, resultando tudo num magnífico conto.

    um beijinho.

    ResponderEliminar
  4. Não consigo resistir, e gostei tanto deste teu conto, um dos meus preferidos e talvez porque tenha sido o meu pai a dar o título o torne tão especial.

    Em 250 palavras criaste uma história de amor, e nas entrelinhas está tudo o que uma vida tem. Brilhante!

    Acho que o meu top 3 de contos favoritos está criado.

    O meu pai gostou muito, depois faço-te chegar as palavras dele.

    E partilho contigo o que me lembrei depois de o ter lido pela 2ª vez:

    https://www.youtube.com/watch?v=9zeL70cVoZI

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. o título não era fácil, mas não quis recriar o videoclip do jamie lawson ;)
      ainda bem que gostaram.

      Eliminar
  5. damn, estava já a contar com um final bonito e de repente... até me doeu.
    Mais um favorito :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. também está no meu top. são tantos :)
      pois... o título...

      Eliminar