segunda-feira, 28 de março de 2016

Hotel Lutécia

   Posso afirmar que, até aos quarenta anos, só tinha amado uma vez. Ela chamava-se Carla Margarida e conhecemo-nos na primeira classe. Ao longo dos anos, em todas as mulheres que conheci, em todas as que amei, era ela que abraçava, era com ela que fazia amor, que adormecia e acordava. Procurava no rosto daquelas mulheres semelhanças, questionava se ela teria os mesmos olhos verdes que eu fitava naqueles momentos, se já tinha aquelas rugas ao pé da boca que eu percorria com a ponta dos dedos ou se os ombros pintalgados que beijava teriam igual curva delicada.
   Carla Margarida, do nariz e dos ombros sardentos, da franja e da cara redonda como a lua cheia, dos olhos verdes, do cabelo arruivado e do sorriso que me cativou aos seis anos. Era a minha melhor amiga, era o meu amor.
   Durante quarenta anos, não conheci mais ninguém com este nome. De facto, a Carla Margarida da minha infância continua a ser a única. Os mortos não contam.
   Há trinta anos que ela saiu da minha vida. Não acabámos a primária juntas, não fomos para o ciclo como tínhamos planeado, uma última vez estivemos juntas, na tarde do último dia de aulas antes das férias do natal. Ela apertou-me as mãos, depois de guardar os cadernos, o estojo e os livros na mochila, enquanto me entregava uma folha dobrada em quatro. E, antes de sair da sala atrás da mãe, virou o rosto uma última vez, olhou-me, triste, e eu soube que nunca mais a veria.
   Para trás, ficaram os intervalos passados sentadas abraçadas no pátio atrás da escola primária, junto ao muro que dava para a casa da bruxa, para trás ficaram três anos e alguns meses e muitas horas de mãos dadas, segredos sussurrados, trabalhados feitos em conjunto, lanches partilhados; eu dava-lhe o meu pão com marmelada embrulhado num envelope de pano e ela dava-me pão com fiambre, pois eu raramente o comia em casa. E ela gargalhava quando eu abria o pão ao meio, tirava o fiambre, levantava a cabeça e abria muito a boca, com a língua esticada e comia devagar as duas fatias, fazendo ruídos estranhos. E ela continuava a rir sem parar, muito corada, enquanto segurava o meu pão com a marmelada feita pela minha avó. Depois, entretínhamo-nos a fazer bolinhas com o miolo de pão e atirávamo-las aos pombos do pátio, trocando sorrisos.
   Recordo-me tão bem como se tivesse sido ontem e já passaram trinta anos. Ao contrário das frases feitas, tais como o tempo ajuda a esquecer, apaga quase tudo, tal como apagou as palavras escritas a lápis naquela folha dobrada que guardo num dos meus livros de histórias, e em que, ao longo dos anos, procurei, numa ânsia de finalmente, finalmente, pelo menos uma vez, uma única e indestrutível vez, mal desdobrasse a folha, as palavras surgissem límpidas na letra infantil da Carla Margarida e eu não me esforçasse por decifrar naquelas sombras, embora a soubesse de cor, a declaração de amor “amo-te para sempre, vamos ficar juntas para sempre, sempre, sempre”, e apenas, restar, naquela folha A4 pautada e vincada, amarelada pelos anos, malmequeres nos cantos, desenhados com grandes pétalas a lápis HB n.º 2, pétalas coloridas a grafite, a cor da cinza, a cor do meu amor perdido, dizia eu, afinal, ao contrário das frases feitas, o tempo não ajudou a extinguir o meu amor e a dor da separação.
   Até há dois anos.
   O que aconteceu foi que eu a seguir narro, um acontecimento tão peculiar no qual duas vidas se entrelaçam no meio da morte de uma estranha que tinha o nome do meu amor de infância.
   Eu caminhava sem pressa, tinha saído do trabalho minutos antes e, com aquela curiosidade mórbida que me faz abrir o jornal no café e ir para a página da necrologia, li os vários obituários que estavam colados no vidro da montra de uma agência funerária da Avenida de Roma. Seis obituários, distribuídos em duas colunas e, no cimo da segunda coluna, deparei-me com o nome Carla Margarida. Omito os quatro apelidos, não interessa para esta história, deixou viúvo José Maria, que lhe deu os dois últimos nomes, e três filhos órfãos, dois rapazes, Tiago e Luís, e uma filha, Margarida, achei comovedor a criança ter esse nome. Seria criança, seria já uma jovem mulher, teria filhos, seria a Carla Margarida da foto avó?
   Olhando para aquela fotografia a preto e branco perguntei-me se poderia ser a minha Carla Margarida trinta anos depois, uma mulher de pele flácida, rosto magro e abatido, cabelo grisalho, exposta numa montra a trezentos quilómetros de distância da cidade de província onde nos tínhamos conhecido. E li que nesse dia, pelas dezoito horas e trinta minutos, se realizaria a missa de sétimo dia na igreja de São João de Deus.
   Caminhei até à Praça de Londres, entrei na igreja e sentei-me ao fundo. Assisti à missa do sétimo dia pela Carla Margarida, puxando uma pele rebelde de uma cutícula até fazer sangue. Apesar do mercurocromo que a minha avó me esfregava nas unhas para eu não as roer até ao sabugo, naquela situação perturbadora, eu ataquei sem clemência, agora as já não maltratadas unhas, mas algo mais frágil, e senti uma punhalada de dor por ter puxado com demasiada força a pele. Chupei o sangue e senti que naquele sabor metálico estava todo o meu sofrimento, toda a dor que eu recusava em abandonar, como recusava em acreditar que, trinta anos antes, eu tinha perdido o meu amor.
   Terminada a missa, levantei-me e olhei para a frente, procurando a família inconsolável no meio da pequena multidão enlutada e que se transfigurou num homem de meia idade, careca e com peso a mais, em dois jovens homens que agradeciam cumprimentando os presentes e numa mulher amparando o pai com um esguio braço sobre o seu ombro. Dei-me conta, então, que a morta por quem foi rezada a missa não podia ser a Carla Margarida da minha infância, a não ser que tivesse sido mãe muito jovem, porque a filha andaria à volta dos trinta anos, era muito alta, mais alta do que eu, pelo menos, era morena, magra, e não notei semelhanças com o meu amor, mas alguma coisa que intrigou, porque aproximei-me devagar, evitando fazer barulho com os sapatos e estendi uma mão para o viúvo. Achei tão caricata aquela situação, estar na missa de sétimo dia de uma mulher que tinha o mesmo nome da rapariga por quem eu estive apaixonada toda a minha vida, que escondi uma risada nervosa e, ao mesmo tempo que um soluço me obrigou a encolher o estômago, encheu-me os olhos de lágrimas. A mulher estendeu a mão ao mesmo tempo que eu e apertou-me o antebraço. Tão delicadamente foi o seu toque que eu virei a cara e olhei-a pela primeira vez. Ela perguntou-me se eu estava bem, o pai agradeceu-me a presença com uma mão suada e mole, um dos filhos perguntou algo e eu respondi que era uma amiga. Penso que a resposta pareceu agradar e eu afastei-me com os olhos marejados, virando-me para sair da igreja.
   Na rua, inspirei fundo, tirei os óculos e limpei os olhos com um gesto brusco, procurei um lenço de papel nos bolsos do casaco e fiquei parada, no meio da Praça de Londres, e pensei naquela situação absurda, enquanto esfregava as lentes.
   Não sei quanto tempo fiquei ali, sem me mexer, sei que o entardecer foi caindo devagar, o frio de inícios de Abril fez-me tiritar momentaneamente e puxei o fecho do casaco até ao pescoço. A pessoas foram saindo da igreja, dispersando-se, e eu fiquei sozinha junto às escadas, até que senti uma mão num ombro. Virei-me e deparei-me com a filha. Ela sorriu timidamente e, com um gesto de cabeça, indicou a Avenida de Roma. Anuí, sem trocarmos uma palavra, e caminhámos até à estação de comboios.
   Ali, queria despedir-me dela e não sabia como. Não tirara as mãos dos bolsos do casaco durante o trajecto com receio de não conseguir suportar o tremor que atravessava o meu corpo da cabeça à planta dos pés.
   Sem nada fazer prever, ela passou a ponta de um dedo pela minha maçã do rosto, tão levemente como se fosse um fio de teia de aranha que, por vezes, ficava colado na minha cara quando nos escondíamos debaixo dos arbustos, junto ao muro da escola primária, isto foi o que eu pensei naquela altura. Ela sorriu e apontou, com o indicador com que segundos antes me tinha afagado, para a parede branca do prédio à nossa direita. Erguemos a cabeça e, lá no alto, o sol batia no letreiro do Hotel Lutécia. As letras, de um vermelho baço, recordaram-me a cor ocre vermelho do sangue que sugara durante a missa. Ela comentou como era bonito o sol ali a bater, naquele fim de tarde de Abril, e eu acenei, mordiscando o lábio, mas ela reparou no meu embaraço. Beijou-me no rosto e despediu-se de mim com um abraço rápido e com promessa de nos reencontrarmos brevemente.
   No regresso a casa e durante toda a noite nada fez passar a melancolia que senti ao ser abandonada por aqueles braços esguios e por aquele hálito morno, até que acordei a meio da madrugada de um sono sem sonhos nem sobressaltos. Levantei-me, fui à sala, tirei o meu livro de histórias de aventuras da estante, folheei até encontrar a folha A4 e desdobrei-a. Passei a ponta dos dedos pelas palavras desmaiadas e soube que, naquele instante, o meu amor pela Carla Margarida tinha sido apaziguado.

