sábado, 7 de maio de 2016

Lydia Davis - Não Posso nem Quero

   Esta colectânea de contos de Lydia Davis tem histórias tão pequenas, micro-relatos, como contos de várias páginas, escrevendo sobre a morte da irmã, ou sobre bolsas ganhas e discorrendo sobre a dificuldade de ser professora, escrevendo, afinal, sobre a vida, simples ou complicada, triste ou divertida, emotiva ou um simples apontamento.
   E vacas, também escreve sobre vacas, três vacas que observou em estações diferentes, vacas sentadas, em pé, de perfil, uma escrita que hipnotiza, poética: 'Sobre a neve, à distância, caminhando muito separadamente nesta direcção, parecem grandes traços negros de uma caneta'; 'Quando ele está parado, uma miniatura, com o focinho enfiado na erva à semelhança da mãe, como o seu corpo é tão pequeno e as suas patas tão finas, parece um agrafo negro e largo'.
   Uma outra história é sobre um 'infeliz erro biográfico' publicado num boletim informativo da livraria Harvard, delicioso e irónico, assim rematando a carta ao gerente de marketing: '... a menos que, com base no conteúdo do meu livro, no seu título, ou na minha fotografia reconhecidamente de olhar um pouco selvagem, os vossos clientes tenham partido do princípio de que, a dada altura, estive internada no McLean.'
   Mas o conto que mais me emocionou foi sobre a irmã mais velha, que tinha morrido, depois de algum tempo em coma, devido a um tumor. Nem sempre era fácil a relação entre ambas, a irmã mais velha que cuidou dela e que lhe oferecia presentes em forma de animais. O conto intitula-se 'As Focas'e tem 22 páginas, é longo, tocante, autobiográfico, fixando-se em pequenos objectos do quotidiano que a irmã comprava e que, depois de tantos anos após a morte, ainda lhe diziam tanto. Ou na passagem de ano, pois o pai também morrera por essa altura: 'A primeira passagem de ano sobre a morte de ambos pareceu-me uma nova traição - estávamos a deixar para trás o último ano em que eles tinham vivido, um ano que tinham passado, e a começar um ano que eles nunca iam conhecer.'
Ou a dor da ausência: 'Agora posso olhar para essa mesma cama em que ela dormiu e desejar que ela regressasse, pelo menos por algum tempo. Não teríamos de falar, nem sequer teríamos de olhar uma para a outra, mas seria um consolo tê-la simplesmente ali - os seus braços, os seus ombros largos, o seu cabelo.'

4 comentários:

  1. Essa das vacas, deste-me vontade de fazer um post para rir :)

    ehehehehehehhehehe

    Beijinhos

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  2. Não é por nada mas estava a ler o teu post e porque falavas em vacas, lembrei-me das que via na minha ilha e mal sabia eu que poderia haver tantas histórias a serem contadas sobre elas.

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