quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Os Navios da Noite II


   Nada me dá mais prazer do que oferecer um livro, principalmente um de que gostei muito. Foi o que aconteceu quando oferecei este livro hoje, ao almoço, mais de um mês depois de a Lídia fazer anos.
   Comprei-o em formato de ebook mal ficou disponível (é apresentado amanhã ao fim da tarde nas Correntes D'Escritas).
   Dezoito contos fazem parte desta publicação, narrados, na maioria, na primeira pessoa. Tortura, morte, desilusão, perda, uma tristeza imensa numa e noutra história, críticas à sociedade, à política perpassam por muitos deles (tão actuais que são essas histórias!). Não faltam, também, um pedaço de loucura, hipocondria e umas pitadas de ironia.
   A linguagem, apurada, e, embora algum final seja previsível, todas as histórias prenderam-me e emocionaram-me.
   Dois dos contos, por todas as razões, são os meus preferidos: "A minha mãe e eu" e "A ideia do meu pai".

   ...'Pressinto-a nos passos de ninguém que às vezes ouço no corredor, quando estou sozinho em casa. As portas abrem-se por si, sempre que ela passa de um lado para o outro, indo do seu antigo quarto para a sala ou para a cozinha. (...) O meu pensamento comunica permanentemente com o dela. É a pensar que a vejo e ouço em mim e ao redor. O riso dobrado e cristalino como o das crianças. A suavidade dos seus dedos. A força anímica dos olhos postos em mim, quando aqui entro em estado de desânimo. (...) Não me sinto vigiado nem protegido. Trata-se tão-só da sua presença paralela à minha vida. Uma coisa é proteger, outra, muito distinta, é estar ela em mim tal e qual se encontre o meu estado de espírito. A minha solidão nos seus olhos solitários e condoídos. Ela a tentar espreitar-me quando me escondo na casa de banho e tranco a porta por dentro: sento-me no bordo da banheira e choro. Triste. Eu aflito da vida, sem a mínima ideia para a solução dos meus problemas, e ela a vir por trás, a pôr-me uma mão no ombro; essa mão a transmitir-me conforto e confiança na minha capacidade de resolver o assunto e ultrapassar o sofrimento. (...)
   ...Eu, por mim, quero-a sempre presente e ausente na minha vida, aqui em casa ou na rua. Senti-la por perto, esteja acordado ou rendido à paz merecida do meu sono. Saber que alguém está comigo, em mim, aqui e em qualquer parte, nos momentos delicados e difíceis da vida, nos meus breves sonhos - uma mãe tão leve como a asa de um passarinho embalado pela brisa alta da manhã.'


   ...'Quem nunca na vida se sentou num colo paterno, não conhece o misto de desgraça, espanto e euforia de um filho que sente nunca ter tido nos seus braços nada de tão concreto como um pai morto.(...)
   Eu vergo-me ao peso daquele corpo rochoso (...) Trata-se da morte única e numerosa de um homem, do seu passado múltiplo. Com ele haviam morrido a terra, a casa, a família e todos os homens da aldeia. Há um excesso de peso e de morte neste corpo que ameaça esmagar-me e matar-me também. (...) Mas é a terra que exerce sobre ele uma força de gravidade sem limites, uma atracção não só telúrica, mas magnética, cósmica, creio que divina. Pois a terra fora a alma, os sentidos, a explicação da vida do meu pai.(...)
   ...A minha dor do meu pai não pode ser vista nem escutada. (...) Nenhum deles sabe onde mora a dor de um filho na morte do pai e do seu mundo.'

8 comentários:

  1. Margarida estava a ler o teu post e a pensar no meu sonho, sonhei com o Shape e a Chantal, nunca me tinham aparecido num sonho, e apareceram...passei um dia estranho. Os navios da noite são especais.

    ResponderEliminar
  2. Respostas
    1. :) só te posso emprestar o kobo. é um ebook. mas estas partes estão sublinhadas.

      Eliminar
  3. Palavras fortes em ambos os contos, gostei!

    Não sei se "funcionaria" numa história de 300 páginas, talvez a magia dos contos seja mesmo essa, em poucas palavras criar um novo "mundo" feito de letras.

    Bom fim-de-semana!
    Bjs

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. são contos poderosos, estes dois. e se o primeiro acaba por ser reconfortante, o segundo é pungente, mas a escrita é tão boa que eu li-o muitas e muitas vezes.
      bom fim-de-semana.
      bjs.

      Eliminar
  4. Olá Margarida,
    Li o livro em 4 dias. É muito interessante. Alguns contos são tão intensos que me parecia estar a viver esses episódios. Vou ler outra vez. Se quiseres posso levá-lo para emprestares aos amigos. Beijos. Lídia

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. olá, Lídia.
      ainda bem que gostaste. :)
      sim, vamos marcar um almoço, talvez para a primavera, depois da páscoa, com eles.
      bjs.

      Eliminar