18 comentários:

  1. Respostas
    1. é um conto. não imagines cenas esdrúxulas, hum... circunflexas :p
      bjs.

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    2. Adorei mesmo ;) Que belo conto ;)

      Beijinhos

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  2. É um conto tão bem escrito que ao longo da leitura vamos sendo distraídos pela pergunta "será que isso é verdade ou é apenas uma história?!" ... e então retomamos a leitura com vontade de saber o que se segue. E é claro que a pergunta surge talvez apenas para quem não te conhece.
    Excelente trabalho de escrita!

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  3. Sabes o que te digo? É por isso que não acredito no amor, por mais saudades que ele nos dê, deixa sempre em nos um vácuo que nem o tempo e as tais frases feitas são capazes e o preencher. Até diria que nem o cimento seria capaz de esconder esse sentimentos de dizem que se chama de amor.

    Excelente :-)

    Bj

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  4. que texto maravilhoso, Margarida. li-o numa noite muito triste, mas o texto é tão bom e cativante que me conseguiu prender a atenção.

    eu sei que estas coisas são muito subtis, mas se não é a melhor, está seguramente entre as melhores coisas que escreveste.

    tem um problema: quero mais!

    muitos parabéns.

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    1. é o melhor que já escrevi, Miguel.
      obrigada.
      mais? claro, como o CT, escrevo 1 por ano e daqui a 10 anos a índex edita ;)

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  5. A todos os que comentam sobre o meu "livro", indico o teu e os do Miguel para me redimir. E como fã absoluto.

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    1. obrigada, Eduardo.
      faço minhas tuas palavras. :)

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